Viagem Rafael

Rolezinho em Berlim

Escrito por em Mar 15, 2015 em rafael | Comments Off on Rolezinho em Berlim

Demorei para escrever sobre como terminou minha segunda ida à Polônia para estudar. Nos últimos dias em Poznań tive aulas de Comunicação, com a profa. Ilona Koutny, e de Gramática do Esperanto, com o prof. Cyril Brosch. Este último pesquisa sobre o Esperanto na universidade de Leipzig, e ao longo da semana acompanhou as aulas e gravou tudo, para usar como material de pesquisa em seu trabalho.

À noite, na quinta e na sexta, fui jantar em um bar em companhia de colegas de curso e graças ao bom papo não vimos o tempo passar e acabamos indo dormir tarde. Após a semana de aulas, tivemos a excursão para Toruń, já relatada.

Com colegas de curso no Bar a Boo

Com colegas de curso no Bar a Boo

Ao voltar de Toruń, ainda no trem, comecei a sentir minha garganta seca e dolorida. Desde então não parei de sentir incômodos típicos de um resfriado, só fui me curar depois de uma semana no calor do Brasil. Em Poznań esfriava cada dia mais, podia-se ver as camadas de neve acumulada nos parques, cada vez mais grossa, e eu fiz a besteira de comprar passagem para o ônibus das 4:30, saindo de Poznań de madrugada em pleno inverno.

Primeiro tive que ficar de madrugada no saguão do albergue esperando dar a hora para sair. Desisti de pegar o transporte público noturno e solicitei um táxi, pois estava nevando, e caía muita neve. No caminho para o ponto de ônibus não se via a estrada, quanto mais andávamos mais a calçada e a rua viravam uma coisa só, e a neve caindo atrapalhava a visibilidade. Ao caminhar do táxi até um prédio onde me abriguei, a menos de cinco metros, fiquei com as roupas cobertas de neve. Os passageiros iam chegando pouco a pouco, e por fim chegou o meu ônibus, justamente no momento em que, para nossa sorte, parou de nevar (o ponto não é coberto).

Finalmente consegui dormir um pouco. Acordei em Berlim. Chegamos meia hora adiantados. Não consegui acessar a internet para tentar contactar esperantistas de Berlim. Um deles havia me contactado no dia anterior propondo nos encontrarmos para um café, mas só fui ver a mensagem dele ao chegar no Brasil. Tinha um dia livre em Berlim e queria aproveitá-lo. Mas como? Decidi ir até a estação central de trem e colocar minha mala no guarda-volumes, ficando livre para passear. Então segui a pé até a ilha dos Museus e dessa vez visitei o Neues, famoso pelo busto da Nefertiti, mas que tem muitas atrações interessantes além dela: múmias e sarcófagos, artefatos de diversas civilizações antigas, um acervo realmente impressionante.

Berlim, próximo ao Bundestag. As cruzes à margem do rio marcam o local onde ficava a divisa entre as duas alemanhas.

Berlim, próximo ao Bundestag. As cruzes à margem do rio marcam o local onde ficava a divisa entre as duas alemanhas.

Após horas no museu, decidi procurar alguma opção rápida e barata para comer no caminho até a estação. Acabei comprando um kebab que estava delicioso. Me sentei em uma praça e tirei as luvas para comê-lo, pois estava com muita fome, mas após comer metade, o frio era tanto que não aguentava minhas mãos congelando e guardei o lanche para colocar novamente as luvas. Comi o resto do kebak dentro da estação, onde é mais quente e não tem vento. Aliás, estava ventando muito naquele dia, às vezes parecia que o vento iria me carregar. Divertido, mas não tanto para quem está resfriado.

Um fato triste a relatar é que, no caminho até a estação, passei por uma ponte e nela várias jovens alemãs me abordaram pedindo dinheiro para obras sociais. No ano passado, minha primeira vez em Berlim, isso também me aconteceu, no caminho do Bundestag para o Portão de Brandemburgo, e naquela ocasião uma policial viu a mulher me abordando, me advertiu que aquilo é ilegal na Alemanha e deu uma dura na mulher. O fato é que pedir dinheiro para turistas estrangeiros, normalmente fingindo ser de uma ONG que cuida de órfãos ou deficientes físicos, está se tornando cada vez mais comum em Berlim, e é triste ver jovens sem perspectivas, tendo que se submeter a isso para ter o pão. Desde minha primeira visita à Europa, em 2013, percebo que a situação econômica do continente melhorou um pouco, mas ainda é crítica.

Entre o Bundestag e a Estação Central (ao fundo) não há calçada!

Entre o Bundestag e a Estação Central (ao fundo) não há calçada!

Peguei minha mala e fui para o ponto do ônibus. Cheguei no aeroporto mais cedo do que previa, então fui ao banheiro e aproveitei para reorganizar minha mala. Me surpreendi ao constatar que no banheiro havia uma máquina de vender artigos de sex-shop. Pensei “por que raios uma máquina dessas bem no aeroporto?”, mas enfim… Acabei encontrando a Karina, minha amiga e colega de curso, e descobrimos que viríamos nos mesmos vôos. Cheguei com sede na sala de embarque, mas não me dispus a pagar três euros por uma garrafinha de água. Não havia bebedouro em lugar nenhum.

O vôo da Air Berlin atrasou cerca de meia hora, e como era uma conexão apertada em Frankfurt para pegar o vôo da TAM para o Brasil, foi um sufoco chegar a tempo para o embarque, tivemos que andar muito e pegar um trem interno do aeroporto, além das filas para raio-x e imigração, mas ao entrar no avião descobri que uma comissária da TAM tinha em mãos uma lista com os nomes dos passageiros que vinham de Berlim e ia riscando os nomes dos que chegavam para não deixar ninguém para trás. Saímos atrasados, mas chegamos no Brasil antes do horário previsto para a aterrissagem.

 

Toruń: terra de Copérnico e Grabowski

Escrito por em Feb 15, 2015 em rafael | Comments Off on Toruń: terra de Copérnico e Grabowski

Estou de volta ao Brasil já faz alguns dias, mas só agora tive tempo de escrever sobre meus últimos dias em Poznań. No próximo texto relatarei como foram os últimos dias de aula e a viagem de retorno ao Brasil, que incluiu um breve passeio em Berlim. Agora quero me ater a um passeio muito especial que fiz com meus colegas de curso: após o fim das aulas fomos todos de trem passar um dia em Toruń, onde fomos recebidos com muito carinho pelos esperantistas locais.

Nos encontramos na estação central de Poznań às 8 da manhã, e de lá seguimos de trem para Toruń. A viagem dura cerca de duas horas, com o trem parando em diversas estações pelo caminho. Contenplei as belas paisagens que vi pelo caminho, e me lembro bem de um grupo de cervos fuçando a neve em busca do capim abaixo dela, e de umas galinhas ciscando na neve, bem ao lado dos trilhos. Chegamos a Toruń após uma viagem tranquila e uma esperantista local nos esperava na estação.

A casa de Copérnico, no centro da cidade.

A casa de Copérnico, no centro da cidade.

Após tomar café da manhã pegamos um ônibus para a cidade. Atravessamos o rio Vistula por uma ponte de ferro que à noite fica toda iluminada, e chegamos ao centro histórico da cidade. Caminhamos por uma rua e de repente estávamos na casa onde morou Nicolau Copérnico, e que hoje funciona como museu. Nela há uma apresentação multimídia com uma maquete iluminada, que conta a história da cidade, e assistimos à apresentação narrada em esperanto. Visitamos brevemente o museu e de lá fomos para a catedral onde Copérnico foi batizado, mas não a visitamos.

Depois de uma breve parada em um café, fomos até a Casa de Cultura da Juventude, onde um grupo de jovens artistas locais nos aguardava para uma apresentação de teatro e poesia em esperanto. De lá seguimos para as ruínas do antigo castelo erguido por cavaleiros durante as cruzadas, e ao redor do qual cresceu a cidade. O castelo foi destruído em uma rebelião popular, os cavaleiros foram expulsos e com parte das ruínas do castelo foi obtida a matéria-prima para a construção de um prédio de três andares para festas e reuniões dos moradores da cidade. No antigo fosso do castelo hoje em dia há um parquinho para as crianças brincarem.

Centro da cidade

Centro da cidade

Após o almoço visitamos o Colégio Nicolau Copérnico, o mais tradicional da cidade. Diante do laboratório de química uma placa traz a homenagem a um grande químico, e também esperantista, polonês: Antoni Grabowski, um dos principais colaboradores na elaboração do primeiro dicionário de termos técnicos de química em língua polonesa, e que foi um dos fundadores da Associação Polonesa de Esperanto e talvez o maior tradutor de poesia para o esperanto. Sua tradução de Senhor Tadeu, de Adam Mickiewicz, além de ser modelo estilístico, tornou a obra máxima da literatura polonesa mundialmente conhecida. Acredita-se que o primeiro diálogo em esperanto tenha acontecido em Varsóvia, justamente entre Grabowski e Zamenhof.

Seguimos para o museu de etnografia. Nossa visita foi guiada em esperanto e recebemos panfletos também em esperanto. O antigo prédio que um dia abrigou cavalaria, e mais tarde um paiol de armas do exército, hoje se presta à função de museu. Aprendemos muito sobre cultura e tradições polonesas, e a exposição tinha como tema a arte de enfeitar, mostrando como as pessoas de diversos grupos étnicos da região enfeitavam suas roupas, ferramentas, casas, etc.

Café oferecido por esperantistas locais. Reparem no salão enfeitado para o carnaval

Café oferecido por esperantistas locais. Reparem no salão enfeitado para o carnaval

Após esta visita, fomos convidados para um café. Pensei que iríamos a uma cafeteria, mas ao adentrar o prédio anexo ao museu, diversos esperantistas locais nos aguardavam com uma mesa cheia de café, chá e biscoitos, com destaque para os biscoitos de especiarias, iguaria tradicional de Toruń, parecida com um pão de mel. Após momentos agradáveis e descontraídos, ainda demos uma volta pela cidade antes de nosso retorno à estação: vimos as muralhas, a prefeitura, a universidade Nicolau Copérnico, igrejas, uma penitenciária redonda, fruto do pensamento de um filósofo inglês que acreditava terem as construções redondas a capacidade de melhorar as pessoas…

O violinista de Toruń, que livrou a cidade das rãs

O violinista de Toruń, que livrou a cidade das rãs

Especialmente interessante para mim foi conhecer uma lenda local: certa vez, na idade média, Toruń foi tomada por rãs, e ninguém sabia como afugentar os bichinhos. Certo dia um comerciante de madeira vindo de longe chegou à cidade, e ao tocar seu violino percebeu que as rãs o admiravam, então teve a ideia de ir embora tocando música, e as rãs o seguiram. Ao sair da cidade ele atirou seu instrumento em um lago, as rãs pularam atrás dele e nunca mais voltaram para a cidade. Como recompensa o rapaz ganhou a mão da filha do prefeito. É ou não é uma história muito parecida com a do flautista de Hameln? Lembrando que no ano retrasado estive em Hameln, outra cidadezinha acolhedora…

Primeira vez no inverno europeu

Escrito por em Feb 15, 2015 em rafael | 1 comentário

Após o congresso, saí do quentíssimo Rio de Janeiro para viajar para a Europa em pleno inverno. Na minha mala quase nada além de roupas pesadas para o frio. O Allan fez a gentileza de me acompanhar até o aeroporto e pela primeira vez peguei o BRT Transcarioca, inaugurado no ano passado e que facilita muito a vida de quem precisa ir do ou para o aeroporto do Galeão.

Foi a primeira vez que viajei para outro continente usando uma empresa brasileira, a TAM, e devo dizer que foi mais confortável do que viajar com empresas européias: boa distância entre as poltronas, boa comida, um bom vinho e além do cobertor e do fone de ouvido que toda empresa fornece, também ganhei uma bolsinha com itens de higiene pessoal e um par de meias, o que até então eu só havia ganho de empresas do oriente médio.

Chegamos em Frankfurt pontualmente. Quando o avião estava iniciando a descida cheguei a ver algumas cidadezinhas coberta de neve, mas Frankfurt não, estava tudo desbotado, as árvores sem folhas, mas neve não havia, embora estivesse bem frio e durante a aterrissagem tudo o que consegui ver foi um rastro, suponho que causado pela condensação do ar frio ao passar pela turbina quente.

De Frankfurt voei para Berlim. Dessa vez combinei de encontrar o Dennis na empresa dele. Fui de ônibus até a estação de trens principal de Berlim, para de lá seguir a pé. Estava frio, 4°C, não chovia, mas o chão estava molhado e de vez em quando sentia gotículas de água caindo do céu. Cheguei ao escritório e o Dennis me ofereceu um Clube Mate, uma bebida popular na Alemanha, mistura de mate com outras coisas. Fiquei um tempo navegando na internet até ele terminar o serviço e fomos embora de carro.

No caminho passamos em um lugar muito legal: a Fab Lab Berlin. uma oficina que tem um monte de ferramentas e máquinas para as pessoas usarem: tornos, fresadeiras, furadeira de mesa, impressoras 3D, usinagem a laser, uma mini-oficina de eletrônica… enfim, um lugar onde qualquer um pode criar o que quiser, e o Dennis foi lá para imprimir uma peça que ele projetou para um aparato que ele está desenvolvendo. O local também ministra cursos, um deles se chama “monte sua porópria impressora 3D”, que não só ensina as pessoas a fabricarem a impressora no Fab Lab, mas as faz colocar a mão na massa, e somente uma impressora 3D do Fab Lab foi comprada, as demais foram todas feitas lá mesmo, e são muitas! Gostaria muito que no Brasil tivéssemos algo parecido. Quem quiser conhecer o projeto basta acessar o site http://www.fablab-berlin.org/.

Chegando em casa fomos jantar. Dessa vez eu não era o único hóspede: também a mãe do Dennis estava lá, ela é muito simpática e conversamos um pouco. Ela mora em Hannover e normalmente leva duas horas de trem até Berlim, mas dessa vez levou três horas porque roubaram cabos de eletrificação da ferrovia, impossibilitando a passagem dos trens. E tem gente que jura que isso só acontece no Brasil.

Berlim de manhã: uma fina camada de neve cobrindo tudo

Berlim de manhã: uma fina camada de neve cobrindo tudo

Já estava ficando tarde e fomos dormir. Levantei às 7 da manhã para tomar café, arrumar minhas coisas e estar no metrô às 8, ao olhar para fora, ainda tudo escuro, tive uma imensa surpresa: tudo coberto por uma leve camada de neve. Foi a primeira vez que vi aquela massa branca cobrindo telhados, calçadas, carros… A temperatura era de 1°C. Eram quase 8 horas quando fui para a estação e no caminho vi a neve ao redor dos trilhos ferroviários, sobre os prédios e carros, cobrindo os parques.

Na rodoviária, notei que não havia nenhum ônibus com suporte para transportar bicicletas, também quem vai pedalar com esse frio? A neve ia derretendo aos poucos, às vezes ao pisar eu sentia o gelo derretendo sob meus pés. Embarquei para Poznań e saímos pontualmente. Ao longo de parte do trajeto era possível ver neve cobrindo tudo, mas ao chegar em Poznań já não havia neve alguma, se é que nevou aqui. Ao chegar tomei o bonde até o centro da cidade.

Dessa vez optei por dormir em um albergue, mais barato que o alojamento estudantil e com café da manhã incluído na diária. Estou em um quarto para seis pessoas, mas é baixa temporada e fiquei com o quarto só para mim, e dificilmente terei algum companheiro de quarto por esses dias.

Notícia boa: o câmbio está mais favorável para mim, o que me permite ter algum dinheiro a mais.

Notícia ruim: o restaurante mais barato que encontrei em Poznań fechou em dezembro (e a comida de lá era uma delícia).

Duas coisas que chamam muito minha atenção: a relação dos poloneses com a comida e com as bebidas alcólicas: aqui ninguém come nem bebe (mesmo água) na rua, me disseram que pode até dar multa fazer isso, as pessoas comem nos restaurantes ou em casa, bebem nos bares ou em casa, e onde estou hospedado, ao contrário dos albergues onde me hospedei no Brasil, na Argentina, no Vietnã, na Alemanha, nos quais havia bar e os hóspedes passeavam com bebidas pelos corredores, aqui não se vende nada, nem de comer, nem de beber, há apenas uma cozinha com geladeira comunitária para os hóspedes prepararem suas refeições, mas bebidas alcoólicas só podem ser consumidas dentro dos quartos (e suponho que não podem ser guardadas na geladeira).

De volta a Poznań

Escrito por em Feb 3, 2015 em rafael | 2 comentários

No caminho para o albergue, o bonde passou em frente a Jowita, o alojamento estudantil, e subitamente me lembrei um dos motivos de eu ter escolhido dormir em outro lugar: entre Jowita e o Collegium Novum, onde estudo, passa a via férrea, que só pode ser ultrapassada por viadutos, e o viaduto mais próximo de Jowita está no centro de uma grande obra de infra-estrutura planejada para 2012, quando Poznań sediou um torneio de futebol da UEFA, mas a obra continua até hoje e não notei muita evolução. Por outro lado, a praça e o estacionamento diante de Jowita foram engolidos pela obra, criando ainda mais transtornos, e depois soube que o prédio todo está sem internet porque cortaram os cabos ao quebrar a calçada. Ainda bem que escolhi o albergue!

O albergue onde estou hospedado se chama Poco Loco. É um pouco cansativo subir as escadas, pois fica no último andar de um prédio antigo, no início do centro histórico. Daqui até a universidade a distância é bem menor.

Nos primeiros dias não nevou, apesar do frio. Cheguei a ir para a aula sob um frio de -1°C. Descobri que as roupas que comprei aqui são mais do que suficientes para este inverno: a blusa mais leve está dando conta do recado. A mais pesada creio que será útil quando tivermos um inverno mais rigoroso, já que este é considerado um inverno “quente” para os padrões daqui.

Apresentação de gestos durante aula de comunicação

Apresentação de gestos durante aula de comunicação

No sábado tivemos o primeiro encontro, para tratar de assuntos do curso. Ganhei uma carta da universidade com login, senha e meu e-mail institucional. Foi ótimo rever os amigos.

Domingo foi dia de provas, uma de manhã e outra à tarde. Fomos divididos em grupos de três alunos para ser avaliados oralmente. Cada um recebe um tema para dissertar, e temos que debatê-lo com os colegas e professores também. Além dessas avaliações também há as atividades que fazemos à distância, especialmente o trabalho final de cada disciplina.

Parte da coleção de livros em esperanto da biblioteca da UAM

Parte da coleção de livros em esperanto da biblioteca da UAM

Na segunda e na terça tivemos aulas de duas disciplinas: Morfologia e Sintaxe, com o prof. Michael Farris, e Comunicação, com a coordenadora do Curso, prof. Ilona Koutny. O fato de termos uma turma internacional é muito interessante, pois compartilhamos conhecimentos a respeito de diferenças entre nossas línguas e culturas. Por exemplo, na aula da Ilona tivemos que mostrar gestos comuns em nossos países, e é muito interessante constatar, por exemplo, que o mesmo gesto usado para ofender no Brasil aqui na Polônia é usado para elogiar. Na segunda-feira depois das aulas fomos visitar a biblioteca: há uma coleção de livros em esperanto.

Começando a nevar em Poznań: vista de uma das janelas da universidade.

Começando a nevar em Poznań: vista de uma das janelas da universidade.

Na terça-feira durante a aula da manhã começou a nevar. É um belo espetáculo ver a neve caindo do céu. Nevou o dia todo, com alguns intervalos entre as pancadas de neve. Em alguns momentos nevou mais. Almocei no Stary Browar, uma antiga fábrica de cerveja transformada em shopping, e de lá pude ver a neve caindo no jardim ao lado. Aos poucos a ela vai mudando a paisagem.

Intervalo da aula da tarde, antes de escurecer.

Intervalo da aula da tarde, antes de escurecer.

Primeira vez no inverno europeu

Escrito por em Jan 30, 2015 em rafael | 2 comentários

Foi a primeira vez que viajei para outro continente usando uma empresa brasileira, a TAM, e devo dizer que foi mais confortável do que viajar com empresas européias: boa distância entre as poltronas, boa comida, um bom vinho e além do cobertor e do fone de ouvido que toda empresa fornece, também ganhei uma bolsinha com itens de higiene pessoal e um par de meias, o que até então eu só havia ganho de empresas do oriente médio.

Chegamos em Frankfurt pontualmente. Quando o avião estava iniciando a descida cheguei a ver algumas cidadezinhas coberta de neve, mas Frankfurt não, estava tudo desbotado, as árvores sem folhas, mas neve não havia, embora estivesse bem frio e durante a aterrissagem tudo o que consegui ver foi um rastro, suponho que causado pela condensação do ar frio ao passar pela turbina quente.

De Frankfurt voei para Berlim. Dessa vez combinei de encontrar o Dennis na empresa dele. Estava frio, 4°C, não chovia, mas o chão estava molhado e de vez em quando sentia gotículas de água caindo do céu. Cheguei ao escritório e o Dennis me ofereceu um Clube Mate, uma bebida popular na Alemanha, mistura de mate com outras coisas. Fiquei um tempo navegando na internet até ele terminar o serviço e fomos embora de carro.

No caminho passamos em um lugar muito legal: a Fab Lab Berlin. uma oficina que tem um monte de ferramentas e máquinas para as pessoas usarem: tornos, fresadeiras, furadeira de mesa, impressoras 3D, usinagem a laser, uma mini-oficina de eletrônica… enfim, um lugar onde qualquer um pode criar o que quiser, e o Dennis foi lá para imprimir uma peça que ele projetou para um aparato que ele está desenvolvendo. O local também ministra cursos, um deles se chama “monte sua porópria impressora 3D”, que não só ensina as pessoas a fabricarem a impressora no Fab Lab, mas as faz colocar a mão na massa, e somente uma impressora 3D do Fab Lab foi comprada, as demais foram todas feitas lá mesmo, e são muitas! Gostaria muito que no Brasil tivéssemos algo parecido. Quem quiser conhecer o projeto basta acessar o site http://www.fablab-berlin.org/.

Chegando em casa fomos jantar. Dessa vez eu não era o único hóspede: também a mãe do Dennis estava lá, ela é muito simpática e conversamos um pouco. Ela mora em Hannover e normalmente leva duas horas de trem até Berlim, mas dessa vez levou três horas porque roubaram cabos de eletrificação da ferrovia, impossibilitando a passagem dos trens. E tem gente que jura que isso só acontece no Brasil.

Berlim de manhã: uma fina camada de neve cobrindo tudo

Berlim de manhã: uma fina camada de neve cobrindo tudo

Já estava ficando tarde e fomos dormir. Levantei às 7 da manhã para tomar café, arrumar minhas coisas e estar no metrô às 8, ao olhar para fora, ainda tudo escuro, tive uma imensa surpresa: tudo coberto por uma leve camada de neve. Foi a primeira vez que vi aquela massa branca cobrindo telhados, calçadas, carros… A temperatura era de 1°C. Eram quase 8 horas quando fui para a estação e no caminho vi a neve ao redor dos trilhos ferroviários, sobre os prédios e carros, cobrindo os parques.

Na rodoviária, notei que não havia nenhum ônibus com suporte para transportar bicicletas, também quem vai pedalar com esse frio? A neve ia derretendo aos poucos, às vezes ao pisar eu sentia o gelo derretendo sob meus pés. Embarquei para Poznań e saímos pontualmente. Ao longo de parte do trajeto era possível ver neve cobrindo tudo, mas ao chegar em Poznań já não havia neve alguma, se é que nevou aqui. Ao chegar tomei o bonde até o centro da cidade.

Neve sobre os veículos estacionados na rodoviária central de Berlim

Neve sobre os veículos estacionados na rodoviária central de Berlim

Dessa vez optei por dormir em um albergue, mais barato que o alojamento estudantil e com café da manhã incluído na diária. Estou em um quarto para seis pessoas, mas é baixa temporada e fiquei com o quarto só para mim, e dificilmente terei algum companheiro de quarto por esses dias.

Notícia boa: o câmbio está mais favorável para mim, o que me permite ter algum dinheiro a mais.

Notícia ruim: o restaurante mais barato que encontrei em Poznań fechou (e a comida de lá era uma delícia).

Duas coisas que chamam muito minha atenção: a relação dos poloneses com a comida e com as bebidas alcólicas: aqui ninguém come nem bebe (mesmo água) na rua, me disseram que pode até dar multa fazer isso, as pessoas comem nos restaurantes ou em casa, bebem nos bares ou em casa, e onde estou hospedado, ao contrário dos albergues onde me hospedei no Brasil, na Argentina, no Vietnã, na Alemanha, nos quais havia bar e os hóspedes passeavam com bebidas pelos corredores, aqui não se vende nada, nem de comer, nem de beber, há apenas uma cozinha com geladeira comunitária para os hóspedes prepararem suas refeições, mas bebidas alcoólicas só podem ser consumidas dentro dos quartos (e suponho que não podem ser guardadas na geladeira).

Congresso Brasileiro de Esperanto no Rio de Janeiro

Escrito por em Jan 28, 2015 em rafael | 1 comentário

Entre os dias 23 e 27 de Janeiro aconteceu o quinquagésimo Congresso Brasileiro de Esperanto, na mesma cidade onde aconteceu o primeiro: Rio de Janeiro. Participei apenas dos últimos dois dias, mas foi ótimo rever amigos e participar das atividades.

Cartaz do 50° Congresso Brasileiro de Esperanto

Cartaz do 50° Congresso Brasileiro de Esperanto

O congresso aconteceu na UERJ, ao lado do Maracanã. Já estive no Rio várias vezes e nunca gastei com hospedagem, preferindo dormir na casa de algum esperantista, e dessa vez não foi diferente, mas ao invés de dormir em Copacabana, como fiz durante a Rio+20, fiquei em Irajá, mais perto do Galeão, por onde cheguei e de onde partirei, e da UERJ. Quem acompanha este blog sabe que eu viajo muito, já estive em diversos lugares, porém não sou rico, viajo com pouco dinheiro, e só consegui visitar tantos lugares graças à possibilidade de gastar menos me hospedando em casa de esperantistas, tendo o auxílio de esperantistas locais que fizeram gentilezas como me hospedar, me transportar de carro, comprar passagens de trem com desconto para mim, indicar os lugares mais baratos para se comer, me recebendo em suas casas para almoçar ou jantar… enfim, a economia é enorme, e o contato com a cultura local é muito maior. Além disso, consegui subvenções para muitas viagens: a TEJO custeou parte da minha viagem ao Vietnã, o governo do Sri Lanka me pagou as passagens para lá (além da alimentação e hospedagem durante a conferência), a Associação Alemã de Esperanto custeou minha viagem de palestras pela Alemanha (somente os gastos dentro do país) e para estudar em Poznán estou contando com a bolsa da ESF e diversos outros auxílios que reduzem drasticamente o custo dessas viagens.

Parte dos participantes do congresso na UERJ

Parte dos participantes do congresso na UERJ

O primeiro evento em esperanto em que participei foi um encontro na Argentina, em 2006, e no ano seguinte vim para o Rio de Janeiro pela primeira vez, justamente para o Congresso Brasileiro de Esperanto, realizado aqui em comemoração ao centenário da Liga Brasileira de Esperanto, na cidade onde foi fundada. Por coincidência voltei à Argentina no ano passado para o Congresso Mundial de Esperanto e agora estou de volta ao Rio para outro Congresso Brasileiro, em comemoração a outro jubileu. O apelo turístico aqui é muito grande, assim como a oferta de vôos, e consequentemente mais estrangeiros, e mesmo brasileiros, participam e aproveitam para ficar uns dias passeando antes ou depois do congresso. Aliás, aqui existem alguns guias turísticos credenciados junto à Embratur para guiar turistas en Esperanto.
No dia 26 tivemos uma noite artística muito especial, com diversas apresentações musicais de alto nível, incluindo o Tarcísio Lima, que despertou em mim a saudade do IJK em Fortaleza no ano passado. Uma agradável surpresa foi encontrar no congresso o Geomar, cubano que participou do IJK, e o Adrián, goleiro da seleção esperantista de futebol, que conheci na Argentina no ano passado. As apresentações artísticas aconteceram em um teatro próximo à Sapucaí, e de lá seguimos para um bar na Lapa, onde nos divertimos o resto da noite.
No dia seguinte participei de uma reunião com diversos colegas da área de letras, que assim como eu buscam formas de profissionalizar o professor de esperanto, e o debate foi interessante, percebemos que tem muita gente engajada nisso no meio acadêmico e estamos nos organizando para agir de forma mais eficiente. À tarde ministrei um minicurso dentro do programa de treinamento AMO, da UEA. O curso foi muito bom, com muita troca de ideias e um ambiente descontraído. Por fim tivemos o encerramento do congresso e a despedida. Fui com um pessoal comer pizza em um restaurante antes de voltar para casa.

Encerramento: entrega da bandeira aos organizadores do próximo congresso, em Manaus-AM

Encerramento: entrega da bandeira aos organizadores do próximo congresso, em Manaus-AM

Agora estou me preparando para retornar a Poznán para a próxima sessão de estudos em interlinguística. Ao longo de todo o semestre fiz várias atividades, trabalhos e li muito. Claro que aprendi muito também e fico feliz em ter esta oportunidade de aprofundar meus conhecimentos a respeito da comunicação internacional e da cultura esperantista. Mais do que isso, ficou evidente para mim que no campo da pesquisa acadêmica há coisas interessantíssimas a serem pesquisadas em interlinguística, e estou apenas iniciando meu mergulho neste oceano. Até breve com mais notícias!

Retorno de Poznań para o Brasil

Escrito por em Oct 3, 2014 em rafael | 3 comentários

Na segunda-feira tive a manhã livre, pois o ônibus para Berlim só sairia às 13:30. Levantei cedo, tomei café e fui fazer compras: meu retorno à Polônia será no inverno, quando faz muito frio, e as roupas que uso no inverno brasileiro são as mesmas que eu usei no verão polonês. Ao lado do albergue há um brechó que vende roupas de segunda mão vindas de Londres, e me informaram que o estoque chega no fim de semana, de modo que segunda-feira é o melhor dia para comprar.

Centro histórico de Poznań em uma manhã de segunda

Centro histórico de Poznań em uma manhã de segunda

Eram quase nove horas quando cheguei lá e a loja estava fechada. Uma moça esperava na porta. Descobri que a loja abre às dez, então passeei um pouco pelo centro histórico da cidade e voltei às cinco para as dez. A fila estava grande, um monte de gente esperando a loja abrir. Dez em ponto, as portas se abriram e a multidão entrou. As roupas são organizadas por tipo e tamanho, mas a classificação por tamanho é feita “de olho”, isto é, roupas para bebês, crianças, adultos.., e uma blusa M pode ficar ao lado de uma GG. Entre as blusas e jaquetas, encontrei algumas muito boas com pequenas avarias: um botão despregado, um bolso furado, coisas assim; até poderia valer a pena comprar e contratar uma costureira para arrumar, mas preferi continuar pesquisando, e no fim encontrei duas excelentes blusas semi-novas em perfeito estado. Realmente pesquisar vale muito a pena. As comprei e agora estou preparado para enfrentar o inverno polonês.

Uma coisa que me chamou a atenção no brechó foi não ter informação alguma sobre preços. Quanto custariam as blusas? Não valeria a pena se fosse muito caro. Por fim vi uma balança, e as pessoas levavam roupas para pesar. Sobre ela um cartaz dizendo que era para uso dos clientes. Pesei minhas roupas e a balança mostrou o peso, o preço por quilo e o preço do produto. Gostei do esquema da casa e comprei duas blusas por um terço do preço que um amigo pagou por uma nova.

No brechó também observei algo interessante, e um tanto bizarro para mim: lá vendem cuecas, calcinhas e sutiãs usados, e vi muita gente enchendo a cestinha com esse tipo de produto.

Voltei ao albergue, guardei minhas coisas e fui almoçar com o Dmitri, um esperantista holandês. Fomos a um pequeno restaurante onde comi algumas vezes, e do qual gostei muito, além de ser o mais barato que encontrei. Este restaurante possui um certificado do governo atestando que é um autêntico restaurante polonês, servem somente comida típica e normalmente a gente pede dois ou três pratos (do tipo, uma sopa, uma salada, um prato principal, etc.). Tomei uma sopa e comi um prato de pierogues de espinafre. Depois do almoço tomamos um café e nos despedimos. Ele foi para o aeroporto e eu tinha que pegar o bonde para Górczyn.

Linhas de bonde em Poznań. Me hospedei em frente a uma das poucas vias de mão única no centro do mapa

Linhas de bonde em Poznań. Me hospedei em frente a uma das poucas vias de mão única no centro do mapa

A viagem de bonde foi uma aventura: a linha 5, que eu precisava pegar, pára diante do albergue onde estava hospedado, mas no sentido Stamil, isto é, vindo de Górczyn. Só descobri isso depois de um bom tempo esperando o bonde, e saí correndo com a mala em busca de outro ponto onde pudesse embarcar no sentido correto. Acabei encontrando o prof. Ivan Colling, da UFPR, com sua esposa, ambos passeando diante do castelo. Ambos acabaram de terminar o curso de Interlinguística e Ivan pretende fazer doutorado em Poznań. Segui em direção a uma parada próxima a Jowita e encontrei a minha professora Katalin Kováts com suas malas indo pegar táxi para o aeroporto. Trocamos algumas palavras, ela me indicou a direção do ponto de bonde, e lá fui eu correr de novo. Cheguei ao ponto correto depois de andar muito (poderia ter andado um quarteirão apenas, mas como não conhecia o trajeto, acabei indo até um ponto mais distante), e cheguei a pensar em desistir, pois já eram 13:15 e o bonde demora 13 minutos, entretanto decidi arriscar. Cheguei em Górczyn às 13:29 (adoro a pontualidade do transporte público em Poznań) e saí correndo com a mala até o ponto do Polskibus. Consegui embarcar.

Um "selfie" diante do Portão de Bandemburgo

Um “selfie” diante do Portão de Brandemburgo

A viagem para a Alemanha foi tranquila, cheguei em Berlim antes do horário previsto, pois o tráfego fluiu bem, e da rodoviária segui para a casa de meu amigo Dennis, que me hospedou por uma noite. encontrar o endereço não foi fácil, pois o número da casa fica de frente para o pátio do condomínio, e não de frente para a rua, mas no fim deu tudo certo.

No dia seguinte fui de carro com o Dennis até seu escritório, que é próximo ao centro da cidade, deixei minhas coisas e fui passear. Ele ainda teve o cuidado de imprimir para mim um mapa do centro e marcar sobre ele um itinerário com diversas possibilidades de passeio. Segui o trajeto recomendado e visitei o parlamento alemão (só por fora, pois havia uma grande fila para visitação interna), o portão de Brandemburgo, o Memorial aos Judeus e diversos lugares interessantes, mas basicamente o que fiz foi bater perna pela cidade. Depois de almoçar com Dennis em um restaurante, fui para a ilha dos museus e aproveitei a tarde para visitar o Pergamon. De lá segui para o escritório do Dennis, peguei minhas coisas e fui para o ponto de ônibus, e de lá para o aeroporto Berlin-Tegel, que será desativado após a inauguração do novo aeroporto Brandemburg.

A Ilha dos Museus de Berlim, com o Museu Bode em destaque

A Ilha dos Museus de Berlim, com o Museu Bode em destaque

Após despachar minha mala senti fome, e ainda faltava uma hora para o embarque, mas como há poucas opções de alimentação neste aeroporto, demorei mais de meia hora na fila para comprar uma salsicha com batatas fritas em um vagão de trem transformado em lanchonete que fica diante da entrada do aeroporto, acho que deve ser algum tipo de opção popular, pois os preços são similares aos do centro da cidade, enquanto dentro do aeroporto só se vende alimentos embalados e a preços mais caros. De lá voei para Madrid, onde cheguei tarde da noite.

Karina, minha colega, também brasileira, no curso em Poznán, veio no mesmo vôo, e fomos juntos de metrô até Plaza Elíptica, no sul da cidade, para dormir na casa do Félix, nosso colega de curso, que gentilmente nos hospedou e ainda nos presenteou com exemplares de Dom Quixote em Esperanto. Chegamos de madrugada à casa dele, dormimos um pouco e de manhã, após o café, seguimos de ônibus até a cidade. Nos despedimos do Félix, que foi trabalhar, e fizemos um rápido passeio pelo centro histórico antes de embarcar no metrô. Acabamos chegando em cima da hora para o embarque, mas deu tudo certo.

ARKONES!

Escrito por em Sep 29, 2014 em rafael | Comments Off on ARKONES!

O Arkones – ARtaj KONfrontoj en Esperanto (Confrontos Artísticos em Esperanto), começou na sexta-feira, mesmo dia em que terminou o Simpósio de Interlinguística. Durante o dia teve uma excursão para conhecer alguns lugares da cidade, mas preferi ficar no simpósio. No horário de almoço dei uma passada no centro cultural onde acontece o Arkones, pois fica a uma quadra do prédio onde tenho aulas, e dei um oi para as pessoas que estavam lá. Não sabia quem seriam os artistas a se apresentar no Arkones, mas ao chegar deide cara com Nanne Kalma e Ankie van der Meer, ou seja, o grupo Kajto, do qual sou fã desde que me tornei esperantista.

Emblema do 30° ARKONES

Emblema do 30° ARKONES

Gente de diversos lugares vem para o Arkones, mais de cem pessoas de dezenas de países, e por isso sempre organizam alojamento para as pessoas. Eu poderia ter ficado em Jowita ao longo de toda a minha estada em Poznań, mas decidi aproveitar a ocasião e ficar no albergue junto com boa parte dos participantes do evento, e muitos dos meus colegas de curso fizeram o mesmo.

Descobri que a diária no albergue é mais barata do que em Jowita e há mais conforto em termos de banheiros e estrutura do prédio. Por outro lado, em Jowita se tem mais privacidade, há muitos armários para botar pertences pessoais e não precisa trancar, enquanto no albergue cada um tem seu armário com chave e é arriscado deixar pertences fora dele. As duas maiores diferenças para mim, contudo, são as que mais contam: internet e banheiro. Em Jowita há internet, tanto sem fio quanto via cabo, mas a autenticação na rede exige baixar um certificado de segurança, configurar um monte de coisas e ainda por cima ter uma senha individual cuja obtenção demanda um procedimento burocráico chato e complicado. Aqui é bem simples: ligar o wi-fi e colocar a senha. Em Jowita o banheiro é antigo, muito pequeno, com uns azulejos frios, bem desconfortável para tomar banho. Aqui a ducha é bem melhor, os banheiros são amplos e com um antesala para guardar a roupa e se secar ao sair do banho.

O Arkones é um evento muito interessante, combina palestras e eventos artísticos variados, tem bar vendendo comida e bebidas e espaços agradáveis para conversar. A livraria do Arkones também é legal, acabei achando um tesouro que procurava há muito tempo: um livro chamado Rimleteroj (Cartas Rimadas), compilação de poemas escritos em cartões postais trocados entre William Auld, considerado o maior escritor esperantista de todos os tempos, e Marjorie Boulton, outra grande escritora esperantista. O desafio lançado por ela e aceito por ele acabou sendo publicado, anos mais tarde, na Nica Literatura Revuo (Revista Literária de Nice), e, por fim, saiu em livro. Auld e Boulton já foram indicados ao nobel de literatura.

Apresentação musical de Bertilo e Birke

Apresentação musical de Bertilo e Birke

Na primeira noite do Arkones teve oficina de canto do Kajto, e no sábado aconteceu a Miela Vespero (Noite de Mel), quando nos ofereceram uma bebida à base de mel e bolo. Quanto aos shows, tivemos o da Szusana, esperantista daqui de Poznań, que canta e toca muito bem, de Bertilo e Birke, que se apresenta com flauta e violão, e por fim o show do Kajto.

Encontrei em Poznań várias pessoas que eu há muito tempo não via. Na primeira noite um grupo de jovens esperantistas que estava bebendo e conversando me ofereceu “o melhor vinho da Bulgária”. Não estavam falando sério, e percebi que era brincadeira, mas o negócio é muito ruim. Pode ser que na Bulgária haja vinhos melhores, mas tão cedo não me atreverei a experimentar.

Às margens do rio Warta, com Jakob, esperantista local, e Joel, esperantista sueco

Às margens do rio Warta, com Jakob, esperantista local, e Joel, esperantista sueco

No domingo tivemos programação do Arkones somente de manhã, e à tarde fui passear com outros esperantistas, cada um de um país diferente, sendo que um deles é daqui de Poznań e nos levou para conhecer lugares interessantes: fomos para o outro lado do rio Warta, visitamos a catedral, cujo altar é muito interessante por ser “feminista”,isto é,  só tem imagens de mulheres: santa Maria, santa Catarina e santa Bárbara. Depois caminhamos por um belo parque com um lago artificial construído pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Neste parque há um trenzinho para as crianças, campo de minigolfe, raias para prática de remo e até um pequeno parque de diversões com montanha russa e uma pista de esqui sobre uma lona de espuma que reproduz o efeito da neve. A comida, porém, é cara no parque, então fomos jantar em um shopping e depois voltamos de bonde até o centro da cidade. Nos despedimos e fomos dormir.

Estou em Berlim na casa de um esperantista, e em breve contarei sobre meu último dia em Poznań e a viagem de volta ao Brasil.

Aulas em esperanto na universidade

Escrito por em Sep 27, 2014 em rafael | Comments Off on Aulas em esperanto na universidade

O alojamento estudantil Jowita, onde estou hospedado, fica a poucas quadras do Instituto de Linguística, onde acontecem as aulas. O instituto tem uma quantidade impressionante de departamentos e cursos: aqui é possível estudar línguas e literaturas de diversos países, mais de uma dezena de opções, inclusive há cartazes na universidade incentivando os alunos a participarem de um concurso de tradução de obras literárias coreanas para o polonês; suponho que as traduções premiadas devem acabar sendo publicadas, então imaginem o impacto disso no mercado editorial polonês! Aqui com certeza se tem mais acesso a obras literárias de diversos países, especialmente do leste europeu e da Àsia, literaturas com as quais tive contato somente através do esperanto.

Departamento de Neofilologia do Instituto de Linguística da UAM

Departamento de Neofilologia do Instituto de Linguística da UAM

Aliás, no Brasil a editora José Olympio teve a iniciativa de publicar algumas traduções da literatura em língua holandesa, preenchendo assim uma grave lacuna no nosso mercado editorial, mas eu só tive conhecimento disso graças ao Esperanto: após ler Du Virinoj (Duas Mulheres, em esperanto), de Harry Mulisch, comentei com um esperantista holandês sobre esse livro e ele me sugeriu outras obras. Ao procurá-las descobri que duas estavam traduzidas para o português em edições de bolso baratinhas: O Atentado, de Mulisch, e Queijo, de Willhem Elschot.

No sábado tivemos uma introdução ao curso, feita pela coordenadora, profa. Ilona Koutny. Nos apresentamos, ela nos apresentou o curso e a universidade. Depois disso fomos todos conhecer um pouco da cidade, visitamos o centro histórico ao anoitecer e jantamos todos juntos.

Centro Histórico de Poznań à noite

Centro Histórico de Poznań à noite

As disciplinas deste semestre são Fonética, Cultura Esperantista, Interlinguística e Literatura Esperantista. As aulas e o nível do curso e da universidade superaram todas as minhas expectativas, o grau de profissionalismo dos docentes, a organização do curso, tudo é bem melhor do que eu imaginava. Uma coisa que observo aqui é que os alunos são instigados a pesquisar, quem quer ser tradutor tem que traduzir, quem quer ser pesquisador tem que pesquisar, quem quer ser professor tem que ensinar, enfim, os docentes orientam os estudos de seus alunos, mas conscientes de que este último é o responsável por seu aprendizado. No Brasil, infelizmente, a importância da aula expositiva é superestimada.

E o que é interlinguística? A profa. Vera Barandóvska-Frank, da disciplina de Interlinguística, tratou longamente da definição deste termo: diversos autores deram diferentes definições para isso, algumas muito restritas, como o estudo das línguas planejadas (Alicja Sakaguchi), outras muito amplas, com a de Detlev Blanke, que considera a comunicação internacional incluindo todos os seus aspectos. Eis porque o curso trata de temas tão diversos.

Banheiros: qual escolher?

Banheiros: qual escolher?

Algo diferente que me chamou a atenção na universidade foi o banheiro: na porta, ao invés dos costumeiros desenhos de um homem e uma mulher, há um triângulo e um círculo. Tive que vir até a Polônia para fazer uma grande descoberta: sou um triângulo. Os prédios costumam ter duas portas de entrada, uma depois da outra, pois assim o isolamento térmico é mais eficaz: quando a porta interna se abre, a externa já está fechada. O tempo todo tem ambulâncias passando com a sirene ligada: ou tem muito acidente ou então os motoristas de ambulância são muito dramáticos. Creio que é a segunda opção.

Outra experiência esquisita foi entrar com outro esperantista em uma galeria. Estávamos procurando a C&A, pois nos disseram ser a loja de roupas mais barata da cidade e precisamos comprar roupas de frio para quando voltarmos, no final de janeiro, já que o frio daqui é bem diferente do que temos no Brasil. Entramos no prédio e subimos pela escada rolante. Não encontramos a C&A, mas bem à nossa frente havia uma loja da “Pierre Cardim – São Paulo” (escrito exatamente assim), onde dá para comprar os últimos modelitos do Brasil. Para descer não tinha escada, então pegamos o elevador. Como estávamos no andar 1 e queríamos descer um andar, apertamos o 0, mas fomos parar um andar abaixo da entrada. Subimos pela escada rolante e chegamos de volta no 1° andar! Como só tinha escada para subir, descemos de novo e encontramos, depois de andar um pouco, uma escadaria para chegar até a porta.

Voltando à universidade: as aulas terminaram e em seguida aconteceu um simpósio de interlinguística, com apresentação de trabalhos de muitos pesquisadores de diversas universidades. Muitos trabalhos foram apresentados em esperanto, mas houve também apresentações em inglês e em polonês, muitas delas feitas por pesquisadores que não dominam o esperanto, mas pesquisam temas ligados à interlinguística. Uma surpresa agradável foi encontrar meu amigo Richard, australiano que conheci no Vietnã e reencontrei no ano passado na Islândia, na Itália e em Israel. Ele veio para o Arkones e ficou sabendo do simpósio, ao chegar na universidade me encontrou.

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Após o primeiro dia de simpósio tivemos um banquete, quando experimentamos diversos pratos da culinária polonesa, tomamos vinho e conversamos em um ambiente muito gostoso. No banquete encontrei o Tobiasz, esperantista polonês que trabalha no escritório central da UEA, em Roterdã, ele nasceu aqui em Poznań, e veio para organizar o Arkones – Artaj Konfrontoj en Esperanto (Confrontos Artísticos em Esperanto), que está acontecendo agora. Conheci o Tobiasz no Vietnã, em 2012, e no ano passado nos reencontramos na Islândia.

Depois do banquete muitos foram dormir, mas algumas pessoas resolveram esticar a noite, e eu fui com um grupo de esperantistas a um bar, as pessoas foram indo embora, ficamos eu e quatro poloneses, que decidiram ir a um outro bar, onde ficamos tomando cerveja e conversando até de madrugada.

Agora estou no Arkones, é um evento muito interessante, diferente dos outros encontros de esperantistas que participei, mas sobre ele escreverei depois.

Novamente na Europa: Pós-graduação em Interlinguística na Polônia

Escrito por em Sep 21, 2014 em rafael | Comments Off on Novamente na Europa: Pós-graduação em Interlinguística na Polônia

Desde 2012 relato minha viagens pelo mundo neste espaço, especialmente sobre minha participação em eventos internacionais. Desta vez tratarei da minha vida profissional: sou bacharel em Estudos Literários pela Unicamp, onde atualmente curso mestrado em Teoria e História Literária. Minha pesquisa de mestrado é em literatura brasileira, e embora eu sempre quis pesquisar algo relacionado ao esperanto, no meu tempo de graduação tive dificuldade de encontrar uma linha de pesquisa que me permitisse juntar minhas maiores paixões.

 

Em 2009 ouvi falar pela primeira vez na pós-graduação em Estudos Interlinguísticos da Universidade “Adam Mickiewicz”, em Poznań, na Polônia. Na época não dei muita atenção, a não ser pelo fato de uma amiga polonesa ter me enviado uma mensagem dizendo que esta universidade é altamente conceituada e o curso totalmente ministrado em esperanto. Em 2011 alguns amigos brasileiros encararam o desafio, já concluíram o curso e alguns estão prestes a defender mestrado, já que o curso de três anos tem carga horária de mestrado e para obter o título de mestre basta escrever uma dissertação e defendê-la após o término do curso. Incentivado por eles, me matriculei e ganhei uma bolsa da ESF – Esperantic Studies Foundation, um fundação nos EUA que financia cursos e pesquisas relacionados ao Esperanto.

 

Reitoria da UAM. `A esquerda pode-se ver a estatua do poeta Adam Mickievicz

Reitoria da UAM. `A esquerda pode-se ver a estatua do poeta Adam Mickievicz

O curso é semi-presencial, ou seja, há uma semana intensiva de aulas e provas na universidade todo semestre, e depois disso trabalhamos em casa supervisionados à distância pelos docentes. Ao contrário de muitos cursos superiores que usam Educação à Distância (EAD) como uma ferramenta auxiliar ou como um meio de permitir ao aluno conciliar horários, este curso usa a EAD de modo peculiar: seu corpo docente é formado por professores de diversas universidades ao redor do mundo. Seria impossível reuni-los em uma mesma universidade para um curso presencial, mas passar uma semana ensinando na Polônia e depois acompanhar os alunos à distância é algo que eles podem fazer, e o resultado é um corpo docente internacional. Os alunos, por sua vez, também vêm de diversos países, atraídos pelo fato de ser um curso tão singular, que trata da comunicação intercultural e internacional, ministrado em esperanto por professores de diversos países. E assim o ambiente se torna perfeito para refletirmos sobre questões referentes à comunicação entre os diferentes povos: tanto os docentes quanto seus alunos pertencem a diferentes contextos linguísticos e culturais.

 

Para a minha primeira temporada em Poznań viajei para Berlim via Madrid, e de Berlim vim de ônibus. Como minha conexão em Madrid demorou muito (quase 12 horas), decidi aproveitar o dia para passear na cidade e contatei os esperantistas locais. Um deles, Alejandro, me informou como chegar à sua casa, me disse que estaria acordado por volta das 10:00, me passou seu endereço e explicações de como chegar lá. Desembarquei às 5:20 e após os procedimentos de imigração fui procurar informações sobre como ir à cidade: é possível ir de ônibus, trem e metrô, todos custam o mesmo preço, mas atingem lugares diferentes. Embarquei no ônibus, a casa do Alejandro é perto do segundo ponto após o aeroporto e levei 45 minutos para chegar lá. O motorista foi muito gentil, pegou um mapa e me explicou detalhadamente como chegar, segui as orientações e às 8:30 estava diante do predio. Como tinha que esperar até as 10:00, aproveitei para passear em um parque nas proximidades.

 

Monumento diante do lago no Parque do Retiro, em Madrid.

Monumento diante do lago no Parque do Retiro, em Madrid.

O parque é muito bonito, com jardins floridos, rios, estátuas e monumentos, lagos e fontes. Mesmo cedo, estava movimentado, algumas pessoas praticando esportes, outras passeando com seus cães, e também tinha gente cortando caminho para chegar a outro lugar. Quando eram quase 10 horas fui para o apartamento do Alejandro, tomamos café da manhã, conversamos e usamos internet. Por volta das 11:00 saímos, passeamos pelo centro da cidade e nos encontramos com outro esperantista no metrô. Visitamos diversas praças, o Palácio Real e outros prédios históricos. Para o almoço, me levaram a um lugar onde servem bons sanduíches a um euro (no aeroporto custam 7,5 EUR e em padarias em torno de 4 EUR, além de serem menores) e ainda dão de cortesia um pãozinho e umas fatias de salame para degustação. Após comermos, gravamos uma breve reportagem para a Muzaiko e voltei de metrô para o aeroporto (deu mais ou menos o tempo que levei de ônibus, mas fiz duas integrações). Segui para Berlim.

 

Em Berlim não tive tempo de passear, além de estar muito cansado cheguei tarde e com fome. Jantei na Alexanderplatz, em uma banca que vende salsichas e batatas-fritas. Depois tomei banho e fui dormir exausto. No dia seguinte acordei cedinho e segui de metrô para a Berlin ZOB (estação rodoviária central), onde tomei café da manhã em uma padaria.

 

Viajar de ônibus na Europa é uma experiência interessante, a começar pelo fato de que as rodoviárias aqui se assemelham aos terminais de ônibus urbanos do Brasil: as estações monumentais são destinadas aos trens, e o ônibus é um meio de transporte coadjuvante, de modo que a rodoviária ao invés de ficar ao lado de uma grande avenida fica escondida entre prédios em uma ruazinha simples; é próxima ao metrô, mas para ser atingida o passageiro precisa andar alguns quarteirões após descer do trem.

 

Rodoviaria Central de Berlim (Berlin ZOB), vista de cima. O onibus vermelho estacionado e' o PolskiBus, que peguei para ir `a Polonia

Rodoviaria Central de Berlim (Berlin ZOB), vista de cima. O onibus vermelho estacionado e’ o PolskiBus, que peguei para ir `a Polonia

Outra coisa que chama atenção são os ônibus: como precisam disputar passageiros com os trens, as empresas precisam investir em diferenciais para atrair os clientes, e o principal deles é o preço: viajar de trem na Europa em muitas situações é caro, e com a popularização das empresas aéreas “low cost” é comum achar passagens aéreas mais baratas do que as de trem (essa foi uma das razões de eu ter ido de avião da Itália para a Bélgica no ano passado). Além do preço, as empresas de ônibus investem em outros atrativos como maior distância entre as poltronas, internet wi-fi, tomadas para uso dos passageiros e algumas empresas têm até sistema de entretenimento a bordo individual semelhante ao dos aviões. Porém, o que mais me surpreendeu foi algumas empresas terem um acessório acoplado à traseira do ônibus para transportar bicicletas.

 

O movimento em nada lembra o das rodoviárias brasileiras: para ver um ônibus entrar ou sair, é necessário esperar vários minutos. Não há multidão. Não há barulho. Não há congestionamento de ônibus entrando e saindo. A viagem durou várias horas. Aproveitei para recarregar meu celular usando uma tomada sob o meu assento e usei o wi-fi, que funcionou bem na Polônia, mas não na Alemanha.

 

Um vez em Poznań, precisava chegar à universidade. Mas como? O ônibus me deixou ao lado de uma parada de bondes, mas Karina, uma das minhas colegas neste curso, que já veio antes a Poznań participar de um curso de formação de professores de Esperanto, havia me dito que de lá para a universidade era necessário pegar ônibus e não bonde. Notei que muitos passageiros foram pela calçada na mesma direção e fui atrás: assim cheguei a um pequeno terminal de ônibus urbanos a poucos metros dali.

 

Tirei da mochila um documento da universidade, em polonês e esperanto, no qual constava o endereço da residência estudantil onde estou morando. Mostrei-o a vários poloneses, mas nenhum sabia como chegar lá. Me lembrei da Karina ter me dito que era só perguntar como chegar no castelo, mas não me lembrava como se diz castelo em polonês (não adianta dizer em outra língua, eles não entendem). Então consultei um mural com os itinerários dos ônibus e em um deles encontrei uma parada chamada Zamek, a palavra que eu não estava conseguindo lembrar, e aquela linha de ônibus era a que eu precisava pegar.

 

Então veio outro problema: como comprar bilhetes, se a máquina só aceita pagamento em zlotos e eu só tinha euros? Andei pelas redondezas procurando um banco ou caixa eletrônico mas não havia nada disso. Como em muitas línguas se usa o radical -bank para banco, pensei que alguém entenderia que eu procurava um banco, tentei também a palavra câmbio em várias línguas e não adiantou, então mostrei a um senhor que eu só tinha euros na carteira, e quando ele entendeu o que eu queria disse a palavra kantor (casa de câmbio, a primeira palavra polonesa que aprendi na Polônia). Ele gesticulou me dando instruções. Não entendo polonês, mas deu para entender algumas palavras-chave, como tramwaj (quase igual a tramvojo, que em esperanto significa linha do bonde), que combinadas com os gestos foram suficientes: segui pela calçada acompanhando a linha do bonde e depois de algumas quadras vi em uma esquina um grande letreiro com a palavra kantor. Troquei meu dinheiro e voltei para pegar o ônibus.

 

Zamek Cesarski (Castelo Imperial), local onde desci do onibus.

Zamek Cesarski (Castelo Imperial), local onde desci do onibus.

Desci em Zamek, bem diante do castelo, que hoje é um centro cultural. Antes de chegar lá passei pela estátua do poeta Adam Mickievicz, e como sabia que essa praça fica na universidade, percebi que estava perto. A reitoria fica diante do castelo, e nos quarteirões ao redor há diversos prédios da universidade. Meu celular acusou sinal aberto de wi-fi e conectei à internet para baixar o mapa da região. Com auxílio do GPS fui em direção à Jowita, a residência estudantil. A entrada do prédio não é de frente para a rua, está escrito outro nome no letreiro e o numero é difícil de ver, então acabei entrando no prédio vizinho, também chamado Jowita: é o refeitório onde comem os estudantes do prédio ao lado. Uma moça entrou atrás de mim, me olhou como se quisesse perguntar algo, mas hesitava. Por fim disse “saluton!”, e então começamos a conversar em esperanto: ela se chama Paulina e é minha colega no curso, veio da Eslováquia e também tentava encontrar a Jowita, quando leu a palavra Esperanto na cinta identificadora da minha mala. Agora éramos dois esperantistas perdidos.

 

Entretanto, deduzimos que o prédio vizinho deveria ser o que procurávamos, embora não tivesse nenhuma identificação visível para quem passava pela calçada. Fomos lá ver e era mesmo Jowita. Os quartos são aconchegantes, com muitos armários, um frigobar por quarto e escrivaninhas para estudo. o único inconveniente é dividir banheiro: dois quartos dividem o mesmo banheiro, e ao entrar é necessário trancar a porta do outro lado para que a pessoa do outro quarto não entre. O elevador do prédio é bizarro: não tem a porta interna, somente aquela que fica no andar. Na minha primeira noite em jowita um grupo de rapazes desceu do elevador no térreo com cara de quem tinha aprontado, e ao entrar descobri que haviam apertado todos os botões, de modo que subi de andar em andar até o nono, onde moro.

 

Desci e encontrei, no saguão, meus conterrâneos Guilherme e Paulo. Um esperantista sueco, Sten, se juntou a nós e a Paulina também. Fomos todos almoçar (às 5 da tarde!) juntos e depois passeamos um pouco pela cidade, visitamos um mercado e compramos coisas para o café da manhã.  À meia-noite meu companheiro de quarto chegou: é um esperantista húngaro chamado Vajda.

Com alguns de meus colegas de curso no alojamento estudantil Jowita

Com alguns de meus colegas de curso no alojamento estudantil Jowita

Em breve contarei sobre a universidade e os primeiros dias de aula. Cześć!