Rafael H. Zerbetto

Rolezinho em Berlim

Demorei para escrever sobre como terminou minha segunda ida à Polônia para estudar. Nos últimos dias em Poznań tive aulas de Comunicação, com a profa. Ilona Koutny, e de Gramática do Esperanto, com o prof. Cyril Brosch. Este último pesquisa sobre o Esperanto na universidade de Leipzig, e ao longo da semana acompanhou as aulas e gravou tudo, para usar como material de pesquisa em seu trabalho.

À noite, na quinta e na sexta, fui jantar em um bar em companhia de colegas de curso e graças ao bom papo não vimos o tempo passar e acabamos indo dormir tarde. Após a semana de aulas, tivemos a excursão para Toruń, já relatada.

Com colegas de curso no Bar a Boo

Com colegas de curso no Bar a Boo

Ao voltar de Toruń, ainda no trem, comecei a sentir minha garganta seca e dolorida. Desde então não parei de sentir incômodos típicos de um resfriado, só fui me curar depois de uma semana no calor do Brasil. Em Poznań esfriava cada dia mais, podia-se ver as camadas de neve acumulada nos parques, cada vez mais grossa, e eu fiz a besteira de comprar passagem para o ônibus das 4:30, saindo de Poznań de madrugada em pleno inverno.

Primeiro tive que ficar de madrugada no saguão do albergue esperando dar a hora para sair. Desisti de pegar o transporte público noturno e solicitei um táxi, pois estava nevando, e caía muita neve. No caminho para o ponto de ônibus não se via a estrada, quanto mais andávamos mais a calçada e a rua viravam uma coisa só, e a neve caindo atrapalhava a visibilidade. Ao caminhar do táxi até um prédio onde me abriguei, a menos de cinco metros, fiquei com as roupas cobertas de neve. Os passageiros iam chegando pouco a pouco, e por fim chegou o meu ônibus, justamente no momento em que, para nossa sorte, parou de nevar (o ponto não é coberto).

Finalmente consegui dormir um pouco. Acordei em Berlim. Chegamos meia hora adiantados. Não consegui acessar a internet para tentar contactar esperantistas de Berlim. Um deles havia me contactado no dia anterior propondo nos encontrarmos para um café, mas só fui ver a mensagem dele ao chegar no Brasil. Tinha um dia livre em Berlim e queria aproveitá-lo. Mas como? Decidi ir até a estação central de trem e colocar minha mala no guarda-volumes, ficando livre para passear. Então segui a pé até a ilha dos Museus e dessa vez visitei o Neues, famoso pelo busto da Nefertiti, mas que tem muitas atrações interessantes além dela: múmias e sarcófagos, artefatos de diversas civilizações antigas, um acervo realmente impressionante.

Berlim, próximo ao Bundestag. As cruzes à margem do rio marcam o local onde ficava a divisa entre as duas alemanhas.

Berlim, próximo ao Bundestag. As cruzes à margem do rio marcam o local onde ficava a divisa entre as duas alemanhas.

Após horas no museu, decidi procurar alguma opção rápida e barata para comer no caminho até a estação. Acabei comprando um kebab que estava delicioso. Me sentei em uma praça e tirei as luvas para comê-lo, pois estava com muita fome, mas após comer metade, o frio era tanto que não aguentava minhas mãos congelando e guardei o lanche para colocar novamente as luvas. Comi o resto do kebak dentro da estação, onde é mais quente e não tem vento. Aliás, estava ventando muito naquele dia, às vezes parecia que o vento iria me carregar. Divertido, mas não tanto para quem está resfriado.

Um fato triste a relatar é que, no caminho até a estação, passei por uma ponte e nela várias jovens alemãs me abordaram pedindo dinheiro para obras sociais. No ano passado, minha primeira vez em Berlim, isso também me aconteceu, no caminho do Bundestag para o Portão de Brandemburgo, e naquela ocasião uma policial viu a mulher me abordando, me advertiu que aquilo é ilegal na Alemanha e deu uma dura na mulher. O fato é que pedir dinheiro para turistas estrangeiros, normalmente fingindo ser de uma ONG que cuida de órfãos ou deficientes físicos, está se tornando cada vez mais comum em Berlim, e é triste ver jovens sem perspectivas, tendo que se submeter a isso para ter o pão. Desde minha primeira visita à Europa, em 2013, percebo que a situação econômica do continente melhorou um pouco, mas ainda é crítica.

Entre o Bundestag e a Estação Central (ao fundo) não há calçada!

Entre o Bundestag e a Estação Central (ao fundo) não há calçada!

Peguei minha mala e fui para o ponto do ônibus. Cheguei no aeroporto mais cedo do que previa, então fui ao banheiro e aproveitei para reorganizar minha mala. Me surpreendi ao constatar que no banheiro havia uma máquina de vender artigos de sex-shop. Pensei “por que raios uma máquina dessas bem no aeroporto?”, mas enfim… Acabei encontrando a Karina, minha amiga e colega de curso, e descobrimos que viríamos nos mesmos vôos. Cheguei com sede na sala de embarque, mas não me dispus a pagar três euros por uma garrafinha de água. Não havia bebedouro em lugar nenhum.

O vôo da Air Berlin atrasou cerca de meia hora, e como era uma conexão apertada em Frankfurt para pegar o vôo da TAM para o Brasil, foi um sufoco chegar a tempo para o embarque, tivemos que andar muito e pegar um trem interno do aeroporto, além das filas para raio-x e imigração, mas ao entrar no avião descobri que uma comissária da TAM tinha em mãos uma lista com os nomes dos passageiros que vinham de Berlim e ia riscando os nomes dos que chegavam para não deixar ninguém para trás. Saímos atrasados, mas chegamos no Brasil antes do horário previsto para a aterrissagem.

 

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Toruń: terra de Copérnico e Grabowski

Estou de volta ao Brasil já faz alguns dias, mas só agora tive tempo de escrever sobre meus últimos dias em Poznań. No próximo texto relatarei como foram os últimos dias de aula e a viagem de retorno ao Brasil, que incluiu um breve passeio em Berlim. Agora quero me ater a um passeio muito especial que fiz com meus colegas de curso: após o fim das aulas fomos todos de trem passar um dia em Toruń, onde fomos recebidos com muito carinho pelos esperantistas locais.

Nos encontramos na estação central de Poznań às 8 da manhã, e de lá seguimos de trem para Toruń. A viagem dura cerca de duas horas, com o trem parando em diversas estações pelo caminho. Contenplei as belas paisagens que vi pelo caminho, e me lembro bem de um grupo de cervos fuçando a neve em busca do capim abaixo dela, e de umas galinhas ciscando na neve, bem ao lado dos trilhos. Chegamos a Toruń após uma viagem tranquila e uma esperantista local nos esperava na estação.

A casa de Copérnico, no centro da cidade.

A casa de Copérnico, no centro da cidade.

Após tomar café da manhã pegamos um ônibus para a cidade. Atravessamos o rio Vistula por uma ponte de ferro que à noite fica toda iluminada, e chegamos ao centro histórico da cidade. Caminhamos por uma rua e de repente estávamos na casa onde morou Nicolau Copérnico, e que hoje funciona como museu. Nela há uma apresentação multimídia com uma maquete iluminada, que conta a história da cidade, e assistimos à apresentação narrada em esperanto. Visitamos brevemente o museu e de lá fomos para a catedral onde Copérnico foi batizado, mas não a visitamos.

Depois de uma breve parada em um café, fomos até a Casa de Cultura da Juventude, onde um grupo de jovens artistas locais nos aguardava para uma apresentação de teatro e poesia em esperanto. De lá seguimos para as ruínas do antigo castelo erguido por cavaleiros durante as cruzadas, e ao redor do qual cresceu a cidade. O castelo foi destruído em uma rebelião popular, os cavaleiros foram expulsos e com parte das ruínas do castelo foi obtida a matéria-prima para a construção de um prédio de três andares para festas e reuniões dos moradores da cidade. No antigo fosso do castelo hoje em dia há um parquinho para as crianças brincarem.

Centro da cidade

Centro da cidade

Após o almoço visitamos o Colégio Nicolau Copérnico, o mais tradicional da cidade. Diante do laboratório de química uma placa traz a homenagem a um grande químico, e também esperantista, polonês: Antoni Grabowski, um dos principais colaboradores na elaboração do primeiro dicionário de termos técnicos de química em língua polonesa, e que foi um dos fundadores da Associação Polonesa de Esperanto e talvez o maior tradutor de poesia para o esperanto. Sua tradução de Senhor Tadeu, de Adam Mickiewicz, além de ser modelo estilístico, tornou a obra máxima da literatura polonesa mundialmente conhecida. Acredita-se que o primeiro diálogo em esperanto tenha acontecido em Varsóvia, justamente entre Grabowski e Zamenhof.

Seguimos para o museu de etnografia. Nossa visita foi guiada em esperanto e recebemos panfletos também em esperanto. O antigo prédio que um dia abrigou cavalaria, e mais tarde um paiol de armas do exército, hoje se presta à função de museu. Aprendemos muito sobre cultura e tradições polonesas, e a exposição tinha como tema a arte de enfeitar, mostrando como as pessoas de diversos grupos étnicos da região enfeitavam suas roupas, ferramentas, casas, etc.

Café oferecido por esperantistas locais. Reparem no salão enfeitado para o carnaval

Café oferecido por esperantistas locais. Reparem no salão enfeitado para o carnaval

Após esta visita, fomos convidados para um café. Pensei que iríamos a uma cafeteria, mas ao adentrar o prédio anexo ao museu, diversos esperantistas locais nos aguardavam com uma mesa cheia de café, chá e biscoitos, com destaque para os biscoitos de especiarias, iguaria tradicional de Toruń, parecida com um pão de mel. Após momentos agradáveis e descontraídos, ainda demos uma volta pela cidade antes de nosso retorno à estação: vimos as muralhas, a prefeitura, a universidade Nicolau Copérnico, igrejas, uma penitenciária redonda, fruto do pensamento de um filósofo inglês que acreditava terem as construções redondas a capacidade de melhorar as pessoas…

O violinista de Toruń, que livrou a cidade das rãs

O violinista de Toruń, que livrou a cidade das rãs

Especialmente interessante para mim foi conhecer uma lenda local: certa vez, na idade média, Toruń foi tomada por rãs, e ninguém sabia como afugentar os bichinhos. Certo dia um comerciante de madeira vindo de longe chegou à cidade, e ao tocar seu violino percebeu que as rãs o admiravam, então teve a ideia de ir embora tocando música, e as rãs o seguiram. Ao sair da cidade ele atirou seu instrumento em um lago, as rãs pularam atrás dele e nunca mais voltaram para a cidade. Como recompensa o rapaz ganhou a mão da filha do prefeito. É ou não é uma história muito parecida com a do flautista de Hameln? Lembrando que no ano retrasado estive em Hameln, outra cidadezinha acolhedora…

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Primeira vez no inverno europeu

Após o congresso, saí do quentíssimo Rio de Janeiro para viajar para a Europa em pleno inverno. Na minha mala quase nada além de roupas pesadas para o frio. O Allan fez a gentileza de me acompanhar até o aeroporto e pela primeira vez peguei o BRT Transcarioca, inaugurado no ano passado e que facilita muito a vida de quem precisa ir do ou para o aeroporto do Galeão.

Foi a primeira vez que viajei para outro continente usando uma empresa brasileira, a TAM, e devo dizer que foi mais confortável do que viajar com empresas européias: boa distância entre as poltronas, boa comida, um bom vinho e além do cobertor e do fone de ouvido que toda empresa fornece, também ganhei uma bolsinha com itens de higiene pessoal e um par de meias, o que até então eu só havia ganho de empresas do oriente médio.

Chegamos em Frankfurt pontualmente. Quando o avião estava iniciando a descida cheguei a ver algumas cidadezinhas coberta de neve, mas Frankfurt não, estava tudo desbotado, as árvores sem folhas, mas neve não havia, embora estivesse bem frio e durante a aterrissagem tudo o que consegui ver foi um rastro, suponho que causado pela condensação do ar frio ao passar pela turbina quente.

De Frankfurt voei para Berlim. Dessa vez combinei de encontrar o Dennis na empresa dele. Fui de ônibus até a estação de trens principal de Berlim, para de lá seguir a pé. Estava frio, 4°C, não chovia, mas o chão estava molhado e de vez em quando sentia gotículas de água caindo do céu. Cheguei ao escritório e o Dennis me ofereceu um Clube Mate, uma bebida popular na Alemanha, mistura de mate com outras coisas. Fiquei um tempo navegando na internet até ele terminar o serviço e fomos embora de carro.

No caminho passamos em um lugar muito legal: a Fab Lab Berlin. uma oficina que tem um monte de ferramentas e máquinas para as pessoas usarem: tornos, fresadeiras, furadeira de mesa, impressoras 3D, usinagem a laser, uma mini-oficina de eletrônica… enfim, um lugar onde qualquer um pode criar o que quiser, e o Dennis foi lá para imprimir uma peça que ele projetou para um aparato que ele está desenvolvendo. O local também ministra cursos, um deles se chama “monte sua porópria impressora 3D”, que não só ensina as pessoas a fabricarem a impressora no Fab Lab, mas as faz colocar a mão na massa, e somente uma impressora 3D do Fab Lab foi comprada, as demais foram todas feitas lá mesmo, e são muitas! Gostaria muito que no Brasil tivéssemos algo parecido. Quem quiser conhecer o projeto basta acessar o site http://www.fablab-berlin.org/.

Chegando em casa fomos jantar. Dessa vez eu não era o único hóspede: também a mãe do Dennis estava lá, ela é muito simpática e conversamos um pouco. Ela mora em Hannover e normalmente leva duas horas de trem até Berlim, mas dessa vez levou três horas porque roubaram cabos de eletrificação da ferrovia, impossibilitando a passagem dos trens. E tem gente que jura que isso só acontece no Brasil.

Berlim de manhã: uma fina camada de neve cobrindo tudo

Berlim de manhã: uma fina camada de neve cobrindo tudo

Já estava ficando tarde e fomos dormir. Levantei às 7 da manhã para tomar café, arrumar minhas coisas e estar no metrô às 8, ao olhar para fora, ainda tudo escuro, tive uma imensa surpresa: tudo coberto por uma leve camada de neve. Foi a primeira vez que vi aquela massa branca cobrindo telhados, calçadas, carros… A temperatura era de 1°C. Eram quase 8 horas quando fui para a estação e no caminho vi a neve ao redor dos trilhos ferroviários, sobre os prédios e carros, cobrindo os parques.

Na rodoviária, notei que não havia nenhum ônibus com suporte para transportar bicicletas, também quem vai pedalar com esse frio? A neve ia derretendo aos poucos, às vezes ao pisar eu sentia o gelo derretendo sob meus pés. Embarquei para Poznań e saímos pontualmente. Ao longo de parte do trajeto era possível ver neve cobrindo tudo, mas ao chegar em Poznań já não havia neve alguma, se é que nevou aqui. Ao chegar tomei o bonde até o centro da cidade.

Dessa vez optei por dormir em um albergue, mais barato que o alojamento estudantil e com café da manhã incluído na diária. Estou em um quarto para seis pessoas, mas é baixa temporada e fiquei com o quarto só para mim, e dificilmente terei algum companheiro de quarto por esses dias.

Notícia boa: o câmbio está mais favorável para mim, o que me permite ter algum dinheiro a mais.

Notícia ruim: o restaurante mais barato que encontrei em Poznań fechou em dezembro (e a comida de lá era uma delícia).

Duas coisas que chamam muito minha atenção: a relação dos poloneses com a comida e com as bebidas alcólicas: aqui ninguém come nem bebe (mesmo água) na rua, me disseram que pode até dar multa fazer isso, as pessoas comem nos restaurantes ou em casa, bebem nos bares ou em casa, e onde estou hospedado, ao contrário dos albergues onde me hospedei no Brasil, na Argentina, no Vietnã, na Alemanha, nos quais havia bar e os hóspedes passeavam com bebidas pelos corredores, aqui não se vende nada, nem de comer, nem de beber, há apenas uma cozinha com geladeira comunitária para os hóspedes prepararem suas refeições, mas bebidas alcoólicas só podem ser consumidas dentro dos quartos (e suponho que não podem ser guardadas na geladeira).

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De volta a Poznań

No caminho para o albergue, o bonde passou em frente a Jowita, o alojamento estudantil, e subitamente me lembrei um dos motivos de eu ter escolhido dormir em outro lugar: entre Jowita e o Collegium Novum, onde estudo, passa a via férrea, que só pode ser ultrapassada por viadutos, e o viaduto mais próximo de Jowita está no centro de uma grande obra de infra-estrutura planejada para 2012, quando Poznań sediou um torneio de futebol da UEFA, mas a obra continua até hoje e não notei muita evolução. Por outro lado, a praça e o estacionamento diante de Jowita foram engolidos pela obra, criando ainda mais transtornos, e depois soube que o prédio todo está sem internet porque cortaram os cabos ao quebrar a calçada. Ainda bem que escolhi o albergue!

O albergue onde estou hospedado se chama Poco Loco. É um pouco cansativo subir as escadas, pois fica no último andar de um prédio antigo, no início do centro histórico. Daqui até a universidade a distância é bem menor.

Nos primeiros dias não nevou, apesar do frio. Cheguei a ir para a aula sob um frio de -1°C. Descobri que as roupas que comprei aqui são mais do que suficientes para este inverno: a blusa mais leve está dando conta do recado. A mais pesada creio que será útil quando tivermos um inverno mais rigoroso, já que este é considerado um inverno “quente” para os padrões daqui.

Apresentação de gestos durante aula de comunicação

Apresentação de gestos durante aula de comunicação

No sábado tivemos o primeiro encontro, para tratar de assuntos do curso. Ganhei uma carta da universidade com login, senha e meu e-mail institucional. Foi ótimo rever os amigos.

Domingo foi dia de provas, uma de manhã e outra à tarde. Fomos divididos em grupos de três alunos para ser avaliados oralmente. Cada um recebe um tema para dissertar, e temos que debatê-lo com os colegas e professores também. Além dessas avaliações também há as atividades que fazemos à distância, especialmente o trabalho final de cada disciplina.

Parte da coleção de livros em esperanto da biblioteca da UAM

Parte da coleção de livros em esperanto da biblioteca da UAM

Na segunda e na terça tivemos aulas de duas disciplinas: Morfologia e Sintaxe, com o prof. Michael Farris, e Comunicação, com a coordenadora do Curso, prof. Ilona Koutny. O fato de termos uma turma internacional é muito interessante, pois compartilhamos conhecimentos a respeito de diferenças entre nossas línguas e culturas. Por exemplo, na aula da Ilona tivemos que mostrar gestos comuns em nossos países, e é muito interessante constatar, por exemplo, que o mesmo gesto usado para ofender no Brasil aqui na Polônia é usado para elogiar. Na segunda-feira depois das aulas fomos visitar a biblioteca: há uma coleção de livros em esperanto.

Começando a nevar em Poznań: vista de uma das janelas da universidade.

Começando a nevar em Poznań: vista de uma das janelas da universidade.

Na terça-feira durante a aula da manhã começou a nevar. É um belo espetáculo ver a neve caindo do céu. Nevou o dia todo, com alguns intervalos entre as pancadas de neve. Em alguns momentos nevou mais. Almocei no Stary Browar, uma antiga fábrica de cerveja transformada em shopping, e de lá pude ver a neve caindo no jardim ao lado. Aos poucos a ela vai mudando a paisagem.

Intervalo da aula da tarde, antes de escurecer.

Intervalo da aula da tarde, antes de escurecer.

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Primeira vez no inverno europeu

Foi a primeira vez que viajei para outro continente usando uma empresa brasileira, a TAM, e devo dizer que foi mais confortável do que viajar com empresas européias: boa distância entre as poltronas, boa comida, um bom vinho e além do cobertor e do fone de ouvido que toda empresa fornece, também ganhei uma bolsinha com itens de higiene pessoal e um par de meias, o que até então eu só havia ganho de empresas do oriente médio.

Chegamos em Frankfurt pontualmente. Quando o avião estava iniciando a descida cheguei a ver algumas cidadezinhas coberta de neve, mas Frankfurt não, estava tudo desbotado, as árvores sem folhas, mas neve não havia, embora estivesse bem frio e durante a aterrissagem tudo o que consegui ver foi um rastro, suponho que causado pela condensação do ar frio ao passar pela turbina quente.

De Frankfurt voei para Berlim. Dessa vez combinei de encontrar o Dennis na empresa dele. Estava frio, 4°C, não chovia, mas o chão estava molhado e de vez em quando sentia gotículas de água caindo do céu. Cheguei ao escritório e o Dennis me ofereceu um Clube Mate, uma bebida popular na Alemanha, mistura de mate com outras coisas. Fiquei um tempo navegando na internet até ele terminar o serviço e fomos embora de carro.

No caminho passamos em um lugar muito legal: a Fab Lab Berlin. uma oficina que tem um monte de ferramentas e máquinas para as pessoas usarem: tornos, fresadeiras, furadeira de mesa, impressoras 3D, usinagem a laser, uma mini-oficina de eletrônica… enfim, um lugar onde qualquer um pode criar o que quiser, e o Dennis foi lá para imprimir uma peça que ele projetou para um aparato que ele está desenvolvendo. O local também ministra cursos, um deles se chama “monte sua porópria impressora 3D”, que não só ensina as pessoas a fabricarem a impressora no Fab Lab, mas as faz colocar a mão na massa, e somente uma impressora 3D do Fab Lab foi comprada, as demais foram todas feitas lá mesmo, e são muitas! Gostaria muito que no Brasil tivéssemos algo parecido. Quem quiser conhecer o projeto basta acessar o site http://www.fablab-berlin.org/.

Chegando em casa fomos jantar. Dessa vez eu não era o único hóspede: também a mãe do Dennis estava lá, ela é muito simpática e conversamos um pouco. Ela mora em Hannover e normalmente leva duas horas de trem até Berlim, mas dessa vez levou três horas porque roubaram cabos de eletrificação da ferrovia, impossibilitando a passagem dos trens. E tem gente que jura que isso só acontece no Brasil.

Berlim de manhã: uma fina camada de neve cobrindo tudo

Berlim de manhã: uma fina camada de neve cobrindo tudo

Já estava ficando tarde e fomos dormir. Levantei às 7 da manhã para tomar café, arrumar minhas coisas e estar no metrô às 8, ao olhar para fora, ainda tudo escuro, tive uma imensa surpresa: tudo coberto por uma leve camada de neve. Foi a primeira vez que vi aquela massa branca cobrindo telhados, calçadas, carros… A temperatura era de 1°C. Eram quase 8 horas quando fui para a estação e no caminho vi a neve ao redor dos trilhos ferroviários, sobre os prédios e carros, cobrindo os parques.

Na rodoviária, notei que não havia nenhum ônibus com suporte para transportar bicicletas, também quem vai pedalar com esse frio? A neve ia derretendo aos poucos, às vezes ao pisar eu sentia o gelo derretendo sob meus pés. Embarquei para Poznań e saímos pontualmente. Ao longo de parte do trajeto era possível ver neve cobrindo tudo, mas ao chegar em Poznań já não havia neve alguma, se é que nevou aqui. Ao chegar tomei o bonde até o centro da cidade.

Neve sobre os veículos estacionados na rodoviária central de Berlim

Neve sobre os veículos estacionados na rodoviária central de Berlim

Dessa vez optei por dormir em um albergue, mais barato que o alojamento estudantil e com café da manhã incluído na diária. Estou em um quarto para seis pessoas, mas é baixa temporada e fiquei com o quarto só para mim, e dificilmente terei algum companheiro de quarto por esses dias.

Notícia boa: o câmbio está mais favorável para mim, o que me permite ter algum dinheiro a mais.

Notícia ruim: o restaurante mais barato que encontrei em Poznań fechou (e a comida de lá era uma delícia).

Duas coisas que chamam muito minha atenção: a relação dos poloneses com a comida e com as bebidas alcólicas: aqui ninguém come nem bebe (mesmo água) na rua, me disseram que pode até dar multa fazer isso, as pessoas comem nos restaurantes ou em casa, bebem nos bares ou em casa, e onde estou hospedado, ao contrário dos albergues onde me hospedei no Brasil, na Argentina, no Vietnã, na Alemanha, nos quais havia bar e os hóspedes passeavam com bebidas pelos corredores, aqui não se vende nada, nem de comer, nem de beber, há apenas uma cozinha com geladeira comunitária para os hóspedes prepararem suas refeições, mas bebidas alcoólicas só podem ser consumidas dentro dos quartos (e suponho que não podem ser guardadas na geladeira).

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Congresso Brasileiro de Esperanto no Rio de Janeiro

Entre os dias 23 e 27 de Janeiro aconteceu o quinquagésimo Congresso Brasileiro de Esperanto, na mesma cidade onde aconteceu o primeiro: Rio de Janeiro. Participei apenas dos últimos dois dias, mas foi ótimo rever amigos e participar das atividades.

Cartaz do 50° Congresso Brasileiro de Esperanto

Cartaz do 50° Congresso Brasileiro de Esperanto

O congresso aconteceu na UERJ, ao lado do Maracanã. Já estive no Rio várias vezes e nunca gastei com hospedagem, preferindo dormir na casa de algum esperantista, e dessa vez não foi diferente, mas ao invés de dormir em Copacabana, como fiz durante a Rio+20, fiquei em Irajá, mais perto do Galeão, por onde cheguei e de onde partirei, e da UERJ. Quem acompanha este blog sabe que eu viajo muito, já estive em diversos lugares, porém não sou rico, viajo com pouco dinheiro, e só consegui visitar tantos lugares graças à possibilidade de gastar menos me hospedando em casa de esperantistas, tendo o auxílio de esperantistas locais que fizeram gentilezas como me hospedar, me transportar de carro, comprar passagens de trem com desconto para mim, indicar os lugares mais baratos para se comer, me recebendo em suas casas para almoçar ou jantar… enfim, a economia é enorme, e o contato com a cultura local é muito maior. Além disso, consegui subvenções para muitas viagens: a TEJO custeou parte da minha viagem ao Vietnã, o governo do Sri Lanka me pagou as passagens para lá (além da alimentação e hospedagem durante a conferência), a Associação Alemã de Esperanto custeou minha viagem de palestras pela Alemanha (somente os gastos dentro do país) e para estudar em Poznán estou contando com a bolsa da ESF e diversos outros auxílios que reduzem drasticamente o custo dessas viagens.

Parte dos participantes do congresso na UERJ

Parte dos participantes do congresso na UERJ

O primeiro evento em esperanto em que participei foi um encontro na Argentina, em 2006, e no ano seguinte vim para o Rio de Janeiro pela primeira vez, justamente para o Congresso Brasileiro de Esperanto, realizado aqui em comemoração ao centenário da Liga Brasileira de Esperanto, na cidade onde foi fundada. Por coincidência voltei à Argentina no ano passado para o Congresso Mundial de Esperanto e agora estou de volta ao Rio para outro Congresso Brasileiro, em comemoração a outro jubileu. O apelo turístico aqui é muito grande, assim como a oferta de vôos, e consequentemente mais estrangeiros, e mesmo brasileiros, participam e aproveitam para ficar uns dias passeando antes ou depois do congresso. Aliás, aqui existem alguns guias turísticos credenciados junto à Embratur para guiar turistas en Esperanto.
No dia 26 tivemos uma noite artística muito especial, com diversas apresentações musicais de alto nível, incluindo o Tarcísio Lima, que despertou em mim a saudade do IJK em Fortaleza no ano passado. Uma agradável surpresa foi encontrar no congresso o Geomar, cubano que participou do IJK, e o Adrián, goleiro da seleção esperantista de futebol, que conheci na Argentina no ano passado. As apresentações artísticas aconteceram em um teatro próximo à Sapucaí, e de lá seguimos para um bar na Lapa, onde nos divertimos o resto da noite.
No dia seguinte participei de uma reunião com diversos colegas da área de letras, que assim como eu buscam formas de profissionalizar o professor de esperanto, e o debate foi interessante, percebemos que tem muita gente engajada nisso no meio acadêmico e estamos nos organizando para agir de forma mais eficiente. À tarde ministrei um minicurso dentro do programa de treinamento AMO, da UEA. O curso foi muito bom, com muita troca de ideias e um ambiente descontraído. Por fim tivemos o encerramento do congresso e a despedida. Fui com um pessoal comer pizza em um restaurante antes de voltar para casa.

Encerramento: entrega da bandeira aos organizadores do próximo congresso, em Manaus-AM

Encerramento: entrega da bandeira aos organizadores do próximo congresso, em Manaus-AM

Agora estou me preparando para retornar a Poznán para a próxima sessão de estudos em interlinguística. Ao longo de todo o semestre fiz várias atividades, trabalhos e li muito. Claro que aprendi muito também e fico feliz em ter esta oportunidade de aprofundar meus conhecimentos a respeito da comunicação internacional e da cultura esperantista. Mais do que isso, ficou evidente para mim que no campo da pesquisa acadêmica há coisas interessantíssimas a serem pesquisadas em interlinguística, e estou apenas iniciando meu mergulho neste oceano. Até breve com mais notícias!

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Retorno de Poznań para o Brasil

Na segunda-feira tive a manhã livre, pois o ônibus para Berlim só sairia às 13:30. Levantei cedo, tomei café e fui fazer compras: meu retorno à Polônia será no inverno, quando faz muito frio, e as roupas que uso no inverno brasileiro são as mesmas que eu usei no verão polonês. Ao lado do albergue há um brechó que vende roupas de segunda mão vindas de Londres, e me informaram que o estoque chega no fim de semana, de modo que segunda-feira é o melhor dia para comprar.

Centro histórico de Poznań em uma manhã de segunda

Centro histórico de Poznań em uma manhã de segunda

Eram quase nove horas quando cheguei lá e a loja estava fechada. Uma moça esperava na porta. Descobri que a loja abre às dez, então passeei um pouco pelo centro histórico da cidade e voltei às cinco para as dez. A fila estava grande, um monte de gente esperando a loja abrir. Dez em ponto, as portas se abriram e a multidão entrou. As roupas são organizadas por tipo e tamanho, mas a classificação por tamanho é feita “de olho”, isto é, roupas para bebês, crianças, adultos.., e uma blusa M pode ficar ao lado de uma GG. Entre as blusas e jaquetas, encontrei algumas muito boas com pequenas avarias: um botão despregado, um bolso furado, coisas assim; até poderia valer a pena comprar e contratar uma costureira para arrumar, mas preferi continuar pesquisando, e no fim encontrei duas excelentes blusas semi-novas em perfeito estado. Realmente pesquisar vale muito a pena. As comprei e agora estou preparado para enfrentar o inverno polonês.

Uma coisa que me chamou a atenção no brechó foi não ter informação alguma sobre preços. Quanto custariam as blusas? Não valeria a pena se fosse muito caro. Por fim vi uma balança, e as pessoas levavam roupas para pesar. Sobre ela um cartaz dizendo que era para uso dos clientes. Pesei minhas roupas e a balança mostrou o peso, o preço por quilo e o preço do produto. Gostei do esquema da casa e comprei duas blusas por um terço do preço que um amigo pagou por uma nova.

No brechó também observei algo interessante, e um tanto bizarro para mim: lá vendem cuecas, calcinhas e sutiãs usados, e vi muita gente enchendo a cestinha com esse tipo de produto.

Voltei ao albergue, guardei minhas coisas e fui almoçar com o Dmitri, um esperantista holandês. Fomos a um pequeno restaurante onde comi algumas vezes, e do qual gostei muito, além de ser o mais barato que encontrei. Este restaurante possui um certificado do governo atestando que é um autêntico restaurante polonês, servem somente comida típica e normalmente a gente pede dois ou três pratos (do tipo, uma sopa, uma salada, um prato principal, etc.). Tomei uma sopa e comi um prato de pierogues de espinafre. Depois do almoço tomamos um café e nos despedimos. Ele foi para o aeroporto e eu tinha que pegar o bonde para Górczyn.

Linhas de bonde em Poznań. Me hospedei em frente a uma das poucas vias de mão única no centro do mapa

Linhas de bonde em Poznań. Me hospedei em frente a uma das poucas vias de mão única no centro do mapa

A viagem de bonde foi uma aventura: a linha 5, que eu precisava pegar, pára diante do albergue onde estava hospedado, mas no sentido Stamil, isto é, vindo de Górczyn. Só descobri isso depois de um bom tempo esperando o bonde, e saí correndo com a mala em busca de outro ponto onde pudesse embarcar no sentido correto. Acabei encontrando o prof. Ivan Colling, da UFPR, com sua esposa, ambos passeando diante do castelo. Ambos acabaram de terminar o curso de Interlinguística e Ivan pretende fazer doutorado em Poznań. Segui em direção a uma parada próxima a Jowita e encontrei a minha professora Katalin Kováts com suas malas indo pegar táxi para o aeroporto. Trocamos algumas palavras, ela me indicou a direção do ponto de bonde, e lá fui eu correr de novo. Cheguei ao ponto correto depois de andar muito (poderia ter andado um quarteirão apenas, mas como não conhecia o trajeto, acabei indo até um ponto mais distante), e cheguei a pensar em desistir, pois já eram 13:15 e o bonde demora 13 minutos, entretanto decidi arriscar. Cheguei em Górczyn às 13:29 (adoro a pontualidade do transporte público em Poznań) e saí correndo com a mala até o ponto do Polskibus. Consegui embarcar.

Um "selfie" diante do Portão de Bandemburgo

Um “selfie” diante do Portão de Brandemburgo

A viagem para a Alemanha foi tranquila, cheguei em Berlim antes do horário previsto, pois o tráfego fluiu bem, e da rodoviária segui para a casa de meu amigo Dennis, que me hospedou por uma noite. encontrar o endereço não foi fácil, pois o número da casa fica de frente para o pátio do condomínio, e não de frente para a rua, mas no fim deu tudo certo.

No dia seguinte fui de carro com o Dennis até seu escritório, que é próximo ao centro da cidade, deixei minhas coisas e fui passear. Ele ainda teve o cuidado de imprimir para mim um mapa do centro e marcar sobre ele um itinerário com diversas possibilidades de passeio. Segui o trajeto recomendado e visitei o parlamento alemão (só por fora, pois havia uma grande fila para visitação interna), o portão de Brandemburgo, o Memorial aos Judeus e diversos lugares interessantes, mas basicamente o que fiz foi bater perna pela cidade. Depois de almoçar com Dennis em um restaurante, fui para a ilha dos museus e aproveitei a tarde para visitar o Pergamon. De lá segui para o escritório do Dennis, peguei minhas coisas e fui para o ponto de ônibus, e de lá para o aeroporto Berlin-Tegel, que será desativado após a inauguração do novo aeroporto Brandemburg.

A Ilha dos Museus de Berlim, com o Museu Bode em destaque

A Ilha dos Museus de Berlim, com o Museu Bode em destaque

Após despachar minha mala senti fome, e ainda faltava uma hora para o embarque, mas como há poucas opções de alimentação neste aeroporto, demorei mais de meia hora na fila para comprar uma salsicha com batatas fritas em um vagão de trem transformado em lanchonete que fica diante da entrada do aeroporto, acho que deve ser algum tipo de opção popular, pois os preços são similares aos do centro da cidade, enquanto dentro do aeroporto só se vende alimentos embalados e a preços mais caros. De lá voei para Madrid, onde cheguei tarde da noite.

Karina, minha colega, também brasileira, no curso em Poznán, veio no mesmo vôo, e fomos juntos de metrô até Plaza Elíptica, no sul da cidade, para dormir na casa do Félix, nosso colega de curso, que gentilmente nos hospedou e ainda nos presenteou com exemplares de Dom Quixote em Esperanto. Chegamos de madrugada à casa dele, dormimos um pouco e de manhã, após o café, seguimos de ônibus até a cidade. Nos despedimos do Félix, que foi trabalhar, e fizemos um rápido passeio pelo centro histórico antes de embarcar no metrô. Acabamos chegando em cima da hora para o embarque, mas deu tudo certo.

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ARKONES!

O Arkones – ARtaj KONfrontoj en Esperanto (Confrontos Artísticos em Esperanto), começou na sexta-feira, mesmo dia em que terminou o Simpósio de Interlinguística. Durante o dia teve uma excursão para conhecer alguns lugares da cidade, mas preferi ficar no simpósio. No horário de almoço dei uma passada no centro cultural onde acontece o Arkones, pois fica a uma quadra do prédio onde tenho aulas, e dei um oi para as pessoas que estavam lá. Não sabia quem seriam os artistas a se apresentar no Arkones, mas ao chegar deide cara com Nanne Kalma e Ankie van der Meer, ou seja, o grupo Kajto, do qual sou fã desde que me tornei esperantista.

Emblema do 30° ARKONES

Emblema do 30° ARKONES

Gente de diversos lugares vem para o Arkones, mais de cem pessoas de dezenas de países, e por isso sempre organizam alojamento para as pessoas. Eu poderia ter ficado em Jowita ao longo de toda a minha estada em Poznań, mas decidi aproveitar a ocasião e ficar no albergue junto com boa parte dos participantes do evento, e muitos dos meus colegas de curso fizeram o mesmo.

Descobri que a diária no albergue é mais barata do que em Jowita e há mais conforto em termos de banheiros e estrutura do prédio. Por outro lado, em Jowita se tem mais privacidade, há muitos armários para botar pertences pessoais e não precisa trancar, enquanto no albergue cada um tem seu armário com chave e é arriscado deixar pertences fora dele. As duas maiores diferenças para mim, contudo, são as que mais contam: internet e banheiro. Em Jowita há internet, tanto sem fio quanto via cabo, mas a autenticação na rede exige baixar um certificado de segurança, configurar um monte de coisas e ainda por cima ter uma senha individual cuja obtenção demanda um procedimento burocráico chato e complicado. Aqui é bem simples: ligar o wi-fi e colocar a senha. Em Jowita o banheiro é antigo, muito pequeno, com uns azulejos frios, bem desconfortável para tomar banho. Aqui a ducha é bem melhor, os banheiros são amplos e com um antesala para guardar a roupa e se secar ao sair do banho.

O Arkones é um evento muito interessante, combina palestras e eventos artísticos variados, tem bar vendendo comida e bebidas e espaços agradáveis para conversar. A livraria do Arkones também é legal, acabei achando um tesouro que procurava há muito tempo: um livro chamado Rimleteroj (Cartas Rimadas), compilação de poemas escritos em cartões postais trocados entre William Auld, considerado o maior escritor esperantista de todos os tempos, e Marjorie Boulton, outra grande escritora esperantista. O desafio lançado por ela e aceito por ele acabou sendo publicado, anos mais tarde, na Nica Literatura Revuo (Revista Literária de Nice), e, por fim, saiu em livro. Auld e Boulton já foram indicados ao nobel de literatura.

Apresentação musical de Bertilo e Birke

Apresentação musical de Bertilo e Birke

Na primeira noite do Arkones teve oficina de canto do Kajto, e no sábado aconteceu a Miela Vespero (Noite de Mel), quando nos ofereceram uma bebida à base de mel e bolo. Quanto aos shows, tivemos o da Szusana, esperantista daqui de Poznań, que canta e toca muito bem, de Bertilo e Birke, que se apresenta com flauta e violão, e por fim o show do Kajto.

Encontrei em Poznań várias pessoas que eu há muito tempo não via. Na primeira noite um grupo de jovens esperantistas que estava bebendo e conversando me ofereceu “o melhor vinho da Bulgária”. Não estavam falando sério, e percebi que era brincadeira, mas o negócio é muito ruim. Pode ser que na Bulgária haja vinhos melhores, mas tão cedo não me atreverei a experimentar.

Às margens do rio Warta, com Jakob, esperantista local, e Joel, esperantista sueco

Às margens do rio Warta, com Jakob, esperantista local, e Joel, esperantista sueco

No domingo tivemos programação do Arkones somente de manhã, e à tarde fui passear com outros esperantistas, cada um de um país diferente, sendo que um deles é daqui de Poznań e nos levou para conhecer lugares interessantes: fomos para o outro lado do rio Warta, visitamos a catedral, cujo altar é muito interessante por ser “feminista”,isto é,  só tem imagens de mulheres: santa Maria, santa Catarina e santa Bárbara. Depois caminhamos por um belo parque com um lago artificial construído pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Neste parque há um trenzinho para as crianças, campo de minigolfe, raias para prática de remo e até um pequeno parque de diversões com montanha russa e uma pista de esqui sobre uma lona de espuma que reproduz o efeito da neve. A comida, porém, é cara no parque, então fomos jantar em um shopping e depois voltamos de bonde até o centro da cidade. Nos despedimos e fomos dormir.

Estou em Berlim na casa de um esperantista, e em breve contarei sobre meu último dia em Poznań e a viagem de volta ao Brasil.

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Aulas em esperanto na universidade

O alojamento estudantil Jowita, onde estou hospedado, fica a poucas quadras do Instituto de Linguística, onde acontecem as aulas. O instituto tem uma quantidade impressionante de departamentos e cursos: aqui é possível estudar línguas e literaturas de diversos países, mais de uma dezena de opções, inclusive há cartazes na universidade incentivando os alunos a participarem de um concurso de tradução de obras literárias coreanas para o polonês; suponho que as traduções premiadas devem acabar sendo publicadas, então imaginem o impacto disso no mercado editorial polonês! Aqui com certeza se tem mais acesso a obras literárias de diversos países, especialmente do leste europeu e da Àsia, literaturas com as quais tive contato somente através do esperanto.

Departamento de Neofilologia do Instituto de Linguística da UAM

Departamento de Neofilologia do Instituto de Linguística da UAM

Aliás, no Brasil a editora José Olympio teve a iniciativa de publicar algumas traduções da literatura em língua holandesa, preenchendo assim uma grave lacuna no nosso mercado editorial, mas eu só tive conhecimento disso graças ao Esperanto: após ler Du Virinoj (Duas Mulheres, em esperanto), de Harry Mulisch, comentei com um esperantista holandês sobre esse livro e ele me sugeriu outras obras. Ao procurá-las descobri que duas estavam traduzidas para o português em edições de bolso baratinhas: O Atentado, de Mulisch, e Queijo, de Willhem Elschot.

No sábado tivemos uma introdução ao curso, feita pela coordenadora, profa. Ilona Koutny. Nos apresentamos, ela nos apresentou o curso e a universidade. Depois disso fomos todos conhecer um pouco da cidade, visitamos o centro histórico ao anoitecer e jantamos todos juntos.

Centro Histórico de Poznań à noite

Centro Histórico de Poznań à noite

As disciplinas deste semestre são Fonética, Cultura Esperantista, Interlinguística e Literatura Esperantista. As aulas e o nível do curso e da universidade superaram todas as minhas expectativas, o grau de profissionalismo dos docentes, a organização do curso, tudo é bem melhor do que eu imaginava. Uma coisa que observo aqui é que os alunos são instigados a pesquisar, quem quer ser tradutor tem que traduzir, quem quer ser pesquisador tem que pesquisar, quem quer ser professor tem que ensinar, enfim, os docentes orientam os estudos de seus alunos, mas conscientes de que este último é o responsável por seu aprendizado. No Brasil, infelizmente, a importância da aula expositiva é superestimada.

E o que é interlinguística? A profa. Vera Barandóvska-Frank, da disciplina de Interlinguística, tratou longamente da definição deste termo: diversos autores deram diferentes definições para isso, algumas muito restritas, como o estudo das línguas planejadas (Alicja Sakaguchi), outras muito amplas, com a de Detlev Blanke, que considera a comunicação internacional incluindo todos os seus aspectos. Eis porque o curso trata de temas tão diversos.

Banheiros: qual escolher?

Banheiros: qual escolher?

Algo diferente que me chamou a atenção na universidade foi o banheiro: na porta, ao invés dos costumeiros desenhos de um homem e uma mulher, há um triângulo e um círculo. Tive que vir até a Polônia para fazer uma grande descoberta: sou um triângulo. Os prédios costumam ter duas portas de entrada, uma depois da outra, pois assim o isolamento térmico é mais eficaz: quando a porta interna se abre, a externa já está fechada. O tempo todo tem ambulâncias passando com a sirene ligada: ou tem muito acidente ou então os motoristas de ambulância são muito dramáticos. Creio que é a segunda opção.

Outra experiência esquisita foi entrar com outro esperantista em uma galeria. Estávamos procurando a C&A, pois nos disseram ser a loja de roupas mais barata da cidade e precisamos comprar roupas de frio para quando voltarmos, no final de janeiro, já que o frio daqui é bem diferente do que temos no Brasil. Entramos no prédio e subimos pela escada rolante. Não encontramos a C&A, mas bem à nossa frente havia uma loja da “Pierre Cardim – São Paulo” (escrito exatamente assim), onde dá para comprar os últimos modelitos do Brasil. Para descer não tinha escada, então pegamos o elevador. Como estávamos no andar 1 e queríamos descer um andar, apertamos o 0, mas fomos parar um andar abaixo da entrada. Subimos pela escada rolante e chegamos de volta no 1° andar! Como só tinha escada para subir, descemos de novo e encontramos, depois de andar um pouco, uma escadaria para chegar até a porta.

Voltando à universidade: as aulas terminaram e em seguida aconteceu um simpósio de interlinguística, com apresentação de trabalhos de muitos pesquisadores de diversas universidades. Muitos trabalhos foram apresentados em esperanto, mas houve também apresentações em inglês e em polonês, muitas delas feitas por pesquisadores que não dominam o esperanto, mas pesquisam temas ligados à interlinguística. Uma surpresa agradável foi encontrar meu amigo Richard, australiano que conheci no Vietnã e reencontrei no ano passado na Islândia, na Itália e em Israel. Ele veio para o Arkones e ficou sabendo do simpósio, ao chegar na universidade me encontrou.

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Após o primeiro dia de simpósio tivemos um banquete, quando experimentamos diversos pratos da culinária polonesa, tomamos vinho e conversamos em um ambiente muito gostoso. No banquete encontrei o Tobiasz, esperantista polonês que trabalha no escritório central da UEA, em Roterdã, ele nasceu aqui em Poznań, e veio para organizar o Arkones – Artaj Konfrontoj en Esperanto (Confrontos Artísticos em Esperanto), que está acontecendo agora. Conheci o Tobiasz no Vietnã, em 2012, e no ano passado nos reencontramos na Islândia.

Depois do banquete muitos foram dormir, mas algumas pessoas resolveram esticar a noite, e eu fui com um grupo de esperantistas a um bar, as pessoas foram indo embora, ficamos eu e quatro poloneses, que decidiram ir a um outro bar, onde ficamos tomando cerveja e conversando até de madrugada.

Agora estou no Arkones, é um evento muito interessante, diferente dos outros encontros de esperantistas que participei, mas sobre ele escreverei depois.

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Novamente na Europa: Pós-graduação em Interlinguística na Polônia

Desde 2012 relato minha viagens pelo mundo neste espaço, especialmente sobre minha participação em eventos internacionais. Desta vez tratarei da minha vida profissional: sou bacharel em Estudos Literários pela Unicamp, onde atualmente curso mestrado em Teoria e História Literária. Minha pesquisa de mestrado é em literatura brasileira, e embora eu sempre quis pesquisar algo relacionado ao esperanto, no meu tempo de graduação tive dificuldade de encontrar uma linha de pesquisa que me permitisse juntar minhas maiores paixões.

 

Em 2009 ouvi falar pela primeira vez na pós-graduação em Estudos Interlinguísticos da Universidade “Adam Mickiewicz”, em Poznań, na Polônia. Na época não dei muita atenção, a não ser pelo fato de uma amiga polonesa ter me enviado uma mensagem dizendo que esta universidade é altamente conceituada e o curso totalmente ministrado em esperanto. Em 2011 alguns amigos brasileiros encararam o desafio, já concluíram o curso e alguns estão prestes a defender mestrado, já que o curso de três anos tem carga horária de mestrado e para obter o título de mestre basta escrever uma dissertação e defendê-la após o término do curso. Incentivado por eles, me matriculei e ganhei uma bolsa da ESF – Esperantic Studies Foundation, um fundação nos EUA que financia cursos e pesquisas relacionados ao Esperanto.

 

Reitoria da UAM. `A esquerda pode-se ver a estatua do poeta Adam Mickievicz

Reitoria da UAM. `A esquerda pode-se ver a estatua do poeta Adam Mickievicz

O curso é semi-presencial, ou seja, há uma semana intensiva de aulas e provas na universidade todo semestre, e depois disso trabalhamos em casa supervisionados à distância pelos docentes. Ao contrário de muitos cursos superiores que usam Educação à Distância (EAD) como uma ferramenta auxiliar ou como um meio de permitir ao aluno conciliar horários, este curso usa a EAD de modo peculiar: seu corpo docente é formado por professores de diversas universidades ao redor do mundo. Seria impossível reuni-los em uma mesma universidade para um curso presencial, mas passar uma semana ensinando na Polônia e depois acompanhar os alunos à distância é algo que eles podem fazer, e o resultado é um corpo docente internacional. Os alunos, por sua vez, também vêm de diversos países, atraídos pelo fato de ser um curso tão singular, que trata da comunicação intercultural e internacional, ministrado em esperanto por professores de diversos países. E assim o ambiente se torna perfeito para refletirmos sobre questões referentes à comunicação entre os diferentes povos: tanto os docentes quanto seus alunos pertencem a diferentes contextos linguísticos e culturais.

 

Para a minha primeira temporada em Poznań viajei para Berlim via Madrid, e de Berlim vim de ônibus. Como minha conexão em Madrid demorou muito (quase 12 horas), decidi aproveitar o dia para passear na cidade e contatei os esperantistas locais. Um deles, Alejandro, me informou como chegar à sua casa, me disse que estaria acordado por volta das 10:00, me passou seu endereço e explicações de como chegar lá. Desembarquei às 5:20 e após os procedimentos de imigração fui procurar informações sobre como ir à cidade: é possível ir de ônibus, trem e metrô, todos custam o mesmo preço, mas atingem lugares diferentes. Embarquei no ônibus, a casa do Alejandro é perto do segundo ponto após o aeroporto e levei 45 minutos para chegar lá. O motorista foi muito gentil, pegou um mapa e me explicou detalhadamente como chegar, segui as orientações e às 8:30 estava diante do predio. Como tinha que esperar até as 10:00, aproveitei para passear em um parque nas proximidades.

 

Monumento diante do lago no Parque do Retiro, em Madrid.

Monumento diante do lago no Parque do Retiro, em Madrid.

O parque é muito bonito, com jardins floridos, rios, estátuas e monumentos, lagos e fontes. Mesmo cedo, estava movimentado, algumas pessoas praticando esportes, outras passeando com seus cães, e também tinha gente cortando caminho para chegar a outro lugar. Quando eram quase 10 horas fui para o apartamento do Alejandro, tomamos café da manhã, conversamos e usamos internet. Por volta das 11:00 saímos, passeamos pelo centro da cidade e nos encontramos com outro esperantista no metrô. Visitamos diversas praças, o Palácio Real e outros prédios históricos. Para o almoço, me levaram a um lugar onde servem bons sanduíches a um euro (no aeroporto custam 7,5 EUR e em padarias em torno de 4 EUR, além de serem menores) e ainda dão de cortesia um pãozinho e umas fatias de salame para degustação. Após comermos, gravamos uma breve reportagem para a Muzaiko e voltei de metrô para o aeroporto (deu mais ou menos o tempo que levei de ônibus, mas fiz duas integrações). Segui para Berlim.

 

Em Berlim não tive tempo de passear, além de estar muito cansado cheguei tarde e com fome. Jantei na Alexanderplatz, em uma banca que vende salsichas e batatas-fritas. Depois tomei banho e fui dormir exausto. No dia seguinte acordei cedinho e segui de metrô para a Berlin ZOB (estação rodoviária central), onde tomei café da manhã em uma padaria.

 

Viajar de ônibus na Europa é uma experiência interessante, a começar pelo fato de que as rodoviárias aqui se assemelham aos terminais de ônibus urbanos do Brasil: as estações monumentais são destinadas aos trens, e o ônibus é um meio de transporte coadjuvante, de modo que a rodoviária ao invés de ficar ao lado de uma grande avenida fica escondida entre prédios em uma ruazinha simples; é próxima ao metrô, mas para ser atingida o passageiro precisa andar alguns quarteirões após descer do trem.

 

Rodoviaria Central de Berlim (Berlin ZOB), vista de cima. O onibus vermelho estacionado e' o PolskiBus, que peguei para ir `a Polonia

Rodoviaria Central de Berlim (Berlin ZOB), vista de cima. O onibus vermelho estacionado e’ o PolskiBus, que peguei para ir `a Polonia

Outra coisa que chama atenção são os ônibus: como precisam disputar passageiros com os trens, as empresas precisam investir em diferenciais para atrair os clientes, e o principal deles é o preço: viajar de trem na Europa em muitas situações é caro, e com a popularização das empresas aéreas “low cost” é comum achar passagens aéreas mais baratas do que as de trem (essa foi uma das razões de eu ter ido de avião da Itália para a Bélgica no ano passado). Além do preço, as empresas de ônibus investem em outros atrativos como maior distância entre as poltronas, internet wi-fi, tomadas para uso dos passageiros e algumas empresas têm até sistema de entretenimento a bordo individual semelhante ao dos aviões. Porém, o que mais me surpreendeu foi algumas empresas terem um acessório acoplado à traseira do ônibus para transportar bicicletas.

 

O movimento em nada lembra o das rodoviárias brasileiras: para ver um ônibus entrar ou sair, é necessário esperar vários minutos. Não há multidão. Não há barulho. Não há congestionamento de ônibus entrando e saindo. A viagem durou várias horas. Aproveitei para recarregar meu celular usando uma tomada sob o meu assento e usei o wi-fi, que funcionou bem na Polônia, mas não na Alemanha.

 

Um vez em Poznań, precisava chegar à universidade. Mas como? O ônibus me deixou ao lado de uma parada de bondes, mas Karina, uma das minhas colegas neste curso, que já veio antes a Poznań participar de um curso de formação de professores de Esperanto, havia me dito que de lá para a universidade era necessário pegar ônibus e não bonde. Notei que muitos passageiros foram pela calçada na mesma direção e fui atrás: assim cheguei a um pequeno terminal de ônibus urbanos a poucos metros dali.

 

Tirei da mochila um documento da universidade, em polonês e esperanto, no qual constava o endereço da residência estudantil onde estou morando. Mostrei-o a vários poloneses, mas nenhum sabia como chegar lá. Me lembrei da Karina ter me dito que era só perguntar como chegar no castelo, mas não me lembrava como se diz castelo em polonês (não adianta dizer em outra língua, eles não entendem). Então consultei um mural com os itinerários dos ônibus e em um deles encontrei uma parada chamada Zamek, a palavra que eu não estava conseguindo lembrar, e aquela linha de ônibus era a que eu precisava pegar.

 

Então veio outro problema: como comprar bilhetes, se a máquina só aceita pagamento em zlotos e eu só tinha euros? Andei pelas redondezas procurando um banco ou caixa eletrônico mas não havia nada disso. Como em muitas línguas se usa o radical -bank para banco, pensei que alguém entenderia que eu procurava um banco, tentei também a palavra câmbio em várias línguas e não adiantou, então mostrei a um senhor que eu só tinha euros na carteira, e quando ele entendeu o que eu queria disse a palavra kantor (casa de câmbio, a primeira palavra polonesa que aprendi na Polônia). Ele gesticulou me dando instruções. Não entendo polonês, mas deu para entender algumas palavras-chave, como tramwaj (quase igual a tramvojo, que em esperanto significa linha do bonde), que combinadas com os gestos foram suficientes: segui pela calçada acompanhando a linha do bonde e depois de algumas quadras vi em uma esquina um grande letreiro com a palavra kantor. Troquei meu dinheiro e voltei para pegar o ônibus.

 

Zamek Cesarski (Castelo Imperial), local onde desci do onibus.

Zamek Cesarski (Castelo Imperial), local onde desci do onibus.

Desci em Zamek, bem diante do castelo, que hoje é um centro cultural. Antes de chegar lá passei pela estátua do poeta Adam Mickievicz, e como sabia que essa praça fica na universidade, percebi que estava perto. A reitoria fica diante do castelo, e nos quarteirões ao redor há diversos prédios da universidade. Meu celular acusou sinal aberto de wi-fi e conectei à internet para baixar o mapa da região. Com auxílio do GPS fui em direção à Jowita, a residência estudantil. A entrada do prédio não é de frente para a rua, está escrito outro nome no letreiro e o numero é difícil de ver, então acabei entrando no prédio vizinho, também chamado Jowita: é o refeitório onde comem os estudantes do prédio ao lado. Uma moça entrou atrás de mim, me olhou como se quisesse perguntar algo, mas hesitava. Por fim disse “saluton!”, e então começamos a conversar em esperanto: ela se chama Paulina e é minha colega no curso, veio da Eslováquia e também tentava encontrar a Jowita, quando leu a palavra Esperanto na cinta identificadora da minha mala. Agora éramos dois esperantistas perdidos.

 

Entretanto, deduzimos que o prédio vizinho deveria ser o que procurávamos, embora não tivesse nenhuma identificação visível para quem passava pela calçada. Fomos lá ver e era mesmo Jowita. Os quartos são aconchegantes, com muitos armários, um frigobar por quarto e escrivaninhas para estudo. o único inconveniente é dividir banheiro: dois quartos dividem o mesmo banheiro, e ao entrar é necessário trancar a porta do outro lado para que a pessoa do outro quarto não entre. O elevador do prédio é bizarro: não tem a porta interna, somente aquela que fica no andar. Na minha primeira noite em jowita um grupo de rapazes desceu do elevador no térreo com cara de quem tinha aprontado, e ao entrar descobri que haviam apertado todos os botões, de modo que subi de andar em andar até o nono, onde moro.

 

Desci e encontrei, no saguão, meus conterrâneos Guilherme e Paulo. Um esperantista sueco, Sten, se juntou a nós e a Paulina também. Fomos todos almoçar (às 5 da tarde!) juntos e depois passeamos um pouco pela cidade, visitamos um mercado e compramos coisas para o café da manhã.  À meia-noite meu companheiro de quarto chegou: é um esperantista húngaro chamado Vajda.

Com alguns de meus colegas de curso no alojamento estudantil Jowita

Com alguns de meus colegas de curso no alojamento estudantil Jowita

Em breve contarei sobre a universidade e os primeiros dias de aula. Cześć!

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UK em Buenos Aires

Cheguei tarde em Ezeiza, o aeroporto mais distante do centro da cidade, e iria me hospedar na casa de um esperantista, Jorge Montanari, durante a primeira noite, para no dia seguinte me mudar para um albergue próximo ao local do congresso. Como meu celular pifou em Fortaleza e o dele estava sem bateria, ele me pediu para esperá-lo no aeroporto, e lá ficamos eu e Fábio à espera, cada um vestindo várias blusas, sob um frio intenso. Montanari nos pegou no aeroporto. Fábio seguiu para um albergue anteriormente reservado. No dia seguinte de manhã fui para meu albergue de táxi, com outros dois hóspedes do Montanari, que, assim como eu, se hospedaram próximo ao hotel Panamericano, local do congresso, durante aquela semana.

 

Reencontrando amigos após minha chegada ao Hotel Panamericano.

Reencontrando amigos após minha chegada ao Hotel Panamericano.

Na recepção do albergue me encontrei com um esperantista espanhol que não via há muito tempo: Juan Antonio Torres, violonista de primeira, que infelizmente teve que encerrar a carreira após um acidente de carro que lhe tirou os movimentos de uma das mãos. Conversamos e acabamos indo juntos para o Panamericano. No caminho encontramos o Alberto Calienes, esperantista cubano que no dia anterior esteve comigo em Fortaleza.

 

No hotel, vários rostos conhecidos, amigos que não via há muito tempo, reencontro com gente que estava comigo em Fortaleza ainda no dia anterior, a alegria do reencontro nos rostos de todo mundo. Recebi meu material do congresso e voltei para o albergue, onde reencontrei um dos primeiros estrangeiros que conheci através do Esperanto, um argentino chamado Rubén, que participou do meu primeiro encontro de esperantistas, em Wanda, Argentina, em 2006. Ruben foi meu companheiro de quarto em Buenos Aires, alugamos um quarto quádruplo, nós dois, outro argentino, participando de seu primeiro congresso, e um cubano. Alugamos um quarto com banheiro, mas não havia banheiro no quarto, apenas uma chave para abrirmos a porta do banheiro do outro lado do corredor, de uso exclusivo, mas fora do quarto.

 

Mesa de abertura do UK

Mesa de abertura do UK

Vários outros esperantistas se hospedaram no mesmo albergue, então sempre tinha companhia para ir e voltar do congresso. No dia seguinte aconteceria a abertura do congresso, e como fui diretor da programação temática, isto é, responsável pela organização e pelo andamento dos debates em torno do tema do congresso, bem como pela redação da resolução do congresso, precisava terminar de escrever o meu discurso para a cerimônia de abertura, que comecei a escrever no avião mas ainda não havia terminado, e fiquei até de madrugada cuidando disso. Enviei o texto para imprimirem e no dia seguinte o recebi, impresso, antes da abertura do evento.

 

Pela primeira vez me sentei à mesa durante a abertura do UK. Jorge Montanari, na condição de Reitor da Universidade Internacional do Congresso, sentou-se ao meu lado. A Rádio Internacional da China registrou o meu discurso de saudação aos congressistas:

http://esperanto.cri.cn/721/2014/08/12/176s165298.htm

Kafejo

Ao longo da semana não tive tempo para passear, pois os debates sobre o tema do congresso eram sempre no meio do dia, e fora desse horário participei de diversos debates e reuniões. No aeroporto não consegui trocar dinheiro devido a um problema momentâneo no sistema do banco, e nos primeiros dias de congresso não tive como ir ao banco trocar. Me chamou a atenção a quantidade de cambistas nas ruas oferecendo câmbio de maneira informal. Iniciamente tive receio de ser perigoso, poderia ser assaltado ou receber dinheiro falso, e o risco realmente existe, mas nenhum dos meus conhecidos teve problemas ao usar estes serviços. O câmbio oficial pagava pouco mais de três pesos por um real, fora os impostos e taxas, mas percebi que é comum o comércio portenho aceitar pagamento em reais, normalmente por um câmbio mais favorável que o oficial, podendo chegar até mesmo a cinco pesos por um real, que é o câmbio das ruas. Assim, paguei o albergue em reais (câmbio 1:4) e certa vez paguei a conta do restaurante em reais e as demais pessoas me pagaram em pesos, me abastecendo de dinheiro para a semana toda.

 

Quem leu meus relatos sobre os UKs do Vietnã e da Islândia, sabe que em ambos congressos eu participei de excursões, mas em Buenos Aires os preços estavam acima do que considero aceitável, e optei por não encomendar excursão alguma e passear por conta própria na quarta-feira, dia exclusivo para excursões. Neste dia participei no ago-tago, atividade que visa divulgar o esperanto para as pessoas nas ruas, de manhã, e à tarde fui de transporte público com esperantistas visitar o Malba – Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires. Fomos de metrô até parte do caminho, sendo que entramos no metrô sem pagar (perguntamos para o guarda onde adquirir bilhetes e ele respondeu abrindo uma porta lateral e mandando a gente passar sem pagar), mas tivemos que continuar a viagem de ônibus, e aí mais um problema: em Buenos Aires os ônibus só aceitam moedas, que são escassas, e a forma mais fácil de se usar o transporte público é adquirindo um SUBE, um cartão semelhante ao Bilhete Único brasileiro, que custa baratinho e vale a pena. Eu era o único com este cartão, então todos me deram dinheiro, coloquei créditos em uma loja e paguei todos os passes de ônibus.

 

Show da banda Supernova no Metropolitan

Show da banda Supernova no Metropolitan

A parte artística do congresso contou com apresentações de danças e músicas típicas durante a Nacia Vespero (noite artística nacional), e tivemos também a Internacia Vespero (noite artística internacional, quando congressistas de diversos países apresentam algo de sua cultura), um monólogo sobre a vida de Tiradentes apresentado por Amarílio Carvalho e exibição de dois filmes em Esperanto. As principais atrações, porém, foram os shows de Manuel (cantor italiano) e Supernova (banda brasileira de rock). O ex-ministro Joaquim Barbosa deu uma passada no Teatro Metropolitan pouco antes deste show, para comprar ingressos para uma apresentação de outro dia, e acabou assistindo ao show da Supernova também. Depois deste show fui com um grupo de esperantistas para um bar onde colamos adesivos de bandeiras na roupa para sinalizar para as demais pessoas quais línguas queremos praticar (e é claro que eles têm a bandeira do Esperanto). O bar estava lotado e tinha muito barulho, mas apesar disso foi uma experiência muito divertida.

 

Seleção Esperantista de Futebol

Seleção Esperantista de Futebol

Outra atração incomum neste UK foi o primeiro jogo de futebol oficial da Seleção Esperantista de Futebol. Nossa seleção, de participantes do UK, jogou contra a seleção da Comunidade Armena Argentina, que se prepara para os jogos Pan-Armenos do ano que vem, valeu como jogo oficial pela NF-Board, a liga de seleções não-FIFA, e saiu até no Olé. Infelizmente não ganhamos a partida, mas nada estragou o clima de festa.

 

Escrever a resolução do congresso foi uma tarefa que me tomou tempo, éramos um grupo de quatro pessoas para redigir o texto, e acabamos fazendo um bom trabalho, apesar da pressa. No encerramento do congresso, logo após ler a resolução para o público, fiquei com a gostosa sensação de missão cumprida e aproveitei a tarde para passear com outros esperantistas: vimos a estátua da Mafalda, a Casa Rosada, passeamos em Puerto Madero, tirei foto ao lado de uma escultura de Fangio com seu carro de fórmula 1. À noite participei de um delicioso jantar com os organizadores do congresso e me serviram um churrasco delicioso.

 

Esperantistas brasileiros junto à estátua de Juan Manuel Fangio.

Esperantistas brasileiros junto à estátua de Juan Manuel Fangio.

Fiquei na cidade por mais dois dias, aproveitei para passear, descansar, tomar sorvete de doce de leite e beber vinhos (duas coisas que não se pode deixar de fazer em Buenos Aires). Foi um congresso que, assim como os anteriores, deixou saudades.

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IJK na mídia

O IJK repercutiu na imprensa cearense: pelo menos três jornais e quatro emissoras de TV publicaram reportagens sobre o evento, e duas emissoras de rádio promoveram debates sobre o Esperanto. Infelizmente não consegui links para todas as reportagens, mas quem tiver mais informações pode me enviar que coloco aqui.

Debate de 15 minutos na rádio Band News com Anna Lobo de Carvalho, secretária da BEJO (Organização da Juventude Esperantista Brasileira) e Romualda Jeziorowska, polonesa que trabalha na E@I, empresa de educação na internet que usa o esperanto como língua de trabalho, tendo como um de seus projetos o site Lernu.net, através do qual é possível aprender esperanto gratuitamente.

Debate na CBN sobre Esperanto e Juventude

Debate na CBN sobre Esperanto e Juventude

Debate de uma hora sobre Esperanto e Juventude la rádio CBN, com a presença de Rogener Pavinski, redator da revista Kontakto, Rafael Henrique Zerbetto (eu, rs), conselheiro da UEA, Zbigniew Pastor, esperantista polonês, e o secretário municipal de juventude, Afonso Tiago Nunes de Sousa.

Reportagem da TV Diário sobre o congresso, gravada durante o Festival de Línguas e Culturas: http://tvdiario.verdesmares.com.br/videos/detalhes-de-videos?id=09987578f3f9db0c47133f690658f8ee (a partir de 10:25)

Reportagem da TV Verdes Mares, afiliada à Rede Globo, que foi ao ar na CETV e no Bom Dia Ceará. A equipe da TV Verdes Mares acompanhou uma excursão pelo bairro do Benfica: http://g1.globo.com/videos/ceara/cetv-2dicao/t/edicoes/v/evento-reune-pessoas-de-25-nacionalidades-com-um-idioma-comum-o-esperanto/3512338/

Outros dois canais de TV visitaram o local do congresso e fizeram reportagens, mas não consegui arranjar os links.

Reportagem no jornal Tribuna do Ceará: http://tribunadoceara.uol.com.br/noticias/cotidiano-2/fortaleza-e-sede-esperanto-e-reune-jovens-de-25-paises/

Reportagens no jornal O Povo:

http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2014/07/18/noticiafortaleza,3284425/fortaleza-sedia-o-70-encontro-mundial-da-juventude-esperantista.shtml

http://www.opovo.com.br/app/opovo/cotidiano/2014/07/19/noticiasjornalcotidiano,3284881/encontro-reune-falantes-do-idioma-em-fortaleza.shtml

Além disso tudo, algumas semanas antes do IJK o programa Viva Domingo, da TV O Povo, apresentou reportagem sobre o Esperanto: https://www.youtube.com/watch?v=DIbVjL-AFQA

Uma curiosidade: Demócrito Rocha, fundador do Jornal O Povo, era esperantista.

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IJK em Fortaleza!

Costumo usar o blog para escrever sobre o uso do esperanto em minhas viagens ao exterior, mas dessa vez falarei sobre o IJK – Congresso Internacional da Juventude da TEJO, no Brasil. Pela segunda vez nosso país sediou o congresso, a primeira foi em Paro Branco, no Paraná, em 2002, e desta vez foi em Fortaleza, no Ceará.

Foto oficial do 70° IJK

Foto oficial do 70° IJK

Por ser presidente da comissão organizadora, tive muito trabalho ao longo do congresso, e por essa razão não pude atualizar o blog durante o evente, o ritmo de trabalho era intenso e mal tive tempo para dormir, mas valeu a pena.

Primeira refeição em Fortaleza, com esperantistas de vários países

Primeira refeição em Fortaleza, com esperantistas de vários países

Cheguei em Fortaleza no dia 11 de julho, meu aniversário, e no aeroporto encontrei três esperantistas franceses: Bruno e Sebastian, que estiveram comigo em outras ocasiões narradas aqui no blog, e Antoine, que conheci naquela ocasião. Hilbernon, um esperantista local, foi nos buscar de carro no aeroporto e nos levou para a Associação Cearense de Esperanto, onde nos encontramos com outros esperantistas e fomos juntos jantar em uma pizzaria. Depois fomos dormir, com exceção de Antoine e Sebastian, que voltaram para o Aeroporto e seguiram de madrugada para o Rio de Janeiro para participar de um encontro de esperantistas.

Artesanato de Jericoacoara: emblema do IJK pintado sobre um ladrilho.

Artesanato de Jericoacoara: emblema do IJK pintado sobre um ladrilho.

Nos dias seguintes trabalhei com outros organizadores do evento, tínhamos muita coisa para providenciar até o congresso, mas também nos divertimos um pouco no fim de semana, inclusive aproveitamos o domingo para ir à praia. No meio da semana nos mudamos para o local do congresso, a Associação Recreativa dos Funcionários dos Correios do Ceará – ARCO-CE, onde começamos a preparar o local e receber os esperantistas que aos poucos iam chegando dos diversos cantos do mundo. Um grupo foi para Jericoacoara, onde aconteceu a excursão pré-IJK.

Eu Sou a Porta: trio mexicano se apresenta durante o Festival de Línguas e Culturas, na praça da Gentilândia.

Eu Sou a Porta: trio mexicano se apresenta durante o Festival de Línguas e Culturas, na praça da Gentilândia.

E chegou o IJK. Nos primeiros dias o ritmo de trabalho foi intenso, isso porque normalmente as excursões acontecem no meio da semana, após a recepção e acomodação dos congressistas, mas como o clube precisava ficar disponível para os associados durante o fim de semana, tivemos que fazer as excursões logo no início, acumulando muito trabalho nos primeiros dias, mas conseguimos cuidar de tudo: receber e instalar equipamentos, alocar os congressistas nos alojamentos, acertar pagamentos pendentes, inscrever pessoas nas excursões, etc. Fui dormir depois das três da manhã e levantei às 6:30.

Sendo entrevistado pela TV Diário durante o Festival de Línguas e Culturas. Ao fundo, busto de Zamenhof, criador do Esperanto.

Sendo entrevistado pela TV Diário durante o Festival de Línguas e Culturas. Ao fundo, busto de Zamenhof, criador do Esperanto.

Tínhamos que sair às 7:30 para a praça da Gentilândia para organizar as coisas para o Festival de Línguas e Culturas, dois ônibus saindo às 8:00 levariam o restante das pessoas. Mas o buffet atrasou em uma hora a entrega do café da manhã e acabamos saindo todos por volta das 9:00. Problemas à parte, o evento foi lindo: esperantistas de diversos países montaram bancas para exibir coisas típicas de seus países, muitos ofereceram degustação de comes e bebes, e teve até gente usando roupas típicas. No palco, um trio de esperantistas mexicanos, Mi Estas la Pordo, com participação especial de dois jovens de Itaitinga, município vizinho, e depois Gijom, se apresentaram cantando e tocando em diversas línguas, inclusive esperanto.

Esperantistas na praia de Iracema

Esperantistas na praia de Iracema

Depois deste evento maravilhoso, saíram três excursões de meio dia, sendo que eu guiei uma delas, para o Centro Cultural Dragão do Mar e Praia de Iracema. A Romualda, “Roma”, polonesa vencedora do concurso “Partoprenu IJK”, se encantou com a estátua de Iracema. Me disse que logo após ganhar o concurso colocou um poster do IJK, com uma foto dessa estátua, em seu quarto e olhava para ela todos os dias enquanto aguardava ansiosamente sua viagem.

Na quarta-feira guiei outra excursão. Na verdade não fui guia, mas intérprete, já que um guia profissional nos acompanhou, para três praias: Morro Branco, das Fontes e Canoa Quebrada. Foi a primeira vez que visitei aqueles lugares lindos, e quero muito voltar. Caminhamos por falésias de areias coloridas, conhecemos vários tipos de artesanato, nadamos no mar…

Oré Anacã, grupo de danças folclóricas, se apresentou no IJK

Oré Anacã, grupo de danças folclóricas, se apresentou no IJK

A parte artística do congresso também foi inesquecível, com muitos shows de artistas esperantistas, Jonny M, Johannes Mueller, Tarcísio Lima, Gijom e Supernova, além de dois grupos locais, Damas Cortejam, grupo de mulheres que cantam e tocam músicas brasileiras com temática feminina, e Oré Anacã, grupo de danças folclóricas da Universidade Federal do Ceará.

Geomar, esperantista cubano, canta música em esperanto para programa de TV.

Geomar, esperantista cubano, canta música em esperanto para programa de TV.

Durante a madrugada, as principais atrações eram o bar, onde as pessoas não só bebiam e conversavam, mas chegaram até a colocar música e dançar, e o gufujo (a tradução seria algo como “corujódromo”), um espaço tranquilo, a meia-luz, para conversar, beber chá, comer bolo… Para cuidar do Gufujo convidei minha amiga Ĝoja, chinesa que trabalha na redação em Esperanto da Rádio Internacional da China, e ela fez um trabalho fantástico: não apenas trouxe chás da China para servir aos convidados, mas também um jogo completo de xícaras e outros utensílios de porcelana ou madeira para o preparo do chá, fotografias e artesanato para enfeitar o ambiente, cuidou de cada detalhe com muito zelo e fez doces chineses para vender no Gufujo. Cada pessoa que chegava no Gufujo recebia um chá de boas-vindas, que cada dia era um, e além dos chás chineses havia chá-mate brasileiro e chá ceilão que eu trouxe do Sri Lanka. Outra opção para a madrugada era jogar jogos de tabuleiro, e Hilbernon deixou sua imensa coleção de jogos à disposição dos congressistas.

Reunião da TEJO

Reunião da TEJO

As palestras e oficinas foram bem variadas, desde oficina de canto até palestra sobre os limites do crescimento econômico em um planeta com uma quantidade limitada de recursos. Tivemos reuniões do conselho da TEJO e, pela primeira vez no Brasil, uma série de seminários AMO, o novo programa de treinamento de ativistas da UEA, sendo que um dos seminários foi organizado por mim.

O local do congresso era favorável à prática de esportes, e muitos congressistas preferiram curtir a piscina, jogar volei ou futebol. Para quem prefere dançar, tivemos aulas de forró, samba e zouk. Também tivemos um sarau no Gufujo, que foi memorável. Uma pena eu não ter tido tempo de contar tudo mais detalhadamente e no calor da hora.

No último dia do congresso, participamos de um debate na CBN sobre Esperanto e Juventude

No último dia do congresso, participamos de um debate na CBN sobre Esperanto e Juventude

Logo após o fim do IJK, segui para Buenos Aires para participar do UK, o Congresso Mundial de Esperanto. No UK fui diretor da programação temática, de modo que também estive muito ocupado ao longo de todo o congresso e não pude escrever para o blog, mas pretendo contar em breve sobre minha experiência na Argentina, mesmo país onde, em 2006, participei de meu primeiro encontro de esperantistas.

Muitos jornais e canais de TV fizeram matérias sobre o evento, e duas rádios organizaram debates sobre o tema.

 

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Negombo

Demorou, mas antes tarde do que nunca. Após meu retorno ao Brasil estive muito ocupado com os preparativos do IJK no Brasil, além da necessidade de cuidar do serviço que foi acumulando enquanto eu estava no exterior.

No meu último dia no Sri Lanka visitamos Negombo. Fomos de carro, que é muito mais rápido do que ir de ônibus, além da facilidade para ir de um local turístico a outro. Sendo um dos principais destinos turísticos do país, é mais comum ver turistas estrangeiros pelas ruas do que nas outras cidades que visitei no país.

Igreja de Nossa Senhora

Igreja de Nossa Senhora

Primeiramente fomos à igreja de Nossa Senhora, mas estava fechada. Aliás, não só ela, mas outros lugares que fomos visitar também estavam fechados, segundo o Zeiter por ser horário de almoço (chegamos lá por volta de meio-dia e meia, e os locais poderiam ser visitados após as 15:00). Não conseguimos visitar a igreja, mas visitamos a capela do Santo Sudário, ao lado, e uma gruta artificial com uma imagem da virgem Maria. As pessoas também tiram os sapatos para entrar na capela, e precisei tirar o meu.

Em frente à igreja há uma estátua do padre que a fundou e três mastros para colocar bandeiras, em um deles estava hasteada a bandeira do Vaticano, em outro uma bandeira que não conheço, mas me disseram ser algo como “catolicismo na Ásia”.

Igreja de São Sebastião

Igreja de São Sebastião

Depois passamos em frente a dois templos budistas, os dois fechados, então nem paramos, seguimos até a igreja de S. Sebastião, que também estava fechada, e lá descemos para tirar fotos diante da igreja, onde há estações de via-sacra com estátuas. Me chamou a atenção a imagem de S. Sebastião na entrada da igreja: no Brasil ele é representado no momento de sua morte, amarrado nu e com o corpo sendo perfurado por flechas, lá no Sri Lanka ele é representado com sua roupa de soldado romano.

Esperantistas na praia em Negombo

Esperantistas na praia em Negombo

Visitamos uma praia. Ventava muito e no mar havia várias jangadas típicas do país. Caminhamos pela praia, molhamos os pés no mar, subimos nas pedras para admirar a paisagem e um pássaro chegou pertinho de mim e posou para fotos.

Entrada do Templo Angurukaramulla

Entrada do Templo Angurukaramulla

Depois fomos novamente tentar visitar o templo Angurukaramulla, um dos mais importantes do Sri Lanka e o maior do budismo theravada em Negombo. Os muros ao redor são decorados com elefantes em relevo. A entrada do templo forma a boca aberta de um leão (os singaleses acreditam descender de um leão) e lá dentro tudo é muito colorido, com pinturas e esculturas harmonizadas de tal forma que é difícil distinguir o que é pintado na parede e o que é escultura diante dela. Monges, budas, animais e outras criaturas são representados nas paredes ou diante delas.

Um dos budas do templo Angurukaramulla

Um dos budas do templo Angurukaramulla

Após visitar este belo monumento chegou a hora de ir embora. No caminho compramos comida e almoçamos em casa. Em seguida tomei banho e arrumei as malas: era hora de partir. Me despedi de todos e um tuc-tuc me levou até o aeroporto para voltar ao Brasil.

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Congresso Singalês de Esperanto

Congresso Singalês de Esperanto

 O prolongamento da minha estada no Sri Lanka se deu em função do primeiro Congresso Singalês de Esperanto. Apesar de ter sido um evento modesto, é um marco na história do movimento esperantista no Sri Lanka, e me orgulho de ter feito parte disso. Sendo conselheiro da UEA, naturalmente representei a UEA no país durante o período em que lá estive, conversei com esperantistas locais e busquei diagnosticar a situação do movimento esperantista no Sri Lanka, agora farei um relatório para a UEA e a TEJO.

Foto oficial da abertura do 1° Congresso Singalês de Esperanto

Foto oficial da abertura do 1° Congresso Singalês de Esperanto

O Adeel foi enviado para o Sri Lanka pelo KAEM – Comissão Asiática do Movimento Esperantista, uma espécie de departamento da UEA para a Ásia, e ficará no país por mais algumas semanas, visitando esperantistas e clubes em algumas cidades, e também ministrando cursos e palestras.

Na abertura do congresso o Adeel leu a mensagem do diretor da UEA e presidente do KAEM, Lee Jungkee, que infelizmente não pôde comparecer pessoalmente, e eu falei em nome da TEJO e do movimento esperantista brasileiro. O prefeito de Ja-Ela participou da cerimônia de abertura e acendemos uma tocha, tradição em qualquer evento no Sri Lanka: há diversos pavios embebidos em óleo e cada uma das autoridades presentes acende um dos pavios. Na abertura da WCY vi o acendimento da tocha e não entendi por que raios estavam fazendo isso, agora entendo. Aliás, participar da organização do congresso me ajudou a conhecer melhor a cultura singalesa: tivemos que entregar convites por escrito aos convidados e oferecer comes e bebes aos participantes, coisa que não é comum no exterior. Aliás, durante a WCY o governo do Sri Lanka nos dava quatro refeições diárias, fora o café da manhã incluído na diária do Hotel, tínhamos chá de manhã, almoço, chá da tarde e jantar), mas não imaginei que isso fosse uma característica da hospitalidade singalesa.

Momento em que acendi a tocha em nome da TEJO.

Momento em que acendi a tocha em nome da TEJO.

Durante a WCY recebi e-mails dos diretores da UEA solicitando minha ida imediata a Ja-Ela após o fim da conferência para averiguar a situação, já que estavam tendo dificuldades para contatar o Zeiter. Ao chegar à casa dele e tomar conhecimento da situação, percebi que estava tudo sob controle. Desde então passei a intermediar o contato entre UEA e Zeiter, já que ele não está habituado à internet.

O Stefan Keller, atual diretor de relações exteriores da UEA, morou algum tempo no Sri Lanka há 30 anos, quando ensinou esperanto para muita gente. Infelizmente o projeto não teve continuidade e o país não chegou a ter um movimento organizado, mas atualmente há, além da Associação Singalesa de Esperanto, que pretende se filiar à UEA, alguns clubes locais. O maior problema que constatei foi a falta de colaboração entre esses grupos, e estamos avaliando as causas disso e o que fazer para haver maior colaboração. Por outro lado, fiquei muito feliz em constatar o interesse dos jovens pelo esperanto: a grande maioria dos singaleses interessados na língua ou mesmo engajados no movimento têm idade na faixa dos 20 anos.

O fim da guerra e a abertura econômica renderam ao Sri Lanka o epíteto “Milagre da Ásia”. É um país de grandes contrastes, onde miséria e desenvolvimento aparecem lado a lado, e me recordo bem de ter visto uma favela sendo demolida, enquanto ao lado várias casas populares novinhas estavam sendo construídas. Nas ruas, a iluminação pública é feita com lâmpadas fluorescentes iguais às que a gente tem em casa, e faltam calçadas, mas ao mesmo tempo vi operários instalando guia rebaixada em frente a uma faixa de pedestres, vi um hospital recém construído, ambulâncias novas, enfim, o país está se desenvolvendo e conseguindo resolver seus problemas aos poucos, e é bom ver isso, mas por outro lado nunca vi tanta miséria, e isso choca, revolta, faz a gente sentir vergonha de ser humano.

E o tema do congresso foi justamente “Esperanto no Milagre da Ásia”. Achei muito apropriado, pois precisamos pensar em como podemos ajudar o povo singalês. Como fazer? O que fazer? Estamos discutindo, aliás, acabamos de criar um grupo de trabalho específico para acompanhar o movimento esperantista no Sri Lanka, mas é fato que os jovens singaleses têm curiosidade sobre o mundo, se interessam por outras culturas, querem viajar, fazer intercâmbio, e para isso o Esperanto pode ajudar muito, tanto é que todas as minhas viagens internacionais estiveram ligadas ao esperanto.

Autoridades presentes na abertura do evento: Rafael H. Zerbetto (TEJO), Adeel Butt (KAEM/UEA), Anju Perera (Prefeito de Ja-Ela) e Zeiter Perera (Presidente da Associação Singalesa de Esperanto)

Autoridades presentes na abertura do evento: Rafael H. Zerbetto (TEJO), Adeel Butt (KAEM/UEA), Anju Perera (Prefeito de Ja-Ela) e Zeiter Perera (Presidente da Associação Singalesa de Esperanto)

Porém, a tarefa é bem complicada. A paz no Sri Lanka ainda está por um fio, senti uma certa tensão no ar, basta uma autoridade fazer um comentário infeliz e pode surgir uma guerrilha. O governo atua como mediador de conflitos, gasta muito com a promoção da diversidade étnica do país, e talvez os altos investimentos na juventude sejam justamente para promover integração, o que é de extrema importância, já que entre os adultos muitas vezes há um sentimento de desconfiança com relação a vizinhos que apoiaram o lado oposto na guerra.

É importante lembrar que a guerra civil no Sri Lanka foi causada essencialmente pela discriminação da minoria tamil, e o passo mais importante na resolução do conflito foi a adoção da língua tamil como segunda língua oficial do país e seu ensino nas escolas. Embalagens, placas de trânsito, documentos oficiais, tudo tem que ser bilíngue, e mesmo assim a situação é delicada. Muita gente caçoa de mim quando digo que o Esperanto foi perseguido por diversas ditaduras ao longo do século XX, pois no Brasil realmente isso pode parecer ridículo, nossa realidade linguistica é bem diferente, mas no Sri Lanka senti na pele o que é ser visto com desconfiaça por defender uma lingua neutra para a comunicação entre falantes de línguas diferentes, pois lá o equilíbrio linguístico é frágil e os singaleses têm medo.

Apesar disso, o governo do Sri Lanka está impondo o inglês como terceira língua do país. Esse idioma é de ensino obrigatório em todas as escolas do país, há incentivo à prática da língua, mas os resultados são catastróficos: pensar que colocar jovens nativos em diferentes línguas para conversar em inglês os tornará falantes fluentes é uma ingenuidade tremenda, pois uma língua nacional nutre e expressa uma cultura nacional, por isso só se pode adquirir alto nível de fluência na língua tendo um íntimo contato com sua cultura, muito diferente da singalesa, daí nota-se a dialetização do inglês no Sri Lanka, como por exemplo, no hábito de perguntar a idade de alguém com “how much” (quanto custa) ou “how much you” (quanto custa você).

Além disso, no primeiro dia da WCY uma garota inglesa, em uma conversa de ônibus, comentou a maneira como os singaleses dizem “blue-tooth”: ouve-se blu-tu, blu-too, blu-two, blu-toon e por aí vai. No Esperanto temos a vantagem da gramática ser mais regular e os fonemas serem mais fáceis de identificar.

Outra desconfiança é com relação a religião. Desde a abertura econômica muitos missionários religiosos tẽm ido para o Sri Lanka, muitas igrejas dão dinheiro para famílias pobres em troca de participação nos cultos, até que elas acabam sendo convertidas e saem querendo converter os outros, e isso tem gerado reclamações por parte dos budistas, cada vez mais assediados por essas seitas, que normalmente se disfarçam de instituições de caridade, dizem querer promover a paz, ajudar o povo, e no fim só querem converter gente. Justamente por isso muitos jovens com os quais conversei sobre o Esperanto me perguntaram diversas vezes se constituímos uma religião, mas esse obstáculo à divulgação do Esperanto no país pode ser vencido com facilidade, uma vez que há duas resoluções da UNESCO em favor do Esperanto, reconhecendo seu valor cultural e solicitando aos países-membros colaboração para popularizá-lo.

No próximo texto contarei como foi meu último dia no Sri Lanka. Visitamos Negombo.

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Um pouco mais sobre o Sri Lanka

Suspeito que por aqui o conceito de turismo é diferente do nosso, pois muitos singaleses dizem que, após conhecerem um lugar diferente, não há motivo para voltar, porque é um lugar que já conhecem, bem ao contrário de quem desce pra baixada santista todo fim de semana. Já os turistas estrangeiros que chegam aqui se dividem em dois grupos: os jovens mochileiros em busca de experiências diferentes, e idosos europeus como os que chegavam aos montes no meu hotel em Colombo quando eu estava de saída, que passeiam de ônibus com guia algumas vezes na semana e passam o resto do tempo bebendo no bar do hotel (pelo menos foi isso que me disseram). Aliás, essa forma de turismo é a mais comum por aqui, e talvez isso explique porque, embora haja muitos turistas estrangeiros, o povo não está acostumado a ter contato com eles.

Já fui diversas vezes a Ja-Ela com o Zeiter. A gente vai de transporte público, para mim é uma aventura e tanto. Aqui no Sri Lanka usa-se mão inglesa, nos primeiros dias da WCY eu estranhava, diversas vezes contornei o ônibus para dar de cara com uma não-porta, voltar e entrar pela porta do lado esquerdo. Também a primeira vez que andei no banco da frente do carro do sobrinho do Zeiter me atrapalhei todo, pois abri a porta direita e dei de cara com o volante, dei a volta e entrei do lado esquerdo.

Interior de ônibus no Sri Lanka

Interior de ônibus no Sri Lanka

Os ônibus são velhíssimos e mal-conservados. Andam com a porta aberta, mas também já viajei em alguns que não têm mais porta. Normalmente param nos pontos de embarque e desembarque, mas também acontece da gente embarcar com o ônibus andando, normalmente quando ele começa a andar após uma parada e alguém faz sinal o motorista reduz a velocidade para a pessoa conseguir subir, mas não pára. Aliás, no Vietnã não usei transporte público, mas me diverti vendo as pessoas embarcando e desembarcando dos ônibus, pois lá eles realmente não param e nem reduzem drasticamente a velocidade, a pessoa vai correndo ao lado do ônibus, se segura em um suporte e assim consegue tirar os pés do chão e colocá-los dentro do veículo.

Por aqui é comum colocarem penduricalhos, geralmente um arame com pimenta e limão amarrados, no interior do veículo ou na frente. Também é comum ver imagens e gravuras representando Buda ou Jesus Cristo. Segurança não é uma grande preocupação, já vi uma gambiarra com parafusos para fixar uma saída de emergência, e creio ser impossível removê-la sem desparafusar tudo. Aliás, gambiarra é o que não falta nesses ônibus, que até têm um certo conforto, os bancos são de espuma e raramente viajo em pé, pois há muitos veículos, basta parar no ponto e esperar no máximo uns dois minutos para o ônibus chegar, mas eles não cumprem uma tabela de horários, os motoristas simplesmente saem da garagem e ficam rodando o dia todo. Já peguei ônibus lotado. Em alguns horários isso é inevitável.

Numa dessas viagens o ônibus entrou em um posto de gasolina. Pensei “não acredito que ele vai abastecer”. Abasteceu, e com o motor ligado, depois de uma complicada manobra em um espaço minúsculo para poder chegar perto da bomba. Seguimos viagem normalmente. Em outra ocasião, nosso ônibus subitamente parou e ficou um tempão parado. Perguntei o que estava acontecendo e o Zeiter me explicou: a polícia estava multando o motorista por excesso de velocidade. No Brasil os ônibus viajam bem mais rápido do que isso. Por aqui não existe faixa contínua na sinalização horizontal das vias, qualquer lugar permite ultrapassagens, daí freadas bruscas e três carros lado a lado na pista é comum de se ver, bem como sair da pista para evitar colisão, já que não há calçada, e isso certamente justifica as baixas velocidades. Existem, porém, muitas rodovias de pista dupla interligando as cidades, onde o limite de velocidade é 110 kṃ̣/h. Atravessar a rua no Sri Lanka é perigoso, é mais ou menos como no Brasil, só que com mais veículos: a gente calcula se vai dar tempo de atravessar na frente do carro e atravessa.

Rua no centro de Ja-Ela

Rua no centro de Ja-Ela

E por falar em combustível, a fumaça que sai dos escapamentos dos veículos daqui tem um cheiro horrível, e acredito que tenha alto teor de enxofre, pois já ouvi dizer que as grandes petroleiras do ocidente vendem combustível com alto teor de enxofre a preços baixos para diversos países pobres. As empresas criam seus discursos de responsabilidade ambiental, anunciam seus produtos como algo que traz qualidade de vida para a população e respeita o meio-ambiente. Na verdade se esconde a sujeira embaixo do tapete. E aqui é embaixo do tapete.

Uma coisa que gostei, além do curto tempo de espera, é a paciência que todos têm para embarcar. Em certa ocasião havia muita gente esperando para entrar, e quando o ônibus parou fizemos uma fila e esperamos as pessoas desembarcarem.

Ja-Ela não tem atrativos turísticos, a não ser as particularidades da cultura local, que podem ser vistas em qualquer lugar. Da última vez que estive em Ja-Ela não levei câmera, e de repente fui surpreendido por um caminhão transportando dois elefantes! Isso definitivamente não é uma cena comum no Brasil.

Também foi interessante visitar o mercado da cidade. Primeiro passamos em um açougue: pedaços de carne pendurados por ganchos e cheios de moscas em volta, uma balança de dois pratos para pesar a carne (até agora todas as balanças que vi são de dois pratos, com aqueles pesinhos de metal que se coloca em um prato para balancear o que está no outro), e um pedaço de tronco de árvore, todo sujo de sangue, usado para cortar a carne com uma faca velha e enferrujada. Aliás, há um vendedor de peixe que passa de moto aqui no bairro. Ele traz os peixes em uma caixa de isopor, as pessoas escolhem o que querem, ele pesa (na balança de dois pratos, claro), corta em postas e embrulha em jornal.

Os legumes, as verduras e as frutas são expostos em balcões de madeira forrados com sacos de estopa, normalmente sujos, e pesados em balanças de dois pratos. De um modo geral o mercado parece um barraco, com o teto mal feito, telhado curvado pelo desnível dos caibros, muitos deles remendados em diversas partes, e ao invés de telhas usam folhas de zinco, folhas grandes de plástico grosso, telhas eternit, tudo misturado dando ao mercado uma cara de favela. Sob o telhado há muitas teias de aranha. O chão é imundo. Por aqui não há fiscalização, e creio que nem legislação, sanitária.

Por outro lado, abusa-de da pimenta e de diversas especiarias que acabam ajudando a conservar a carne. Certo dia recebemos visita após o almoço, saímos e quando voltamos reparei que a comida tinha ficado em cima da mesa. Achei que seria jogada fora, mas foi nosso jantar, o tempero conserva os alimentos, e talvez por isso os singaleses tenham o hábito de comer tanta pimenta. Aliás, ter geladeira em casa é algo raro por aqui, e mesmo a família do Zeiter, que tem geladeira, prefere comprar alimentos para cozinhar no mesmo dia ou no dia seguinte, não se costuma usar geladeira para estocar comida, e creio que essa rapidez em consumir o que se compra contribui para que o alimento não estrague.

Quando acabou o arroz na casa do Zeiter, fui com ele à mercearia mais próxima e descobri que arroz aqui é vendido a granel. A mercearia é bem mais limpa que o mercado. Há um computador no caixa, mas fica a maior parte do tempo desligado, o dono é um velhinho que não sabe usar computador e soma as compras no papel, sem pressa, escrevendo o nome de cada produto (em singalês) em uma folha dessas de nota fiscal, e o preço na frente, depois faz as contas, pega o dinheiro e devolve o troco. Seus filhos também trabalham na mercearia, e diversas vezes ao dia colocam os pães em uma miniloja montada na traseira de um caminhão e rodam o bairro tocando uma musiquinha. As pessoas saem de suas casas e compram pão no meio da rua.

Adeel mostrando coisas do Paquistão para a filha do Zeiter

Adeel mostrando coisas do Paquistão para a filha do Zeiter

Fomos buscar o Adeel no aeroporto, que está lindo cheio de enfeites do Vesak, mas infelizmente não consegui fazer uma boa foto.

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Vesak-poya, a festa do nascimento de Buda

Entre os dias 14 e 15 de maio tivemos lua cheia. Aqui no Sri Lanka toda lua cheia é feriado, e esses feriados são chamados de poya. Cada poya é uma festa budista dedicada a algo especial, e o principal destes feriados é o Vesak, justamente o que acabou de acontecer.

Vesak é a comemoração do nascimento de Buda. Desde que cheguei aqui vejo, em todos os lugares, bandeiras semelhantes às que eu via na entrada dos pagodes no Vietnã (por aqui não há pagodes, e os templos budistas têm outro tipo de decoração e organização, pois aqui predomina outra forma de budismo, diferente daquela do leste da Ásia), inclusive em frente às casas, prédios comerciais, dentre outras coisas. Além das bandeiras, tinha uma novidade: lanternas e balões, alguns muito bonitos, enfeitando as ruas. Sei que essas bandeiras tem a ver com o budismo, mas então porque estavam em todo lugar? Depois vim a saber que é por causa do Vesak.

Prédio enfeitado com bandeiras para o Vesak

Prédio enfeitado com bandeiras para o Vesak

Além disso estavam contornando tudo com lâmpadas como essas que usamos em decorações de natal, mas a maioria sem pisca-pisca. Durante a WCY vi homens colocando iluminação ao redor das árvores, e durante as duas noites do Vesak, a lua cheia e a noite seguinte, tive a oportunidade de ver casas enfeitadas, com lampadazinhas, lanternas de papel e bandeiras. Mesmo quem não é budista participa do Vesak, e o que mais gostei foi ver o povo nas ruas se confraternizando.

Em Colombo vi altares e imagens de Buda em diversas esquinas e praças, normalmente dentro de uma câmara de vidro, sempre com um pote cheio de pétalas de flor diante da imagem, e aqui em Ja-Ela isso também existe, mas é mais comum ver imagens de santos católicos e estátuas representando passagens bíblicas, por isso suponho que aqui o catolicismo seja mais popular. Aproveito a ocasião para contar que, logo após o Vesak, uma imagem peregrina da Virgem Maria foi trazida até a casa do Zeiter junto com um pires cheio de pétalas de flor, e no dia seguinte levaram a imagem para outra casa, com o pires junto após a troca das pétalas. As imagens de Buda também são muitas e estão por toda parte, e é nas imediações delas que se comemora o Vesak.

Discutindo com o Zeiter sobre a programação do Congresso Singalês de Esperanto, perguntei se ele tinha bandeiras do Sri Lanka e do Esperanto, pois precisaríamos para a cerimônia de abertura. Ele me trouxe um saco com suas bandeiras, e no meio tinha uma do Vaticano. Ele então me explicou que, assim como os budistas fazem no Vesak, católicos enfeitam suas casas com luz e bandeiras do Vaticano por ocasião do Natal.

Com a família do Zeiter, indo para o Vesak

Com a família do Zeiter, indo para o Vesak

Saímos da casa da cunhada do Zeiter, eu e todos os familiares dele, e seguimos juntos em direção à entrada do condomínio. Pelas ruas, várias famílias a pé, todas indo aos lugares onde servem comida gratuitamente a todas as pessoas que chegam. Em qualquer lugar público onde há um altar para Buda colocam uma barraca nas proximidades, onde são entregues as refeições, e ao lado há várias mesas e cadeiras para as pessoas comerem e um caminhão-pipa conectado a uma pia para as pessoas lavarem as mãos.

O sobrinho do Zeiter pegou o carro. Decidiram me levar para a cidade, para ver a festa. Paramos em uma das barracas para comer e recebi um prato com arroz branco, sambol (é o que os singaleses mais comem, colocam isso em tudo), frango com um molho que é praticamente pimenta pura, e um creme que não sei do que se trata. O frango estava gostoso, mas o tempero era muito forte. O sambol deixei de lado. Experimentei o creme, mas também era forte demais. Foi a comida mais apimentada que já comi, depois de algumas mãozadas (aqui se come com as mãos) não conseguia mais engolir nada a não ser o arroz. Me serviram água para ajudar a engolir, mas deixei metade da comida no prato por não conseguir comer.

Há uma tira de plástico, desses de sacola de supermercado, em cima de cada prato. Após comer a pessoa embrulha o que sobrou neste plástico e devolve o prato limpo. O embrulho é jogado na galeria de águas pluviais.

Seguimos de carro para um outro lugar. Estávamos passando por um viaduto quando vi um altar enorme com um Buda, todo iluminado por lâmpadas coloridas. Parecia uma roda-gigante à primeira vista, com lâmpadas acendendo e apagando, mas era um altar. E ao lado dele, assim como dos outros altares que vi (exceto dentro dos templos), há alto-falantes entoando mantras.

Altar iluminado com Buda no centro da roda

Altar iluminado com Buda no centro da roda

Fomos até aquele altar iluminado que vi de longe. Cheguei perto dele, tirei fotos, vi as pessoas nas ruas comemorando o Vesak. Entramos em outra fila de comida. Nesta estavam dando sorvete. Depois voltamos para casa. No caminho ultrapassamos um tuk-tuk cheio de jovens animados batucando e cantando. Também vi algumas pessoas com máscaras. Aqui há caminhões de passageiro, parecidos com paus-de-arara, e também colocam cadeiras de plástico sobre caminhões de carga para levar pessoas para a festa. Aliás, também vi pessoas sendo transportadas em uma espécie de trator de um eixo, que precisa estar conectado à carreta para ficar em pé.

Na noite seguinte fomos até o Buda mais próximo daqui, onde nos serviram mandioca cozida com sambol. Comi toda a mandioca, com menos sambol do que os singaleses comem, mas não estava excessivamente picante. Após essa refeição fomos para a base da força aérea, pois nessas ocasiões eles abrem para visitação o memorial construído em homenagem aos combatentes da força aérea que morreram na guerra civil.

Comendo mandioca gringa, com as mãos, como é o costume no Sri Lanka

Comendo mandioca gringa, com as mãos, como é o costume no Sri Lanka

O memorial é muito bonito, cercado por espelhos d’água e precedido por ruínas de uma casa bombardeada. Acessa-se o andar de baixo por uma rampa e lá há um grande mural com fotos dos mortos, quase 500, e sobre cada foto se lê o nome, a posição na hierarquia militar e a função que exercia. Alguns eram médicos, enfermeiros e engenheiros que podiam estar fazendo muito pelo povo agora que a guerra já não existe, mas suas consequências estão por toda parte. Nunca antes estive em país recém saído de uma guerra, e agora sei que é algo muito pior do que sempre fui capaz de imaginar. Atrás do mural há um muro com frases escritas por familiares dos mortos: pais, filhos e esposas contando o que sentem e prestando homenagens a seus entes queridos.

Em frente à base aérea existe um templo budista, ainda em construção, e que estava aberto para visitação por ocasião do Vesak. Entramos. O chão é todo de areia, e deve-se tirar os sapatos logo na entrada. Caminhei pelo templo, vi várias imagens de Buda, incenso e velas queimando. Cheguei ao pé de uma árvore cercada por altares, em cada altar um Buda. Me ensinaram que se deve pegar um copo plástico (fica ao pé da árvore), encher de água na torneira, mentalizar um pedido e dar a volta ao redor da árvore parando em cada altar para uma reverência, e finalmente jogar a água na base da árvore, onde há pedaços de estátuas quebradas de Buda. Um desses Budas parecia olhar para mim pedindo água, então dei a ele o último gole.

Buda na entrada do templo

Buda na entrada do templo

Depois fomos até o altar principal, dentro de um salão no interior do templo, e lá as pessoas entram, se ajoelham e fazem uma reverência se abaixando. Fiz isso também, saí, e viemos embora. Tenho boas recordações do Vesak, festa que reúne todas as pessoas sem distinção, o que acho muito importante, pois a convivência entre os diferentes grupos sociais é a melhor forma de se combater preconceitos e discurso de ódio.

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Conhecendo a cultura singalesa

No mesmo local da WCY havia um pavilhão com exposições para o público em geral, e na sexta-feira, último dia da conferência, os visitantes eram muitos, bem mais do que nos outros dias. Além de muitos estudantes, era fácil notar trabalhadores em seus uniformes de trabalho, famílias a passeio, grupos de amigos. A exposição não tinha muita coisa, alguns stands apresentando o trabalho de algumas organizações locais, um palco com apresentações de música e dança e um salão de beleza onde estudantes cortavam cabelos e maquiavam as pessoas gratuitamente.

Mas o que mais chamava a atenção dos locais, e, creio eu, o verdadeiro motivo de estarem ali era a presença de muitos estrangeiros. O Sri Lanka sempre foi um país muito isolado, que só agora começa a fortalecer relações com outros países e atrair turistas estrangeiros. Embora o turismo tenha um papel importante na economia local, a presença de pessoas vindas do exterior ainda é novidade, por isso ficam nos olhando demoradamente, como se estivessem fazendo um esforço para guardar nossas fisionomias, e, claro, pedem para tirar fotos.

Girafas do Brasil com singaleses

Girafas do Brasil com singaleses

Após sair de um grupo de trabalho, encontrei um casal de brasileiros, que veio estudar budismo e ficará aqui durante um ano, sentado em um gramado conversando, e eles me disseram “acabamos de ser girafas”. Não entendi, mas explicaram: as pessoas os cercaram, pediram para tirar fotos, e seguiu-se uma exaustiva sessão de fotos. Nisso apareceram algumas pessoas pedindo para… isso mesmo, tirar fotos. E em seguida veio outro grupo, e mais outro, até que decidimos sair dali para termos um pouco de sossego. Foi uma situação engraçada.

No dia seguinte houve o encerramento da conferência, depois representei a TEJO em uma reunião do ICMYO (Coordenação Internacional para Encontros de Organizações Juvenis) e fui para o hotel no fim da tarde. Todos os compromissos terminados, eu tinha um tempo para passear, caminhar pelas ruas pela primeira vez, mas estava tão cansado que ao chegar em meu quarto deitei para um cochilo e acordei às 22:30. Desci ao saguão e encontrei um rapaz de Cabo Verde interessado em sair para dar uma volta. Outras pessoas preferiram ficar na piscina ou no bar do hotel, e fomos só nós dois.

Representando a TEJO na reunião do ICMYO

Representando a TEJO na reunião do ICMYO

Tuk-tuks aos montes em qualquer canto, todos os motoristas insistentemente oferecendo seus serviços, a maioria em uma língua incompreensível, outros com monossílabos em inglês. Pedimos informação e queriam nos levar para outro lado da cidade, mas mediante nossa recusa um deles nos apontou o prédio vizinho. “Dance Dance!” (Os singaleses têm o hábito de repetir as palavras para dar-lhes ênfase). Na entrada da viela escura que começava na esquina ao lado do hotel, havia uma porta abaixo de um letreiro de neon, guardada por dois seguranças que nos convidaram a entrar. As paredes eram pretas e tudo era iluminado por um luz vermelha. Enquanto subíamos a escada meu companheiro me disse “parece ser um bordel”. Tive a mesma impressão, que se acentuou quando chegamos no andar de cima e tivemos que passar por um túnel branco cheio de arcos de neon. Chegamos a um corredor imenso onde havia a estátua de uma mulher nua, e no fim do corredor, finalmente, a danceteria: uma pista de dança minúscula, do tamanho do meu quarto em Campinas, cercada por mesas onde pessoas bebiam e conversavam, a música era muito alta, e em um canto, após a pista, havia uma saleta anexa com mais mesas e um balcão de bar. Era um bar normal, nada a ver com o que havíamos imaginado, e o ambiente não era ruim, mas decidimos sair dali, pois não estávamos a fim de música alta. Saímos.

Fomos para a avenida principal e chegamos a um bar luxuoso, onde a cerveja custava o triplo do que custa no hotel (que é quase o dobro do preço no supermercado), decidmos ir passear na orla da praia, já que era ali perto e havíamos visto, de longe, barracas vendendo comes e bebes e muitas pessoas passeando. O ambiente era gostoso, famílias e amigos passeando, ar fresco, mas a iluminação deixa a desejar, e fiquei preocupado com a escuridão, mas seguimos, pois tinha muita gente ali. Após caminharmos por algum tempo, um grupo de adolescentes locais se juntou a nós. Estavam curiosos, tentavam nos perguntar muita coisa, mas não tínhamos uma língua em comum. Eles conversavam em Tamil, tentavam falar em inglês, mas só conseguiam perguntar nossos nomes, de onde vínhamos e desde quando estávamos no país. Um deles conseguiu, após várias tentativas, perguntar a nossa idade, e demorei a entender, pois aqui muita gente pergunta idade dizendo “how much old are you?” (às vezes sem o verbo).

Me senti intimidado com a presença dos garotos, eles eram sete, estávamos em um local escuro e a abordagem deles me parecia suspeita, talvez estivessem querendo nos assaltar, já havia sido alertado por esperantistas locais ou que visitaram o Sri Lanka para ter cuidado com batedores de carteira. Meu companheiro teve a mesma impressão, mas era evidente, também, que havia neles muita curiosidade sobre a gente e sobre nossos países de origem, e também uma frustração por não conguirem nos perguntar o que desejavam saber sobre o mundo, nem entender o que dizíamos. Por fim, poediram para tirar fotos conosco antes de irmos embora, e seguiu-se uma sessão de fotos, todos eles contentes e dizendo que colocariam no Facebook. Se ofereceram para nos fotografar com nossas câmeras para também termos uma recordação, mas é claro que eu não entregaria o celular para eles, respondi que havia deixado tudo no hotel. Eles se despediram e foram embora. De volta ao hotel, conversei com algumas pessoas, fui para o quarto e fiquei na internet até as três da manhã, pois estava sem sono.

No dia seguinte era hora de partir. O plano inicial era ir para a casa do Ishanke, mas durante a semana os planos acabaram mudando: o presidente da Associação Singalesa de Esperanto, Zeiter Perera (devido à colonização portuguesa, muitos nomes portugueses são comuns por aqui, Silva e Perera são os mais comuns, mas também já vi outros). O Zeiter me telefonou de manhã, conforme o combinado, prometendo me encontrar no hotel às 15:00. Eu tinha um dia inteiro em Colombo para passear, mas antes de mais nada decidi dar uma volta nas imediações e procurar um local para recarregar meu celular, que estava sem créditos, pois poderia ser necessário entrar em contato com esperantistas em caso de imprevistos. Não me dei conta de que era domingo e o comércio estava fechado.

Por sorte encontrei um rapaz que me ajudou. Fomos de tuk-tuk até uma lojinha que funciona aos domingos, e lá ele foi meu intérprete. Voltei ao hotel com créditos no celular, mas como é perigoso para um estrangeiro andar sozinho por aí e não encontrei pessoas dispostas a ir passear, acabei ficando no hotel à espera do Zeiter. Resolvi aproveitar a ocasião para arrumar as malas e escrever meu texto anterior para o blog, e quando estava escrevendo ouvi barulho de fanfarra vindo da rua. Olhei pela janela e vi algo muito esquisito: haviam colocado dois postes, desses de linha de chegada de corrida de rua, no meio da pista, e a polícia havia interrompido o trânsito. Diversos motociclistas passaram por entre os postes e seguiram atrás de um carro de polícia pela rua. Atrás deles vieram um ônibus turístico, desses com andar superior aberto, com a fanfarra embaixo e gente em cima agitando bexigas amarelas. Também tinha duas caminhonetes pretas com vidro bem escuro e um caminhão com motocicletas em cima nessa estranha parada, e por fim, fechando o desfile, mais motociclistas, dessa vez trajando roxo. Depois que foram embora retomei minhas atividades, mas uma hora depois comecei a gargalhar ao ouvir novamente o som da fanfarra: sim, estavam voltando, e a dispersão foi em frente ao hotel. As motocicletas foram colocadas em caminhões e levadas embora, enquanto as pessoas foram embora de ônibus. Paradas como essa acontecem em todo o país e se estendem por toda a primavera, especialmente durante o ano novo singalês, que aconteceu em abril.

Um estranho desfile em Colombo.

Um estranho desfile em Colombo.

Depois de almoçar o Zeiter me contatou: estava a caminho. Terminei de arrumar as malas e fiz check-out. Em seguioda fiquei conversando no saguão com um rapaz da Guiné-Bissau, também delegado da WCY, até o Zeiter chegar. Seguimos para Ja-Ela, onde ele mora, e no caminho, pela primeira vez, vi um elefante no meio da rua. Ele mora em um condomínio atrás de uma base da força aérea, perto do Aeroporto Internacional Bandaranaike, por onde entrei no Sri-Lanka. Fui apresentado a todos da família, que são muito simpáticos.
A comida que eu havia experimentado no hotel era, até então, a mais apimentada que eu já havia comido na vida, e eu desconfiava que eles não maneiravam na pimenta por causa dos turistas, como costuma acontecer em hotéis. Engano meu: as pessoas, no dia-a-dia, comem uma comida muito mais apimentada do que a do hotel, e meus primeiros dias em Ja-Ela foram terríveis, cada refeição era um martírio, mas diante da minha dificuldade em engolir a comida começaram a me oferecer pratos em que as partes apimentadas são misturadas no prato, a gosto, e também há alguns pratos singaleles com menos pimenta, mas até no café da manhã se costuma comer sambol, uma mistura de coco ralado com pimenta vermelha e algumas outras especiarias.

Por outro lado estou adorando os chás, e aqui as pessoas bebem chá diversas vezes ao dia. Café também é popular, mas normalmente usam café solúvel. Também se bebe chá com leite, o que é novidade para mim, e os biscoitos são muito gostosos. Aliás, o Zeiter gosta de me levar para visitar os vizinhos, e aqui é costume oferecer comida e chá às visitas. Uma das famílias que visitei me ofereceu o que disseram ser um doce típico do Sri Lanka: era doce de leite feito em casa, parecido com o que temos no Brasil. Também já me serviram rapadura, que não é tão dura nem tão doce como a do Brasil.

Como representante da UEA, estou ajudando o Zeiter com a organização do Congresso Singalês de Esperanto. Já fui com ele à prefeitura convidar autoridades para o evento e também fomos juntos acertar detalhes sobre a locação do salão para o o congresso acontecer. Será o primeiro congresso de Esperanto realizado no Sri Lanka, e alguns estrangeiros virão. O Adeel, que não vejo desde 2012, chegará dia 19. Após experimentar a alegria de ser recebido pela Ĝojo no aeroporto de Hanói, e pelo Dror no de Tel-Aviv, agora estarei do outro lado: irei encontrar o Adeel no aeroporto.

Aqui no Sri Lanka as pessoas cospem no chão, escarram e soltam pum em qualquer ocasião, isso não é considerado nojento nem ofensivo. Outro hábito estranho para mim é a maneira como as pessoas comem: pegando a comida com os dedos. Além disso, fora do meu quarto de hotel nunca vi uma lixeira, e o Zeiter me explicou que aqui o hábito é jogar lixo no chão, e há funcionários da prefeitura que recolhem o lixo das ruas. Nos banheiros normalmente não há papel higiênico nem cesto de lixo, pois as pessoas se limpam com a ducha higiênica (isso sim se acha em qualquer banheiro) e colocam a roupa por cima do corpo molhado.

Além disso os homens costumam usar uma espécie de saia em situações mais informais, e aqui é quente e úmido. Chove quase todo dia, mas normalmente é uma pancada de chuva que dura menos de meia hora, e depois disso o sol volta a brilhar. Porém, o regime de chuvas depende das monções e varia muito ao longo do ano.

Comprei 550MB de internet 3G. Acho que é suficiente para o resto dos meus dias no Sri Lanka, então espero poder atualizar o blog com mais frequencia. Aqui é difícil conseguir wi-fi de graça, e a família do Zeiter só usa 3G porque ele acredita que internet é ruim para a educação dos filhos.

Tráfego em Colombo

Tráfego em Colombo

A maioria das pessoas que conheci em Ja-Ela são católicas, e normalmente têm um altar em casa com estatuetas de Buda ao lado dos santos da igreja católica, e à frente das imagens colocam pétalas de flores e queimam incenso, exatamente como os budistas fazem. É interessante notar essa assimilação de uma forma regional de culto, o que também acontece no Brasil, especialmente no que diz respeito a simpatias (lavar o santo, colocá-lo de castigo, etc.). Quase 70% da população do país é budista, e os hábitos budistas marcam profundamente a cultura local, por isso é compreensível que mesmo seguidores de outras crenças assimilem elementos do budismo.

Ja tivemos uma festinha em casa, com a presença de vários vizinhos. Comemos comida tailandesa comprada em um restaurante aqui perto e bebemos arrak, uma bebida típica, de maçã verde, mas vi que há diversos outros tipos de arrak.

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Segundo e terceiro dias da WCY

Estou tendo dificuldades para acessar a internet, mas sempre que puder atualizarei o blog.

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Uma coisa que notei na WCY é a desigualdade nas relações norte-sul. Conversando com outros sul-americanos e africanos notei que o sentimento era o mesmo. Isso inclusive foi falado nas reuniões da América Latina. Negociadores normalmente são europeus, e muitos delegados de países do norte se mostraram fechados a debates com pessoas do sul, não todos, é claro, conheci muitas pessoas legais vindas da Europa, simpáticas e abertas ao diálogo, mas era possível notar alguma segregação por parte de alguns grupos extremamente fechados, que interagiam com gente do sul somente nos grupos de trabalho.

Trabalhando no hotel, tarde da noite, após um dia de conferência.

Trabalhando no hotel, tarde da noite, após um dia de conferência.

O evento aconteceu em um centro de convenções enorme, com um monte de auditórios luxuosos, mas as reuniões do grupo da América Latina eram as únicas de um grupo regional acontecendo no pavilhão E, um pavilhão provisório sem isolamento acústico e ainda por cima com eco, o que dificultava muito o andamento dos trabalhos. Também o grupo de trabalho sobre discriminação se reuniu neste pavilhão, e já no primeiro dia ironizamos dizendo que o grupo sobre discriminação estava sendo discriminado por fazer suas reuniões em um local tão ruim enquanto os outros contavam com conforto e acústica adequada. Os grupos de trabalho dos quais participei mais ativamente, o acima citado e também o de Recreação, Esporte e Cultura, foram todos neste pavilhão, e era nele que eu me sentia mais à vontade.

Muitas pessoas tinham grande dificuldade de comunicação, africanos procuravam falar em francês sempre que podiam, e mesmo brasileiros se sentiam mais à vontade falando portunhol com outros latinoamericanos do que usando o inglês que estudaram durante anos. Na plenária do segundo dia assisti a um discurso de um africano em francês e percebi que quase ninguém usava fones de ouvido para ouvir a tradução, ao invés disso, muitos saíram da sala ou ficaram navegando na internet, como se nós do sul nada soubéssemos ou tivéssemos a dizer. Isso me fez lembrar de 2012, quando fui convidado para discursar no encerramento do Youth Blast no Rio de Janeiro. Eu tinha a opção de discursar em português, que era uma das línguas oficiais do evento, mas ao subir no palco e olhar a multidão ao meu redor, notei que somente os latino-americanos tinham fones de ouvido para ouvir tradução do inglês, enquanto a maioria dos europeus e norte-americanos não estava com fones, só se interessavam por ouvir o que era dito em inglês, e foi por essa razão que optei por discursar em inglês. Afinal, acima de tudo queria ser ouvido.

Último dia de negociações em Colombo

Último dia de negociações em Colombo

Essas questões me deixaram muito triste, nos meus relatos sobre a Rio+20 contei sobre diversos casos de discriminação linguística ou problemas de comunicação, mas somente agora me lembrei deste outro problema: em muitos eventos internacionais há intérpretes e equipamentos que nos permitem ouvir os discursos na língua que melhor dominamos, mas por outro lado muita gente, incluindo negociadores da ONU e outras pessoas com grande poder de lobby, só se interessam pelo que é dito em inglễs. A interpretação simultânea é um recurso criado para a inclusão, para dar voz a mais pessoas, mas no fim das contas esta inclusão é ilusória, pois a discriminação continua existindo.

No Grupo de Trabalho sobre Discriminação me senti muito confortável, minhas ideias eram bem recebidas, além da forte interação com pessoas marginalizadas: cegos, negros, pessoas que vivem em sociedades de casta, deficientes físicos, cada um falando de suas dificuldades e causando mais revolta em mim. Sempre tive muito apoio do grupo para lançar propostas referentes a discriminação linguística, mas um funcionário do Ministério de Esporte e Cultura do Bahreim (que, ironicamente, não participou do grupo de trabalho ligado à sua área, e por isso suponho que os interesses dele eram barrar direitos humanos) sempre tentava sintetizar as propostas do grupo em uma redação genérica incapaz de criar perspectiva de mudança.

Também neste dia a Luana, uma ativista brasileira que trabalha com discriminação me convidou para uma reunião informal sobre racismo, castas e outras formas de discriminação. Deixei de ir a uma reunião de um grupo de trabalho para me sentar à mesa com indianos e africanos, incluindo um surdo, e debatemos a versão provisória do documento, buscando melhorar a redação para não nos excluir, e o preconceito linguístico foi inserido. Depois as propostas foram levadas para grupos de discussão oficiais e, se não me falha a memória, também para delegações de alguns países. No dia seguinte veio a boa notícia: foram incluidas menções ao racismo e ao preconceito linguístico na Carta de Colombo.

No terceiro dia do evento acabei deixando de ir à reunião sobre discriminação para ir à do Grupo de Trabalho sobre Empreendedorismo e Pleno Emprego. O motivo para isso foi a oportunidade de conversar com o secretário nacional de juventude do Brasil, que teria uma fala neste grupo. Porém, ele cancelou este compromisso devido à necessidade de continuar participando intensamente das negociações com delegações de outros países e da juventude. Gostei da atitude dele, pois o Brasil me parece ter sido o país que mais ouviu os jovens e melhor defendeu as propostas enviadas pelos grupos de trabalho (para entender como funciona: cada grupo debate um tema e lança propostas à redação do documento. Essas propostas são levadas pelos facilitadores aos negociadores, que se inteiram da posição do grupo, encaminham e defendem as propostas com as delegações oficiais dos países).

Último dia de negociações em Colombo

Último dia de negociações em Colombo

No grupo sobre empreendedorismo e emprego não me senti à vontade para falar, havia muitos europeus que me barravam constantemente. Depois descobri que até tinham uma justificativa: no dia anterior a reunião do grupo regional europeu havia sido muito tumultuada devido à pressão para incluir no texto menções aos ciganos e outros grupos minoritários da Europa, enquanto outros pregavam um texto mais genérico. Talvez isso explique porque toda hora que eu falava algo sobre línguas me cortavam rapidamente e diziam “isso está incluído em (qualquer coisa genérica)”. Mas o fato é que apesar disso, em nenhum momento me senti confortável naquele grupo, senti que não era bem vindo ali, havia alguns europeus monopolizando o debate e cortando os outros, estavam bem introsados entre eles, aparentemente já haviam debatido longamente o que proporiam e só queriam se livrar de propostas “inconvenientes” vindas de quem vinha de outro continente, talvez até de outros europeus com outra opinião.

Irritadíssimo, almocei e fui para minha última reunião do Grupo de Trabalho sobre Recreação, Esporte e Cultura. Na semana anterior um dos organizadores da WCY havia prometido a uma ativista da TEJO me convidar para discursar naquela mesa, mas depois mudou de ideia. De qualquer forma, foi uma mesa excepcional, de altíssimo nível. A última fala foi de uma representante da UNESCO, que discutiu diversas questões ligadas a cultura e que tinham ligação com línguas. Nos mostrou um vídeo em castelhano sobre diversidade cultural e depois pediu desculpas por não ter uma versão em inglês. Abriram a sessão para perguntas e comentários. Pedi a palavra e me deram o microfone. Era o momento de abrir não só a boca, mas também o coração. Momento de botar pra fora aquilo que me revoltava. Comecei parabenizando-a pelo vídeo em castelhano. Como cidadão latino-americano aquilo havia me deixado extremamente contente, e falei sobre a necessidade de se respeitar a diversidade linguística do planeta, adotando em seguida um tom severo para dizer que para nós, latino-americanos, o inglês é sentido como uma forma de imperialismo linguísto imposto pelo norte aos países do sul. É o tipo de discurso que eu evito, para não fortalecer a ideia de que o esperanto é um movimento anti-inglês, pois nossa bandeira é a promoção da diversidade e das trocas culturais através de uma língua mais justa para a comunicação entre pessoas em situações internacionais. Reconhecemos o valor cultural do inglês e o apoiamos como forma de comunicação e expressão cultural dos países anglófonos, o que condenamos é sua imposição, por razões econômicas, aos debates internacionais, dando privilégios aos seus falantes nativos e gerando desigualdade. É essa percepção do inglês como uma imposição injusta que leva latino-americanos a preferirem o portunhol para a comunicação regional, pois somos povos profundamente ligados por uma história em comum de exploração e sofrimento impostos por reinos ibéricos, e é natural sentirmos tanto o português quanto o castelhano (além de qualquer mistura dessas línguas) como parte de uma identidade em comum, até porque possuem uma mesma origem.

Na platéia vi olhares de aprovação: quase ninguém ali era nativo em inglês, a maioria tinha dificuldade para se expressar nessa língua e compartilhava deste meu sentimento. Peguei uma lista de links para documentos sobre cultura e inclusão indicados pela panelista e indiquei mais um: o relatório da UNESCO “Why Language Matters for the MDGs” (Por que as línguas importam para os Desafios do Milênio). Ela respondeu falando de iniciativas de alguns governos sobre promoção de igualdade linguística, destacando o Sri Lanka, onde o ensino é trilíngue (tamil, singalês e inglês), comentou sobre minha menção a este relatório, que ela havia inclusive usado em discussões anteriores, durante o andamento dos trabalhos visando a elaboração da versão zero da Carta de Colombo. Nos separamos em grupos de trabalho, depois nos reunimos novamente para uma discussão final (já não havia mais tempo de submeter nossa conclusão à apreciação das delegações, mas nossas conclusões foram encaminhadas para se tornarem um possível anexo) e ela veio conversar comigo, agradecendo a minha intervenção. Trocamos cartões de visitas.

Festa de encerramento da WCY

Festa de encerramento da WCY

Na mesma reunião uma moça veio conversar comigo, dizendo conhecer pessoas da TEJO. Não só ela, mas também no ônibus, no hotel, em diversos lugares encontrei gente que conhece e elogia o trabalho da TEJO. O dia que começou mal terminou maravilhosamente bem, com a Luana me contando o resultado da nossa mobilização. Fui assistir um pouco das negociações e vi o Brasil fazer uma proposta em favor das mídias sociais, o que também foi do meu agrado, já que atuo nessa área com a Muzaiko. Extremamente cansado, mas também aliviado, ia para o hotel descansar, mas me avisaram de uma festa de encerramento na frente do prédio principal. Tive pique para ficar um pouco na festa, que estava bem animada. Dancei com gente de todo canto e singaleses pediam para tirar fotos comigo. Cheguei ao hotel tarde da noite para dormir e acordar cedo no outro dia, quando tomei café da manhã com pessoas que haviam acabado de chegar após passarem uma noite inteira dançando.

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Primeiros dias no Sri Lanka

Após quase 15 horas de vôo aterrisei em Abu Dhabi. No portão de embarque para Colombo vi um rosto conhecido: a Débora, minha colega na Coalisão da Juventude Brasileira pelo Pós-2015, e com ela estava também o Diego, outro ativista da coalisão, com quem eu já havia trocado e-mails. Ficamos conversando durante a hora e meia de atraso para embarque. Muito cansados chegamos em Colombo e encontramos o Alexandre, da Secretaria de Juventude de Minas Gerais. Ficamos mais uma hora esperando o ônibus que nos levou até o hotel.

No hotel, mais espera: estavam arrumando os quartos. Cansado, precisando de um banho e de dormir, só me restou matar a fome com o deliciosos café da manhã que me esperava. Porém, a comida aqui é extremamente condimentada, e só agora estou aprendendo quais pratos posso comer sem ficar com a boca ardendo. Colocam Curry em quase tudo. Diversas pimentas e pimentão também são muito usados na culinária local e, claro, a canela, nativa do Sri Lanka.

Dança típica do Srilanka, com uso de tochas. Ao vivo em um programa de TV.

Dança típica do Srilanka, com uso de tochas. Ao vivo em um programa de TV.

Os voluntários que trabalham neste evento são muito prestativos e os singaleses em geral são extremamente simpáticos. O país todo está enfeitado com bandeiras do WCY e de todos os países do mundo, a mídia local dá muita atenção ao evento. E há um bom motivo para isso: o Sri Lanka vivia uma guerra civil até 2009, e em 2010 o país se candidatou para sediar este evento, que desde então vinha sendo preparado, acabou virando símbolo de uma nova página na história do país. O investimento feito na juventude é realmente impressionante.

No dia 5 fomos a uma apresentação cultural no Stein Studios. Ao chegar lá descobri se tratar de um estúdio de televisão, e quando entrei no auditório já estávamos ao vivo para o país todo. No dia seguinte viajamos para outra cidade, onde a abertura do evento aconteceu em um centro de concenções enorme recém-construído. Lá, assim como no Stein Studios, fomos recepcionados por artistas tocando música. Subimos uma escadaria imensa cercados de músicos em trajes típicos e mulheres segurando as bandeiras dos países. Dentro do prédio, mais moças em trajes típicos faziam a saudação típica do país, curvar-se com as palmas das mãos unidas, para dar as boas vindas. Tivemos que esperar algum tempo até a chegada do presidente do país, e então tivemos a cerimônia de abertura, também transmitida pela TV.

Depois disso almoçamos com o presidente e, durante a viagem de volta, nosso comboio parou na beira de uma praia, onde nos esperávamos com comida e música. Imaginem uma balada na beira da praia com todo mundo trajando gala ou roupas étnicas. Foi isso que aconteceu.

Discurso do presidente do Sri Lanka na cerimonia de abertura da Conferência

Discurso do presidente do Sri Lanka na cerimonia de abertura da Conferência

No dia 7 conheci o Dinesh, esperantista local. Ele foi até o local da conferência e me telefonou para nos encontrarmos, mas como agora fico o dia todo em plenárias e mesas redondas, não deu para conversarmos muito. Este foi o primeiro dia da conferência propriamente dita, com discussões acerca do passado: um balanço do que foi feito até aqui, especialmente sobre os Desafios do Milênio. No dia 8 a discussão é o agora, o que temos, o que podemos fazer, e por fim, no terceiro dia, se discutirá o futuro que queremos e quais as metas para chegar lá.

Talvez por se tratar de uma conferência menor e mais restritiva que a Rio+20, o nível de inglês da maioria dos participantes é melhor, mas mesmo assim é possível perceber que os falantes nativos estão em vantagem, bem como que asiáticos e africanos têm muito mais dificuldade com a língua. Nas plenárias há interpretação simultânea em seis línguas. Conheci alguns africanos que só conseguem se comunicar em francês, conheci um rapaz de Cabo Verde e uma moça da Argentina que falam bem o português, e mesmo os latino-americanos que dominam o inglês preferem se expressar em castelhano sempre que possível, aliás, todo dia há reuniões de grupos de trabalho regionais, e o grupo da América Latina decidiu usar o castelhano como língua de trabalho, permitindo a muitos expressar com facilidade o que não conseguem nas outras reuniões.

Notei também um problema grave: no meu primeiro grupo de trabalho de hoje, sobre discriminação, consegui colocar o tema “políticas linguísticas” em uma lista de temas não contemplados pelos Desafios do Milênio. Outras pessoas deram outras contribuições interessantes sobre outros temas, e no fim essas demandas foram endereçadas como “”direitos humanos”. Ou seja, após serem discutidas formas de discriminação que demandam políticas específicas, o que atravessa o filtro é que os Desafios do Milênio pouco contemplaram os direitos humanos. E a partir daí é possível se pensar em uma agenda que contemple direitos humanos sem contemplar essas demandas específicas. Se fizeram isso no grupo sobre discriminação, imaginem o que podem fazer, por exemplo, no grupo de segurança alimentar? Todo mundo levanta a bandeira de agricultura familiar e o fim dos transgênicos, daí isso é encaminhado como “investir em novas formas de produção agrícola” e surge uma meta que resulta em subsídios ao latifúndio e envenenamento da terra e dos rios. Estamos tentando convencer a ONU a aceitar que uma das metas do Pós-2015 seja escolhida exclusivamente pela juventude, o que é excelente. Porém, rumores sobre uma possível privatização desta nova agenda são cada vez mais frequentes, devido ao poder de lobby das grandes corporações que ganham cada vez mais espaço nos debates internacionais.

Mas então o que estamos fazendo aqui? Será tudo em vão? Apesar de tudo acho que temos sim que nos dedicar ao máximo. Trabalhamos pelo que é justo, pelo bem das futuras gerações, e devemos preencher da melhor forma possível cada espaço que nos foi dado. A participação da sociedade civil junto à ONU e aos governos é uma árdua conquista, e infelizmente esses espaços são muitas vezes subaproveitados. Independente de quais propostas serão efetivamente adotadas, bem como descaracterizadas para atender a interesses alheios, um dia, quando nos perguntarem o que fizemos, poderemos responder que fizemos o nosso melhor. Não conseguir mudar o mundo não é um fracasso, o fracasso é não tentar, e fracasso maior ainda é tirar proveito das desigualdades. Eu detestaria estar na pele de quem faz isso.

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