Aulas em esperanto na universidade

Escrito por em Sep 27, 2014 em rafael | 265 comentários

O alojamento estudantil Jowita, onde estou hospedado, fica a poucas quadras do Instituto de Linguística, onde acontecem as aulas. O instituto tem uma quantidade impressionante de departamentos e cursos: aqui é possível estudar línguas e literaturas de diversos países, mais de uma dezena de opções, inclusive há cartazes na universidade incentivando os alunos a participarem de um concurso de tradução de obras literárias coreanas para o polonês; suponho que as traduções premiadas devem acabar sendo publicadas, então imaginem o impacto disso no mercado editorial polonês! Aqui com certeza se tem mais acesso a obras literárias de diversos países, especialmente do leste europeu e da Àsia, literaturas com as quais tive contato somente através do esperanto.

Departamento de Neofilologia do Instituto de Linguística da UAM

Departamento de Neofilologia do Instituto de Linguística da UAM

Aliás, no Brasil a editora José Olympio teve a iniciativa de publicar algumas traduções da literatura em língua holandesa, preenchendo assim uma grave lacuna no nosso mercado editorial, mas eu só tive conhecimento disso graças ao Esperanto: após ler Du Virinoj (Duas Mulheres, em esperanto), de Harry Mulisch, comentei com um esperantista holandês sobre esse livro e ele me sugeriu outras obras. Ao procurá-las descobri que duas estavam traduzidas para o português em edições de bolso baratinhas: O Atentado, de Mulisch, e Queijo, de Willhem Elschot.

No sábado tivemos uma introdução ao curso, feita pela coordenadora, profa. Ilona Koutny. Nos apresentamos, ela nos apresentou o curso e a universidade. Depois disso fomos todos conhecer um pouco da cidade, visitamos o centro histórico ao anoitecer e jantamos todos juntos.

Centro Histórico de Poznań à noite

Centro Histórico de Poznań à noite

As disciplinas deste semestre são Fonética, Cultura Esperantista, Interlinguística e Literatura Esperantista. As aulas e o nível do curso e da universidade superaram todas as minhas expectativas, o grau de profissionalismo dos docentes, a organização do curso, tudo é bem melhor do que eu imaginava. Uma coisa que observo aqui é que os alunos são instigados a pesquisar, quem quer ser tradutor tem que traduzir, quem quer ser pesquisador tem que pesquisar, quem quer ser professor tem que ensinar, enfim, os docentes orientam os estudos de seus alunos, mas conscientes de que este último é o responsável por seu aprendizado. No Brasil, infelizmente, a importância da aula expositiva é superestimada.

E o que é interlinguística? A profa. Vera Barandóvska-Frank, da disciplina de Interlinguística, tratou longamente da definição deste termo: diversos autores deram diferentes definições para isso, algumas muito restritas, como o estudo das línguas planejadas (Alicja Sakaguchi), outras muito amplas, com a de Detlev Blanke, que considera a comunicação internacional incluindo todos os seus aspectos. Eis porque o curso trata de temas tão diversos.

Banheiros: qual escolher?

Banheiros: qual escolher?

Algo diferente que me chamou a atenção na universidade foi o banheiro: na porta, ao invés dos costumeiros desenhos de um homem e uma mulher, há um triângulo e um círculo. Tive que vir até a Polônia para fazer uma grande descoberta: sou um triângulo. Os prédios costumam ter duas portas de entrada, uma depois da outra, pois assim o isolamento térmico é mais eficaz: quando a porta interna se abre, a externa já está fechada. O tempo todo tem ambulâncias passando com a sirene ligada: ou tem muito acidente ou então os motoristas de ambulância são muito dramáticos. Creio que é a segunda opção.

Outra experiência esquisita foi entrar com outro esperantista em uma galeria. Estávamos procurando a C&A, pois nos disseram ser a loja de roupas mais barata da cidade e precisamos comprar roupas de frio para quando voltarmos, no final de janeiro, já que o frio daqui é bem diferente do que temos no Brasil. Entramos no prédio e subimos pela escada rolante. Não encontramos a C&A, mas bem à nossa frente havia uma loja da “Pierre Cardim – São Paulo” (escrito exatamente assim), onde dá para comprar os últimos modelitos do Brasil. Para descer não tinha escada, então pegamos o elevador. Como estávamos no andar 1 e queríamos descer um andar, apertamos o 0, mas fomos parar um andar abaixo da entrada. Subimos pela escada rolante e chegamos de volta no 1° andar! Como só tinha escada para subir, descemos de novo e encontramos, depois de andar um pouco, uma escadaria para chegar até a porta.

Voltando à universidade: as aulas terminaram e em seguida aconteceu um simpósio de interlinguística, com apresentação de trabalhos de muitos pesquisadores de diversas universidades. Muitos trabalhos foram apresentados em esperanto, mas houve também apresentações em inglês e em polonês, muitas delas feitas por pesquisadores que não dominam o esperanto, mas pesquisam temas ligados à interlinguística. Uma surpresa agradável foi encontrar meu amigo Richard, australiano que conheci no Vietnã e reencontrei no ano passado na Islândia, na Itália e em Israel. Ele veio para o Arkones e ficou sabendo do simpósio, ao chegar na universidade me encontrou.

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Após o primeiro dia de simpósio tivemos um banquete, quando experimentamos diversos pratos da culinária polonesa, tomamos vinho e conversamos em um ambiente muito gostoso. No banquete encontrei o Tobiasz, esperantista polonês que trabalha no escritório central da UEA, em Roterdã, ele nasceu aqui em Poznań, e veio para organizar o Arkones – Artaj Konfrontoj en Esperanto (Confrontos Artísticos em Esperanto), que está acontecendo agora. Conheci o Tobiasz no Vietnã, em 2012, e no ano passado nos reencontramos na Islândia.

Depois do banquete muitos foram dormir, mas algumas pessoas resolveram esticar a noite, e eu fui com um grupo de esperantistas a um bar, as pessoas foram indo embora, ficamos eu e quatro poloneses, que decidiram ir a um outro bar, onde ficamos tomando cerveja e conversando até de madrugada.

Agora estou no Arkones, é um evento muito interessante, diferente dos outros encontros de esperantistas que participei, mas sobre ele escreverei depois.

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