Viagem Rafael

UK em Buenos Aires

Escrito por em Sep 16, 2014 em rafael | Comments Off on UK em Buenos Aires

Cheguei tarde em Ezeiza, o aeroporto mais distante do centro da cidade, e iria me hospedar na casa de um esperantista, Jorge Montanari, durante a primeira noite, para no dia seguinte me mudar para um albergue próximo ao local do congresso. Como meu celular pifou em Fortaleza e o dele estava sem bateria, ele me pediu para esperá-lo no aeroporto, e lá ficamos eu e Fábio à espera, cada um vestindo várias blusas, sob um frio intenso. Montanari nos pegou no aeroporto. Fábio seguiu para um albergue anteriormente reservado. No dia seguinte de manhã fui para meu albergue de táxi, com outros dois hóspedes do Montanari, que, assim como eu, se hospedaram próximo ao hotel Panamericano, local do congresso, durante aquela semana.

 

Reencontrando amigos após minha chegada ao Hotel Panamericano.

Reencontrando amigos após minha chegada ao Hotel Panamericano.

Na recepção do albergue me encontrei com um esperantista espanhol que não via há muito tempo: Juan Antonio Torres, violonista de primeira, que infelizmente teve que encerrar a carreira após um acidente de carro que lhe tirou os movimentos de uma das mãos. Conversamos e acabamos indo juntos para o Panamericano. No caminho encontramos o Alberto Calienes, esperantista cubano que no dia anterior esteve comigo em Fortaleza.

 

No hotel, vários rostos conhecidos, amigos que não via há muito tempo, reencontro com gente que estava comigo em Fortaleza ainda no dia anterior, a alegria do reencontro nos rostos de todo mundo. Recebi meu material do congresso e voltei para o albergue, onde reencontrei um dos primeiros estrangeiros que conheci através do Esperanto, um argentino chamado Rubén, que participou do meu primeiro encontro de esperantistas, em Wanda, Argentina, em 2006. Ruben foi meu companheiro de quarto em Buenos Aires, alugamos um quarto quádruplo, nós dois, outro argentino, participando de seu primeiro congresso, e um cubano. Alugamos um quarto com banheiro, mas não havia banheiro no quarto, apenas uma chave para abrirmos a porta do banheiro do outro lado do corredor, de uso exclusivo, mas fora do quarto.

 

Mesa de abertura do UK

Mesa de abertura do UK

Vários outros esperantistas se hospedaram no mesmo albergue, então sempre tinha companhia para ir e voltar do congresso. No dia seguinte aconteceria a abertura do congresso, e como fui diretor da programação temática, isto é, responsável pela organização e pelo andamento dos debates em torno do tema do congresso, bem como pela redação da resolução do congresso, precisava terminar de escrever o meu discurso para a cerimônia de abertura, que comecei a escrever no avião mas ainda não havia terminado, e fiquei até de madrugada cuidando disso. Enviei o texto para imprimirem e no dia seguinte o recebi, impresso, antes da abertura do evento.

 

Pela primeira vez me sentei à mesa durante a abertura do UK. Jorge Montanari, na condição de Reitor da Universidade Internacional do Congresso, sentou-se ao meu lado. A Rádio Internacional da China registrou o meu discurso de saudação aos congressistas:

http://esperanto.cri.cn/721/2014/08/12/176s165298.htm

Kafejo

Ao longo da semana não tive tempo para passear, pois os debates sobre o tema do congresso eram sempre no meio do dia, e fora desse horário participei de diversos debates e reuniões. No aeroporto não consegui trocar dinheiro devido a um problema momentâneo no sistema do banco, e nos primeiros dias de congresso não tive como ir ao banco trocar. Me chamou a atenção a quantidade de cambistas nas ruas oferecendo câmbio de maneira informal. Iniciamente tive receio de ser perigoso, poderia ser assaltado ou receber dinheiro falso, e o risco realmente existe, mas nenhum dos meus conhecidos teve problemas ao usar estes serviços. O câmbio oficial pagava pouco mais de três pesos por um real, fora os impostos e taxas, mas percebi que é comum o comércio portenho aceitar pagamento em reais, normalmente por um câmbio mais favorável que o oficial, podendo chegar até mesmo a cinco pesos por um real, que é o câmbio das ruas. Assim, paguei o albergue em reais (câmbio 1:4) e certa vez paguei a conta do restaurante em reais e as demais pessoas me pagaram em pesos, me abastecendo de dinheiro para a semana toda.

 

Quem leu meus relatos sobre os UKs do Vietnã e da Islândia, sabe que em ambos congressos eu participei de excursões, mas em Buenos Aires os preços estavam acima do que considero aceitável, e optei por não encomendar excursão alguma e passear por conta própria na quarta-feira, dia exclusivo para excursões. Neste dia participei no ago-tago, atividade que visa divulgar o esperanto para as pessoas nas ruas, de manhã, e à tarde fui de transporte público com esperantistas visitar o Malba – Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires. Fomos de metrô até parte do caminho, sendo que entramos no metrô sem pagar (perguntamos para o guarda onde adquirir bilhetes e ele respondeu abrindo uma porta lateral e mandando a gente passar sem pagar), mas tivemos que continuar a viagem de ônibus, e aí mais um problema: em Buenos Aires os ônibus só aceitam moedas, que são escassas, e a forma mais fácil de se usar o transporte público é adquirindo um SUBE, um cartão semelhante ao Bilhete Único brasileiro, que custa baratinho e vale a pena. Eu era o único com este cartão, então todos me deram dinheiro, coloquei créditos em uma loja e paguei todos os passes de ônibus.

 

Show da banda Supernova no Metropolitan

Show da banda Supernova no Metropolitan

A parte artística do congresso contou com apresentações de danças e músicas típicas durante a Nacia Vespero (noite artística nacional), e tivemos também a Internacia Vespero (noite artística internacional, quando congressistas de diversos países apresentam algo de sua cultura), um monólogo sobre a vida de Tiradentes apresentado por Amarílio Carvalho e exibição de dois filmes em Esperanto. As principais atrações, porém, foram os shows de Manuel (cantor italiano) e Supernova (banda brasileira de rock). O ex-ministro Joaquim Barbosa deu uma passada no Teatro Metropolitan pouco antes deste show, para comprar ingressos para uma apresentação de outro dia, e acabou assistindo ao show da Supernova também. Depois deste show fui com um grupo de esperantistas para um bar onde colamos adesivos de bandeiras na roupa para sinalizar para as demais pessoas quais línguas queremos praticar (e é claro que eles têm a bandeira do Esperanto). O bar estava lotado e tinha muito barulho, mas apesar disso foi uma experiência muito divertida.

 

Seleção Esperantista de Futebol

Seleção Esperantista de Futebol

Outra atração incomum neste UK foi o primeiro jogo de futebol oficial da Seleção Esperantista de Futebol. Nossa seleção, de participantes do UK, jogou contra a seleção da Comunidade Armena Argentina, que se prepara para os jogos Pan-Armenos do ano que vem, valeu como jogo oficial pela NF-Board, a liga de seleções não-FIFA, e saiu até no Olé. Infelizmente não ganhamos a partida, mas nada estragou o clima de festa.

 

Escrever a resolução do congresso foi uma tarefa que me tomou tempo, éramos um grupo de quatro pessoas para redigir o texto, e acabamos fazendo um bom trabalho, apesar da pressa. No encerramento do congresso, logo após ler a resolução para o público, fiquei com a gostosa sensação de missão cumprida e aproveitei a tarde para passear com outros esperantistas: vimos a estátua da Mafalda, a Casa Rosada, passeamos em Puerto Madero, tirei foto ao lado de uma escultura de Fangio com seu carro de fórmula 1. À noite participei de um delicioso jantar com os organizadores do congresso e me serviram um churrasco delicioso.

 

Esperantistas brasileiros junto à estátua de Juan Manuel Fangio.

Esperantistas brasileiros junto à estátua de Juan Manuel Fangio.

Fiquei na cidade por mais dois dias, aproveitei para passear, descansar, tomar sorvete de doce de leite e beber vinhos (duas coisas que não se pode deixar de fazer em Buenos Aires). Foi um congresso que, assim como os anteriores, deixou saudades.

IJK na mídia

Escrito por em Aug 28, 2014 em rafael | Comments Off on IJK na mídia

O IJK repercutiu na imprensa cearense: pelo menos três jornais e quatro emissoras de TV publicaram reportagens sobre o evento, e duas emissoras de rádio promoveram debates sobre o Esperanto. Infelizmente não consegui links para todas as reportagens, mas quem tiver mais informações pode me enviar que coloco aqui.

Debate de 15 minutos na rádio Band News com Anna Lobo de Carvalho, secretária da BEJO (Organização da Juventude Esperantista Brasileira) e Romualda Jeziorowska, polonesa que trabalha na E@I, empresa de educação na internet que usa o esperanto como língua de trabalho, tendo como um de seus projetos o site Lernu.net, através do qual é possível aprender esperanto gratuitamente.

Debate na CBN sobre Esperanto e Juventude

Debate na CBN sobre Esperanto e Juventude

Debate de uma hora sobre Esperanto e Juventude la rádio CBN, com a presença de Rogener Pavinski, redator da revista Kontakto, Rafael Henrique Zerbetto (eu, rs), conselheiro da UEA, Zbigniew Pastor, esperantista polonês, e o secretário municipal de juventude, Afonso Tiago Nunes de Sousa.

Reportagem da TV Diário sobre o congresso, gravada durante o Festival de Línguas e Culturas: http://tvdiario.verdesmares.com.br/videos/detalhes-de-videos?id=09987578f3f9db0c47133f690658f8ee (a partir de 10:25)

Reportagem da TV Verdes Mares, afiliada à Rede Globo, que foi ao ar na CETV e no Bom Dia Ceará. A equipe da TV Verdes Mares acompanhou uma excursão pelo bairro do Benfica: http://g1.globo.com/videos/ceara/cetv-2dicao/t/edicoes/v/evento-reune-pessoas-de-25-nacionalidades-com-um-idioma-comum-o-esperanto/3512338/

Outros dois canais de TV visitaram o local do congresso e fizeram reportagens, mas não consegui arranjar os links.

Reportagem no jornal Tribuna do Ceará: http://tribunadoceara.uol.com.br/noticias/cotidiano-2/fortaleza-e-sede-esperanto-e-reune-jovens-de-25-paises/

Reportagens no jornal O Povo:

http://www.opovo.com.br/app/fortaleza/2014/07/18/noticiafortaleza,3284425/fortaleza-sedia-o-70-encontro-mundial-da-juventude-esperantista.shtml

http://www.opovo.com.br/app/opovo/cotidiano/2014/07/19/noticiasjornalcotidiano,3284881/encontro-reune-falantes-do-idioma-em-fortaleza.shtml

Além disso tudo, algumas semanas antes do IJK o programa Viva Domingo, da TV O Povo, apresentou reportagem sobre o Esperanto: https://www.youtube.com/watch?v=DIbVjL-AFQA

Uma curiosidade: Demócrito Rocha, fundador do Jornal O Povo, era esperantista.

IJK em Fortaleza!

Escrito por em Aug 27, 2014 em rafael | Comments Off on IJK em Fortaleza!

Costumo usar o blog para escrever sobre o uso do esperanto em minhas viagens ao exterior, mas dessa vez falarei sobre o IJK – Congresso Internacional da Juventude da TEJO, no Brasil. Pela segunda vez nosso país sediou o congresso, a primeira foi em Paro Branco, no Paraná, em 2002, e desta vez foi em Fortaleza, no Ceará.

Foto oficial do 70° IJK

Foto oficial do 70° IJK

Por ser presidente da comissão organizadora, tive muito trabalho ao longo do congresso, e por essa razão não pude atualizar o blog durante o evente, o ritmo de trabalho era intenso e mal tive tempo para dormir, mas valeu a pena.

Primeira refeição em Fortaleza, com esperantistas de vários países

Primeira refeição em Fortaleza, com esperantistas de vários países

Cheguei em Fortaleza no dia 11 de julho, meu aniversário, e no aeroporto encontrei três esperantistas franceses: Bruno e Sebastian, que estiveram comigo em outras ocasiões narradas aqui no blog, e Antoine, que conheci naquela ocasião. Hilbernon, um esperantista local, foi nos buscar de carro no aeroporto e nos levou para a Associação Cearense de Esperanto, onde nos encontramos com outros esperantistas e fomos juntos jantar em uma pizzaria. Depois fomos dormir, com exceção de Antoine e Sebastian, que voltaram para o Aeroporto e seguiram de madrugada para o Rio de Janeiro para participar de um encontro de esperantistas.

Artesanato de Jericoacoara: emblema do IJK pintado sobre um ladrilho.

Artesanato de Jericoacoara: emblema do IJK pintado sobre um ladrilho.

Nos dias seguintes trabalhei com outros organizadores do evento, tínhamos muita coisa para providenciar até o congresso, mas também nos divertimos um pouco no fim de semana, inclusive aproveitamos o domingo para ir à praia. No meio da semana nos mudamos para o local do congresso, a Associação Recreativa dos Funcionários dos Correios do Ceará – ARCO-CE, onde começamos a preparar o local e receber os esperantistas que aos poucos iam chegando dos diversos cantos do mundo. Um grupo foi para Jericoacoara, onde aconteceu a excursão pré-IJK.

Eu Sou a Porta: trio mexicano se apresenta durante o Festival de Línguas e Culturas, na praça da Gentilândia.

Eu Sou a Porta: trio mexicano se apresenta durante o Festival de Línguas e Culturas, na praça da Gentilândia.

E chegou o IJK. Nos primeiros dias o ritmo de trabalho foi intenso, isso porque normalmente as excursões acontecem no meio da semana, após a recepção e acomodação dos congressistas, mas como o clube precisava ficar disponível para os associados durante o fim de semana, tivemos que fazer as excursões logo no início, acumulando muito trabalho nos primeiros dias, mas conseguimos cuidar de tudo: receber e instalar equipamentos, alocar os congressistas nos alojamentos, acertar pagamentos pendentes, inscrever pessoas nas excursões, etc. Fui dormir depois das três da manhã e levantei às 6:30.

Sendo entrevistado pela TV Diário durante o Festival de Línguas e Culturas. Ao fundo, busto de Zamenhof, criador do Esperanto.

Sendo entrevistado pela TV Diário durante o Festival de Línguas e Culturas. Ao fundo, busto de Zamenhof, criador do Esperanto.

Tínhamos que sair às 7:30 para a praça da Gentilândia para organizar as coisas para o Festival de Línguas e Culturas, dois ônibus saindo às 8:00 levariam o restante das pessoas. Mas o buffet atrasou em uma hora a entrega do café da manhã e acabamos saindo todos por volta das 9:00. Problemas à parte, o evento foi lindo: esperantistas de diversos países montaram bancas para exibir coisas típicas de seus países, muitos ofereceram degustação de comes e bebes, e teve até gente usando roupas típicas. No palco, um trio de esperantistas mexicanos, Mi Estas la Pordo, com participação especial de dois jovens de Itaitinga, município vizinho, e depois Gijom, se apresentaram cantando e tocando em diversas línguas, inclusive esperanto.

Esperantistas na praia de Iracema

Esperantistas na praia de Iracema

Depois deste evento maravilhoso, saíram três excursões de meio dia, sendo que eu guiei uma delas, para o Centro Cultural Dragão do Mar e Praia de Iracema. A Romualda, “Roma”, polonesa vencedora do concurso “Partoprenu IJK”, se encantou com a estátua de Iracema. Me disse que logo após ganhar o concurso colocou um poster do IJK, com uma foto dessa estátua, em seu quarto e olhava para ela todos os dias enquanto aguardava ansiosamente sua viagem.

Na quarta-feira guiei outra excursão. Na verdade não fui guia, mas intérprete, já que um guia profissional nos acompanhou, para três praias: Morro Branco, das Fontes e Canoa Quebrada. Foi a primeira vez que visitei aqueles lugares lindos, e quero muito voltar. Caminhamos por falésias de areias coloridas, conhecemos vários tipos de artesanato, nadamos no mar…

Oré Anacã, grupo de danças folclóricas, se apresentou no IJK

Oré Anacã, grupo de danças folclóricas, se apresentou no IJK

A parte artística do congresso também foi inesquecível, com muitos shows de artistas esperantistas, Jonny M, Johannes Mueller, Tarcísio Lima, Gijom e Supernova, além de dois grupos locais, Damas Cortejam, grupo de mulheres que cantam e tocam músicas brasileiras com temática feminina, e Oré Anacã, grupo de danças folclóricas da Universidade Federal do Ceará.

Geomar, esperantista cubano, canta música em esperanto para programa de TV.

Geomar, esperantista cubano, canta música em esperanto para programa de TV.

Durante a madrugada, as principais atrações eram o bar, onde as pessoas não só bebiam e conversavam, mas chegaram até a colocar música e dançar, e o gufujo (a tradução seria algo como “corujódromo”), um espaço tranquilo, a meia-luz, para conversar, beber chá, comer bolo… Para cuidar do Gufujo convidei minha amiga Ĝoja, chinesa que trabalha na redação em Esperanto da Rádio Internacional da China, e ela fez um trabalho fantástico: não apenas trouxe chás da China para servir aos convidados, mas também um jogo completo de xícaras e outros utensílios de porcelana ou madeira para o preparo do chá, fotografias e artesanato para enfeitar o ambiente, cuidou de cada detalhe com muito zelo e fez doces chineses para vender no Gufujo. Cada pessoa que chegava no Gufujo recebia um chá de boas-vindas, que cada dia era um, e além dos chás chineses havia chá-mate brasileiro e chá ceilão que eu trouxe do Sri Lanka. Outra opção para a madrugada era jogar jogos de tabuleiro, e Hilbernon deixou sua imensa coleção de jogos à disposição dos congressistas.

Reunião da TEJO

Reunião da TEJO

As palestras e oficinas foram bem variadas, desde oficina de canto até palestra sobre os limites do crescimento econômico em um planeta com uma quantidade limitada de recursos. Tivemos reuniões do conselho da TEJO e, pela primeira vez no Brasil, uma série de seminários AMO, o novo programa de treinamento de ativistas da UEA, sendo que um dos seminários foi organizado por mim.

O local do congresso era favorável à prática de esportes, e muitos congressistas preferiram curtir a piscina, jogar volei ou futebol. Para quem prefere dançar, tivemos aulas de forró, samba e zouk. Também tivemos um sarau no Gufujo, que foi memorável. Uma pena eu não ter tido tempo de contar tudo mais detalhadamente e no calor da hora.

No último dia do congresso, participamos de um debate na CBN sobre Esperanto e Juventude

No último dia do congresso, participamos de um debate na CBN sobre Esperanto e Juventude

Logo após o fim do IJK, segui para Buenos Aires para participar do UK, o Congresso Mundial de Esperanto. No UK fui diretor da programação temática, de modo que também estive muito ocupado ao longo de todo o congresso e não pude escrever para o blog, mas pretendo contar em breve sobre minha experiência na Argentina, mesmo país onde, em 2006, participei de meu primeiro encontro de esperantistas.

Muitos jornais e canais de TV fizeram matérias sobre o evento, e duas rádios organizaram debates sobre o tema.

 

Negombo

Escrito por em Jul 6, 2014 em rafael | 1 comentário

Demorou, mas antes tarde do que nunca. Após meu retorno ao Brasil estive muito ocupado com os preparativos do IJK no Brasil, além da necessidade de cuidar do serviço que foi acumulando enquanto eu estava no exterior.

No meu último dia no Sri Lanka visitamos Negombo. Fomos de carro, que é muito mais rápido do que ir de ônibus, além da facilidade para ir de um local turístico a outro. Sendo um dos principais destinos turísticos do país, é mais comum ver turistas estrangeiros pelas ruas do que nas outras cidades que visitei no país.

Igreja de Nossa Senhora

Igreja de Nossa Senhora

Primeiramente fomos à igreja de Nossa Senhora, mas estava fechada. Aliás, não só ela, mas outros lugares que fomos visitar também estavam fechados, segundo o Zeiter por ser horário de almoço (chegamos lá por volta de meio-dia e meia, e os locais poderiam ser visitados após as 15:00). Não conseguimos visitar a igreja, mas visitamos a capela do Santo Sudário, ao lado, e uma gruta artificial com uma imagem da virgem Maria. As pessoas também tiram os sapatos para entrar na capela, e precisei tirar o meu.

Em frente à igreja há uma estátua do padre que a fundou e três mastros para colocar bandeiras, em um deles estava hasteada a bandeira do Vaticano, em outro uma bandeira que não conheço, mas me disseram ser algo como “catolicismo na Ásia”.

Igreja de São Sebastião

Igreja de São Sebastião

Depois passamos em frente a dois templos budistas, os dois fechados, então nem paramos, seguimos até a igreja de S. Sebastião, que também estava fechada, e lá descemos para tirar fotos diante da igreja, onde há estações de via-sacra com estátuas. Me chamou a atenção a imagem de S. Sebastião na entrada da igreja: no Brasil ele é representado no momento de sua morte, amarrado nu e com o corpo sendo perfurado por flechas, lá no Sri Lanka ele é representado com sua roupa de soldado romano.

Esperantistas na praia em Negombo

Esperantistas na praia em Negombo

Visitamos uma praia. Ventava muito e no mar havia várias jangadas típicas do país. Caminhamos pela praia, molhamos os pés no mar, subimos nas pedras para admirar a paisagem e um pássaro chegou pertinho de mim e posou para fotos.

Entrada do Templo Angurukaramulla

Entrada do Templo Angurukaramulla

Depois fomos novamente tentar visitar o templo Angurukaramulla, um dos mais importantes do Sri Lanka e o maior do budismo theravada em Negombo. Os muros ao redor são decorados com elefantes em relevo. A entrada do templo forma a boca aberta de um leão (os singaleses acreditam descender de um leão) e lá dentro tudo é muito colorido, com pinturas e esculturas harmonizadas de tal forma que é difícil distinguir o que é pintado na parede e o que é escultura diante dela. Monges, budas, animais e outras criaturas são representados nas paredes ou diante delas.

Um dos budas do templo Angurukaramulla

Um dos budas do templo Angurukaramulla

Após visitar este belo monumento chegou a hora de ir embora. No caminho compramos comida e almoçamos em casa. Em seguida tomei banho e arrumei as malas: era hora de partir. Me despedi de todos e um tuc-tuc me levou até o aeroporto para voltar ao Brasil.

Congresso Singalês de Esperanto

Escrito por em May 31, 2014 em rafael | Comments Off on Congresso Singalês de Esperanto

Congresso Singalês de Esperanto

 O prolongamento da minha estada no Sri Lanka se deu em função do primeiro Congresso Singalês de Esperanto. Apesar de ter sido um evento modesto, é um marco na história do movimento esperantista no Sri Lanka, e me orgulho de ter feito parte disso. Sendo conselheiro da UEA, naturalmente representei a UEA no país durante o período em que lá estive, conversei com esperantistas locais e busquei diagnosticar a situação do movimento esperantista no Sri Lanka, agora farei um relatório para a UEA e a TEJO.

Foto oficial da abertura do 1° Congresso Singalês de Esperanto

Foto oficial da abertura do 1° Congresso Singalês de Esperanto

O Adeel foi enviado para o Sri Lanka pelo KAEM – Comissão Asiática do Movimento Esperantista, uma espécie de departamento da UEA para a Ásia, e ficará no país por mais algumas semanas, visitando esperantistas e clubes em algumas cidades, e também ministrando cursos e palestras.

Na abertura do congresso o Adeel leu a mensagem do diretor da UEA e presidente do KAEM, Lee Jungkee, que infelizmente não pôde comparecer pessoalmente, e eu falei em nome da TEJO e do movimento esperantista brasileiro. O prefeito de Ja-Ela participou da cerimônia de abertura e acendemos uma tocha, tradição em qualquer evento no Sri Lanka: há diversos pavios embebidos em óleo e cada uma das autoridades presentes acende um dos pavios. Na abertura da WCY vi o acendimento da tocha e não entendi por que raios estavam fazendo isso, agora entendo. Aliás, participar da organização do congresso me ajudou a conhecer melhor a cultura singalesa: tivemos que entregar convites por escrito aos convidados e oferecer comes e bebes aos participantes, coisa que não é comum no exterior. Aliás, durante a WCY o governo do Sri Lanka nos dava quatro refeições diárias, fora o café da manhã incluído na diária do Hotel, tínhamos chá de manhã, almoço, chá da tarde e jantar), mas não imaginei que isso fosse uma característica da hospitalidade singalesa.

Momento em que acendi a tocha em nome da TEJO.

Momento em que acendi a tocha em nome da TEJO.

Durante a WCY recebi e-mails dos diretores da UEA solicitando minha ida imediata a Ja-Ela após o fim da conferência para averiguar a situação, já que estavam tendo dificuldades para contatar o Zeiter. Ao chegar à casa dele e tomar conhecimento da situação, percebi que estava tudo sob controle. Desde então passei a intermediar o contato entre UEA e Zeiter, já que ele não está habituado à internet.

O Stefan Keller, atual diretor de relações exteriores da UEA, morou algum tempo no Sri Lanka há 30 anos, quando ensinou esperanto para muita gente. Infelizmente o projeto não teve continuidade e o país não chegou a ter um movimento organizado, mas atualmente há, além da Associação Singalesa de Esperanto, que pretende se filiar à UEA, alguns clubes locais. O maior problema que constatei foi a falta de colaboração entre esses grupos, e estamos avaliando as causas disso e o que fazer para haver maior colaboração. Por outro lado, fiquei muito feliz em constatar o interesse dos jovens pelo esperanto: a grande maioria dos singaleses interessados na língua ou mesmo engajados no movimento têm idade na faixa dos 20 anos.

O fim da guerra e a abertura econômica renderam ao Sri Lanka o epíteto “Milagre da Ásia”. É um país de grandes contrastes, onde miséria e desenvolvimento aparecem lado a lado, e me recordo bem de ter visto uma favela sendo demolida, enquanto ao lado várias casas populares novinhas estavam sendo construídas. Nas ruas, a iluminação pública é feita com lâmpadas fluorescentes iguais às que a gente tem em casa, e faltam calçadas, mas ao mesmo tempo vi operários instalando guia rebaixada em frente a uma faixa de pedestres, vi um hospital recém construído, ambulâncias novas, enfim, o país está se desenvolvendo e conseguindo resolver seus problemas aos poucos, e é bom ver isso, mas por outro lado nunca vi tanta miséria, e isso choca, revolta, faz a gente sentir vergonha de ser humano.

E o tema do congresso foi justamente “Esperanto no Milagre da Ásia”. Achei muito apropriado, pois precisamos pensar em como podemos ajudar o povo singalês. Como fazer? O que fazer? Estamos discutindo, aliás, acabamos de criar um grupo de trabalho específico para acompanhar o movimento esperantista no Sri Lanka, mas é fato que os jovens singaleses têm curiosidade sobre o mundo, se interessam por outras culturas, querem viajar, fazer intercâmbio, e para isso o Esperanto pode ajudar muito, tanto é que todas as minhas viagens internacionais estiveram ligadas ao esperanto.

Autoridades presentes na abertura do evento: Rafael H. Zerbetto (TEJO), Adeel Butt (KAEM/UEA), Anju Perera (Prefeito de Ja-Ela) e Zeiter Perera (Presidente da Associação Singalesa de Esperanto)

Autoridades presentes na abertura do evento: Rafael H. Zerbetto (TEJO), Adeel Butt (KAEM/UEA), Anju Perera (Prefeito de Ja-Ela) e Zeiter Perera (Presidente da Associação Singalesa de Esperanto)

Porém, a tarefa é bem complicada. A paz no Sri Lanka ainda está por um fio, senti uma certa tensão no ar, basta uma autoridade fazer um comentário infeliz e pode surgir uma guerrilha. O governo atua como mediador de conflitos, gasta muito com a promoção da diversidade étnica do país, e talvez os altos investimentos na juventude sejam justamente para promover integração, o que é de extrema importância, já que entre os adultos muitas vezes há um sentimento de desconfiança com relação a vizinhos que apoiaram o lado oposto na guerra.

É importante lembrar que a guerra civil no Sri Lanka foi causada essencialmente pela discriminação da minoria tamil, e o passo mais importante na resolução do conflito foi a adoção da língua tamil como segunda língua oficial do país e seu ensino nas escolas. Embalagens, placas de trânsito, documentos oficiais, tudo tem que ser bilíngue, e mesmo assim a situação é delicada. Muita gente caçoa de mim quando digo que o Esperanto foi perseguido por diversas ditaduras ao longo do século XX, pois no Brasil realmente isso pode parecer ridículo, nossa realidade linguistica é bem diferente, mas no Sri Lanka senti na pele o que é ser visto com desconfiaça por defender uma lingua neutra para a comunicação entre falantes de línguas diferentes, pois lá o equilíbrio linguístico é frágil e os singaleses têm medo.

Apesar disso, o governo do Sri Lanka está impondo o inglês como terceira língua do país. Esse idioma é de ensino obrigatório em todas as escolas do país, há incentivo à prática da língua, mas os resultados são catastróficos: pensar que colocar jovens nativos em diferentes línguas para conversar em inglês os tornará falantes fluentes é uma ingenuidade tremenda, pois uma língua nacional nutre e expressa uma cultura nacional, por isso só se pode adquirir alto nível de fluência na língua tendo um íntimo contato com sua cultura, muito diferente da singalesa, daí nota-se a dialetização do inglês no Sri Lanka, como por exemplo, no hábito de perguntar a idade de alguém com “how much” (quanto custa) ou “how much you” (quanto custa você).

Além disso, no primeiro dia da WCY uma garota inglesa, em uma conversa de ônibus, comentou a maneira como os singaleses dizem “blue-tooth”: ouve-se blu-tu, blu-too, blu-two, blu-toon e por aí vai. No Esperanto temos a vantagem da gramática ser mais regular e os fonemas serem mais fáceis de identificar.

Outra desconfiança é com relação a religião. Desde a abertura econômica muitos missionários religiosos tẽm ido para o Sri Lanka, muitas igrejas dão dinheiro para famílias pobres em troca de participação nos cultos, até que elas acabam sendo convertidas e saem querendo converter os outros, e isso tem gerado reclamações por parte dos budistas, cada vez mais assediados por essas seitas, que normalmente se disfarçam de instituições de caridade, dizem querer promover a paz, ajudar o povo, e no fim só querem converter gente. Justamente por isso muitos jovens com os quais conversei sobre o Esperanto me perguntaram diversas vezes se constituímos uma religião, mas esse obstáculo à divulgação do Esperanto no país pode ser vencido com facilidade, uma vez que há duas resoluções da UNESCO em favor do Esperanto, reconhecendo seu valor cultural e solicitando aos países-membros colaboração para popularizá-lo.

No próximo texto contarei como foi meu último dia no Sri Lanka. Visitamos Negombo.

Um pouco mais sobre o Sri Lanka

Escrito por em May 21, 2014 em rafael | 2 comentários

Suspeito que por aqui o conceito de turismo é diferente do nosso, pois muitos singaleses dizem que, após conhecerem um lugar diferente, não há motivo para voltar, porque é um lugar que já conhecem, bem ao contrário de quem desce pra baixada santista todo fim de semana. Já os turistas estrangeiros que chegam aqui se dividem em dois grupos: os jovens mochileiros em busca de experiências diferentes, e idosos europeus como os que chegavam aos montes no meu hotel em Colombo quando eu estava de saída, que passeiam de ônibus com guia algumas vezes na semana e passam o resto do tempo bebendo no bar do hotel (pelo menos foi isso que me disseram). Aliás, essa forma de turismo é a mais comum por aqui, e talvez isso explique porque, embora haja muitos turistas estrangeiros, o povo não está acostumado a ter contato com eles.

Já fui diversas vezes a Ja-Ela com o Zeiter. A gente vai de transporte público, para mim é uma aventura e tanto. Aqui no Sri Lanka usa-se mão inglesa, nos primeiros dias da WCY eu estranhava, diversas vezes contornei o ônibus para dar de cara com uma não-porta, voltar e entrar pela porta do lado esquerdo. Também a primeira vez que andei no banco da frente do carro do sobrinho do Zeiter me atrapalhei todo, pois abri a porta direita e dei de cara com o volante, dei a volta e entrei do lado esquerdo.

Interior de ônibus no Sri Lanka

Interior de ônibus no Sri Lanka

Os ônibus são velhíssimos e mal-conservados. Andam com a porta aberta, mas também já viajei em alguns que não têm mais porta. Normalmente param nos pontos de embarque e desembarque, mas também acontece da gente embarcar com o ônibus andando, normalmente quando ele começa a andar após uma parada e alguém faz sinal o motorista reduz a velocidade para a pessoa conseguir subir, mas não pára. Aliás, no Vietnã não usei transporte público, mas me diverti vendo as pessoas embarcando e desembarcando dos ônibus, pois lá eles realmente não param e nem reduzem drasticamente a velocidade, a pessoa vai correndo ao lado do ônibus, se segura em um suporte e assim consegue tirar os pés do chão e colocá-los dentro do veículo.

Por aqui é comum colocarem penduricalhos, geralmente um arame com pimenta e limão amarrados, no interior do veículo ou na frente. Também é comum ver imagens e gravuras representando Buda ou Jesus Cristo. Segurança não é uma grande preocupação, já vi uma gambiarra com parafusos para fixar uma saída de emergência, e creio ser impossível removê-la sem desparafusar tudo. Aliás, gambiarra é o que não falta nesses ônibus, que até têm um certo conforto, os bancos são de espuma e raramente viajo em pé, pois há muitos veículos, basta parar no ponto e esperar no máximo uns dois minutos para o ônibus chegar, mas eles não cumprem uma tabela de horários, os motoristas simplesmente saem da garagem e ficam rodando o dia todo. Já peguei ônibus lotado. Em alguns horários isso é inevitável.

Numa dessas viagens o ônibus entrou em um posto de gasolina. Pensei “não acredito que ele vai abastecer”. Abasteceu, e com o motor ligado, depois de uma complicada manobra em um espaço minúsculo para poder chegar perto da bomba. Seguimos viagem normalmente. Em outra ocasião, nosso ônibus subitamente parou e ficou um tempão parado. Perguntei o que estava acontecendo e o Zeiter me explicou: a polícia estava multando o motorista por excesso de velocidade. No Brasil os ônibus viajam bem mais rápido do que isso. Por aqui não existe faixa contínua na sinalização horizontal das vias, qualquer lugar permite ultrapassagens, daí freadas bruscas e três carros lado a lado na pista é comum de se ver, bem como sair da pista para evitar colisão, já que não há calçada, e isso certamente justifica as baixas velocidades. Existem, porém, muitas rodovias de pista dupla interligando as cidades, onde o limite de velocidade é 110 kṃ̣/h. Atravessar a rua no Sri Lanka é perigoso, é mais ou menos como no Brasil, só que com mais veículos: a gente calcula se vai dar tempo de atravessar na frente do carro e atravessa.

Rua no centro de Ja-Ela

Rua no centro de Ja-Ela

E por falar em combustível, a fumaça que sai dos escapamentos dos veículos daqui tem um cheiro horrível, e acredito que tenha alto teor de enxofre, pois já ouvi dizer que as grandes petroleiras do ocidente vendem combustível com alto teor de enxofre a preços baixos para diversos países pobres. As empresas criam seus discursos de responsabilidade ambiental, anunciam seus produtos como algo que traz qualidade de vida para a população e respeita o meio-ambiente. Na verdade se esconde a sujeira embaixo do tapete. E aqui é embaixo do tapete.

Uma coisa que gostei, além do curto tempo de espera, é a paciência que todos têm para embarcar. Em certa ocasião havia muita gente esperando para entrar, e quando o ônibus parou fizemos uma fila e esperamos as pessoas desembarcarem.

Ja-Ela não tem atrativos turísticos, a não ser as particularidades da cultura local, que podem ser vistas em qualquer lugar. Da última vez que estive em Ja-Ela não levei câmera, e de repente fui surpreendido por um caminhão transportando dois elefantes! Isso definitivamente não é uma cena comum no Brasil.

Também foi interessante visitar o mercado da cidade. Primeiro passamos em um açougue: pedaços de carne pendurados por ganchos e cheios de moscas em volta, uma balança de dois pratos para pesar a carne (até agora todas as balanças que vi são de dois pratos, com aqueles pesinhos de metal que se coloca em um prato para balancear o que está no outro), e um pedaço de tronco de árvore, todo sujo de sangue, usado para cortar a carne com uma faca velha e enferrujada. Aliás, há um vendedor de peixe que passa de moto aqui no bairro. Ele traz os peixes em uma caixa de isopor, as pessoas escolhem o que querem, ele pesa (na balança de dois pratos, claro), corta em postas e embrulha em jornal.

Os legumes, as verduras e as frutas são expostos em balcões de madeira forrados com sacos de estopa, normalmente sujos, e pesados em balanças de dois pratos. De um modo geral o mercado parece um barraco, com o teto mal feito, telhado curvado pelo desnível dos caibros, muitos deles remendados em diversas partes, e ao invés de telhas usam folhas de zinco, folhas grandes de plástico grosso, telhas eternit, tudo misturado dando ao mercado uma cara de favela. Sob o telhado há muitas teias de aranha. O chão é imundo. Por aqui não há fiscalização, e creio que nem legislação, sanitária.

Por outro lado, abusa-de da pimenta e de diversas especiarias que acabam ajudando a conservar a carne. Certo dia recebemos visita após o almoço, saímos e quando voltamos reparei que a comida tinha ficado em cima da mesa. Achei que seria jogada fora, mas foi nosso jantar, o tempero conserva os alimentos, e talvez por isso os singaleses tenham o hábito de comer tanta pimenta. Aliás, ter geladeira em casa é algo raro por aqui, e mesmo a família do Zeiter, que tem geladeira, prefere comprar alimentos para cozinhar no mesmo dia ou no dia seguinte, não se costuma usar geladeira para estocar comida, e creio que essa rapidez em consumir o que se compra contribui para que o alimento não estrague.

Quando acabou o arroz na casa do Zeiter, fui com ele à mercearia mais próxima e descobri que arroz aqui é vendido a granel. A mercearia é bem mais limpa que o mercado. Há um computador no caixa, mas fica a maior parte do tempo desligado, o dono é um velhinho que não sabe usar computador e soma as compras no papel, sem pressa, escrevendo o nome de cada produto (em singalês) em uma folha dessas de nota fiscal, e o preço na frente, depois faz as contas, pega o dinheiro e devolve o troco. Seus filhos também trabalham na mercearia, e diversas vezes ao dia colocam os pães em uma miniloja montada na traseira de um caminhão e rodam o bairro tocando uma musiquinha. As pessoas saem de suas casas e compram pão no meio da rua.

Adeel mostrando coisas do Paquistão para a filha do Zeiter

Adeel mostrando coisas do Paquistão para a filha do Zeiter

Fomos buscar o Adeel no aeroporto, que está lindo cheio de enfeites do Vesak, mas infelizmente não consegui fazer uma boa foto.

Vesak-poya, a festa do nascimento de Buda

Escrito por em May 18, 2014 em rafael | Comments Off on Vesak-poya, a festa do nascimento de Buda

Entre os dias 14 e 15 de maio tivemos lua cheia. Aqui no Sri Lanka toda lua cheia é feriado, e esses feriados são chamados de poya. Cada poya é uma festa budista dedicada a algo especial, e o principal destes feriados é o Vesak, justamente o que acabou de acontecer.

Vesak é a comemoração do nascimento de Buda. Desde que cheguei aqui vejo, em todos os lugares, bandeiras semelhantes às que eu via na entrada dos pagodes no Vietnã (por aqui não há pagodes, e os templos budistas têm outro tipo de decoração e organização, pois aqui predomina outra forma de budismo, diferente daquela do leste da Ásia), inclusive em frente às casas, prédios comerciais, dentre outras coisas. Além das bandeiras, tinha uma novidade: lanternas e balões, alguns muito bonitos, enfeitando as ruas. Sei que essas bandeiras tem a ver com o budismo, mas então porque estavam em todo lugar? Depois vim a saber que é por causa do Vesak.

Prédio enfeitado com bandeiras para o Vesak

Prédio enfeitado com bandeiras para o Vesak

Além disso estavam contornando tudo com lâmpadas como essas que usamos em decorações de natal, mas a maioria sem pisca-pisca. Durante a WCY vi homens colocando iluminação ao redor das árvores, e durante as duas noites do Vesak, a lua cheia e a noite seguinte, tive a oportunidade de ver casas enfeitadas, com lampadazinhas, lanternas de papel e bandeiras. Mesmo quem não é budista participa do Vesak, e o que mais gostei foi ver o povo nas ruas se confraternizando.

Em Colombo vi altares e imagens de Buda em diversas esquinas e praças, normalmente dentro de uma câmara de vidro, sempre com um pote cheio de pétalas de flor diante da imagem, e aqui em Ja-Ela isso também existe, mas é mais comum ver imagens de santos católicos e estátuas representando passagens bíblicas, por isso suponho que aqui o catolicismo seja mais popular. Aproveito a ocasião para contar que, logo após o Vesak, uma imagem peregrina da Virgem Maria foi trazida até a casa do Zeiter junto com um pires cheio de pétalas de flor, e no dia seguinte levaram a imagem para outra casa, com o pires junto após a troca das pétalas. As imagens de Buda também são muitas e estão por toda parte, e é nas imediações delas que se comemora o Vesak.

Discutindo com o Zeiter sobre a programação do Congresso Singalês de Esperanto, perguntei se ele tinha bandeiras do Sri Lanka e do Esperanto, pois precisaríamos para a cerimônia de abertura. Ele me trouxe um saco com suas bandeiras, e no meio tinha uma do Vaticano. Ele então me explicou que, assim como os budistas fazem no Vesak, católicos enfeitam suas casas com luz e bandeiras do Vaticano por ocasião do Natal.

Com a família do Zeiter, indo para o Vesak

Com a família do Zeiter, indo para o Vesak

Saímos da casa da cunhada do Zeiter, eu e todos os familiares dele, e seguimos juntos em direção à entrada do condomínio. Pelas ruas, várias famílias a pé, todas indo aos lugares onde servem comida gratuitamente a todas as pessoas que chegam. Em qualquer lugar público onde há um altar para Buda colocam uma barraca nas proximidades, onde são entregues as refeições, e ao lado há várias mesas e cadeiras para as pessoas comerem e um caminhão-pipa conectado a uma pia para as pessoas lavarem as mãos.

O sobrinho do Zeiter pegou o carro. Decidiram me levar para a cidade, para ver a festa. Paramos em uma das barracas para comer e recebi um prato com arroz branco, sambol (é o que os singaleses mais comem, colocam isso em tudo), frango com um molho que é praticamente pimenta pura, e um creme que não sei do que se trata. O frango estava gostoso, mas o tempero era muito forte. O sambol deixei de lado. Experimentei o creme, mas também era forte demais. Foi a comida mais apimentada que já comi, depois de algumas mãozadas (aqui se come com as mãos) não conseguia mais engolir nada a não ser o arroz. Me serviram água para ajudar a engolir, mas deixei metade da comida no prato por não conseguir comer.

Há uma tira de plástico, desses de sacola de supermercado, em cima de cada prato. Após comer a pessoa embrulha o que sobrou neste plástico e devolve o prato limpo. O embrulho é jogado na galeria de águas pluviais.

Seguimos de carro para um outro lugar. Estávamos passando por um viaduto quando vi um altar enorme com um Buda, todo iluminado por lâmpadas coloridas. Parecia uma roda-gigante à primeira vista, com lâmpadas acendendo e apagando, mas era um altar. E ao lado dele, assim como dos outros altares que vi (exceto dentro dos templos), há alto-falantes entoando mantras.

Altar iluminado com Buda no centro da roda

Altar iluminado com Buda no centro da roda

Fomos até aquele altar iluminado que vi de longe. Cheguei perto dele, tirei fotos, vi as pessoas nas ruas comemorando o Vesak. Entramos em outra fila de comida. Nesta estavam dando sorvete. Depois voltamos para casa. No caminho ultrapassamos um tuk-tuk cheio de jovens animados batucando e cantando. Também vi algumas pessoas com máscaras. Aqui há caminhões de passageiro, parecidos com paus-de-arara, e também colocam cadeiras de plástico sobre caminhões de carga para levar pessoas para a festa. Aliás, também vi pessoas sendo transportadas em uma espécie de trator de um eixo, que precisa estar conectado à carreta para ficar em pé.

Na noite seguinte fomos até o Buda mais próximo daqui, onde nos serviram mandioca cozida com sambol. Comi toda a mandioca, com menos sambol do que os singaleses comem, mas não estava excessivamente picante. Após essa refeição fomos para a base da força aérea, pois nessas ocasiões eles abrem para visitação o memorial construído em homenagem aos combatentes da força aérea que morreram na guerra civil.

Comendo mandioca gringa, com as mãos, como é o costume no Sri Lanka

Comendo mandioca gringa, com as mãos, como é o costume no Sri Lanka

O memorial é muito bonito, cercado por espelhos d’água e precedido por ruínas de uma casa bombardeada. Acessa-se o andar de baixo por uma rampa e lá há um grande mural com fotos dos mortos, quase 500, e sobre cada foto se lê o nome, a posição na hierarquia militar e a função que exercia. Alguns eram médicos, enfermeiros e engenheiros que podiam estar fazendo muito pelo povo agora que a guerra já não existe, mas suas consequências estão por toda parte. Nunca antes estive em país recém saído de uma guerra, e agora sei que é algo muito pior do que sempre fui capaz de imaginar. Atrás do mural há um muro com frases escritas por familiares dos mortos: pais, filhos e esposas contando o que sentem e prestando homenagens a seus entes queridos.

Em frente à base aérea existe um templo budista, ainda em construção, e que estava aberto para visitação por ocasião do Vesak. Entramos. O chão é todo de areia, e deve-se tirar os sapatos logo na entrada. Caminhei pelo templo, vi várias imagens de Buda, incenso e velas queimando. Cheguei ao pé de uma árvore cercada por altares, em cada altar um Buda. Me ensinaram que se deve pegar um copo plástico (fica ao pé da árvore), encher de água na torneira, mentalizar um pedido e dar a volta ao redor da árvore parando em cada altar para uma reverência, e finalmente jogar a água na base da árvore, onde há pedaços de estátuas quebradas de Buda. Um desses Budas parecia olhar para mim pedindo água, então dei a ele o último gole.

Buda na entrada do templo

Buda na entrada do templo

Depois fomos até o altar principal, dentro de um salão no interior do templo, e lá as pessoas entram, se ajoelham e fazem uma reverência se abaixando. Fiz isso também, saí, e viemos embora. Tenho boas recordações do Vesak, festa que reúne todas as pessoas sem distinção, o que acho muito importante, pois a convivência entre os diferentes grupos sociais é a melhor forma de se combater preconceitos e discurso de ódio.

Conhecendo a cultura singalesa

Escrito por em May 16, 2014 em rafael | 6 comentários

No mesmo local da WCY havia um pavilhão com exposições para o público em geral, e na sexta-feira, último dia da conferência, os visitantes eram muitos, bem mais do que nos outros dias. Além de muitos estudantes, era fácil notar trabalhadores em seus uniformes de trabalho, famílias a passeio, grupos de amigos. A exposição não tinha muita coisa, alguns stands apresentando o trabalho de algumas organizações locais, um palco com apresentações de música e dança e um salão de beleza onde estudantes cortavam cabelos e maquiavam as pessoas gratuitamente.

Mas o que mais chamava a atenção dos locais, e, creio eu, o verdadeiro motivo de estarem ali era a presença de muitos estrangeiros. O Sri Lanka sempre foi um país muito isolado, que só agora começa a fortalecer relações com outros países e atrair turistas estrangeiros. Embora o turismo tenha um papel importante na economia local, a presença de pessoas vindas do exterior ainda é novidade, por isso ficam nos olhando demoradamente, como se estivessem fazendo um esforço para guardar nossas fisionomias, e, claro, pedem para tirar fotos.

Girafas do Brasil com singaleses

Girafas do Brasil com singaleses

Após sair de um grupo de trabalho, encontrei um casal de brasileiros, que veio estudar budismo e ficará aqui durante um ano, sentado em um gramado conversando, e eles me disseram “acabamos de ser girafas”. Não entendi, mas explicaram: as pessoas os cercaram, pediram para tirar fotos, e seguiu-se uma exaustiva sessão de fotos. Nisso apareceram algumas pessoas pedindo para… isso mesmo, tirar fotos. E em seguida veio outro grupo, e mais outro, até que decidimos sair dali para termos um pouco de sossego. Foi uma situação engraçada.

No dia seguinte houve o encerramento da conferência, depois representei a TEJO em uma reunião do ICMYO (Coordenação Internacional para Encontros de Organizações Juvenis) e fui para o hotel no fim da tarde. Todos os compromissos terminados, eu tinha um tempo para passear, caminhar pelas ruas pela primeira vez, mas estava tão cansado que ao chegar em meu quarto deitei para um cochilo e acordei às 22:30. Desci ao saguão e encontrei um rapaz de Cabo Verde interessado em sair para dar uma volta. Outras pessoas preferiram ficar na piscina ou no bar do hotel, e fomos só nós dois.

Representando a TEJO na reunião do ICMYO

Representando a TEJO na reunião do ICMYO

Tuk-tuks aos montes em qualquer canto, todos os motoristas insistentemente oferecendo seus serviços, a maioria em uma língua incompreensível, outros com monossílabos em inglês. Pedimos informação e queriam nos levar para outro lado da cidade, mas mediante nossa recusa um deles nos apontou o prédio vizinho. “Dance Dance!” (Os singaleses têm o hábito de repetir as palavras para dar-lhes ênfase). Na entrada da viela escura que começava na esquina ao lado do hotel, havia uma porta abaixo de um letreiro de neon, guardada por dois seguranças que nos convidaram a entrar. As paredes eram pretas e tudo era iluminado por um luz vermelha. Enquanto subíamos a escada meu companheiro me disse “parece ser um bordel”. Tive a mesma impressão, que se acentuou quando chegamos no andar de cima e tivemos que passar por um túnel branco cheio de arcos de neon. Chegamos a um corredor imenso onde havia a estátua de uma mulher nua, e no fim do corredor, finalmente, a danceteria: uma pista de dança minúscula, do tamanho do meu quarto em Campinas, cercada por mesas onde pessoas bebiam e conversavam, a música era muito alta, e em um canto, após a pista, havia uma saleta anexa com mais mesas e um balcão de bar. Era um bar normal, nada a ver com o que havíamos imaginado, e o ambiente não era ruim, mas decidimos sair dali, pois não estávamos a fim de música alta. Saímos.

Fomos para a avenida principal e chegamos a um bar luxuoso, onde a cerveja custava o triplo do que custa no hotel (que é quase o dobro do preço no supermercado), decidmos ir passear na orla da praia, já que era ali perto e havíamos visto, de longe, barracas vendendo comes e bebes e muitas pessoas passeando. O ambiente era gostoso, famílias e amigos passeando, ar fresco, mas a iluminação deixa a desejar, e fiquei preocupado com a escuridão, mas seguimos, pois tinha muita gente ali. Após caminharmos por algum tempo, um grupo de adolescentes locais se juntou a nós. Estavam curiosos, tentavam nos perguntar muita coisa, mas não tínhamos uma língua em comum. Eles conversavam em Tamil, tentavam falar em inglês, mas só conseguiam perguntar nossos nomes, de onde vínhamos e desde quando estávamos no país. Um deles conseguiu, após várias tentativas, perguntar a nossa idade, e demorei a entender, pois aqui muita gente pergunta idade dizendo “how much old are you?” (às vezes sem o verbo).

Me senti intimidado com a presença dos garotos, eles eram sete, estávamos em um local escuro e a abordagem deles me parecia suspeita, talvez estivessem querendo nos assaltar, já havia sido alertado por esperantistas locais ou que visitaram o Sri Lanka para ter cuidado com batedores de carteira. Meu companheiro teve a mesma impressão, mas era evidente, também, que havia neles muita curiosidade sobre a gente e sobre nossos países de origem, e também uma frustração por não conguirem nos perguntar o que desejavam saber sobre o mundo, nem entender o que dizíamos. Por fim, poediram para tirar fotos conosco antes de irmos embora, e seguiu-se uma sessão de fotos, todos eles contentes e dizendo que colocariam no Facebook. Se ofereceram para nos fotografar com nossas câmeras para também termos uma recordação, mas é claro que eu não entregaria o celular para eles, respondi que havia deixado tudo no hotel. Eles se despediram e foram embora. De volta ao hotel, conversei com algumas pessoas, fui para o quarto e fiquei na internet até as três da manhã, pois estava sem sono.

No dia seguinte era hora de partir. O plano inicial era ir para a casa do Ishanke, mas durante a semana os planos acabaram mudando: o presidente da Associação Singalesa de Esperanto, Zeiter Perera (devido à colonização portuguesa, muitos nomes portugueses são comuns por aqui, Silva e Perera são os mais comuns, mas também já vi outros). O Zeiter me telefonou de manhã, conforme o combinado, prometendo me encontrar no hotel às 15:00. Eu tinha um dia inteiro em Colombo para passear, mas antes de mais nada decidi dar uma volta nas imediações e procurar um local para recarregar meu celular, que estava sem créditos, pois poderia ser necessário entrar em contato com esperantistas em caso de imprevistos. Não me dei conta de que era domingo e o comércio estava fechado.

Por sorte encontrei um rapaz que me ajudou. Fomos de tuk-tuk até uma lojinha que funciona aos domingos, e lá ele foi meu intérprete. Voltei ao hotel com créditos no celular, mas como é perigoso para um estrangeiro andar sozinho por aí e não encontrei pessoas dispostas a ir passear, acabei ficando no hotel à espera do Zeiter. Resolvi aproveitar a ocasião para arrumar as malas e escrever meu texto anterior para o blog, e quando estava escrevendo ouvi barulho de fanfarra vindo da rua. Olhei pela janela e vi algo muito esquisito: haviam colocado dois postes, desses de linha de chegada de corrida de rua, no meio da pista, e a polícia havia interrompido o trânsito. Diversos motociclistas passaram por entre os postes e seguiram atrás de um carro de polícia pela rua. Atrás deles vieram um ônibus turístico, desses com andar superior aberto, com a fanfarra embaixo e gente em cima agitando bexigas amarelas. Também tinha duas caminhonetes pretas com vidro bem escuro e um caminhão com motocicletas em cima nessa estranha parada, e por fim, fechando o desfile, mais motociclistas, dessa vez trajando roxo. Depois que foram embora retomei minhas atividades, mas uma hora depois comecei a gargalhar ao ouvir novamente o som da fanfarra: sim, estavam voltando, e a dispersão foi em frente ao hotel. As motocicletas foram colocadas em caminhões e levadas embora, enquanto as pessoas foram embora de ônibus. Paradas como essa acontecem em todo o país e se estendem por toda a primavera, especialmente durante o ano novo singalês, que aconteceu em abril.

Um estranho desfile em Colombo.

Um estranho desfile em Colombo.

Depois de almoçar o Zeiter me contatou: estava a caminho. Terminei de arrumar as malas e fiz check-out. Em seguioda fiquei conversando no saguão com um rapaz da Guiné-Bissau, também delegado da WCY, até o Zeiter chegar. Seguimos para Ja-Ela, onde ele mora, e no caminho, pela primeira vez, vi um elefante no meio da rua. Ele mora em um condomínio atrás de uma base da força aérea, perto do Aeroporto Internacional Bandaranaike, por onde entrei no Sri-Lanka. Fui apresentado a todos da família, que são muito simpáticos.
A comida que eu havia experimentado no hotel era, até então, a mais apimentada que eu já havia comido na vida, e eu desconfiava que eles não maneiravam na pimenta por causa dos turistas, como costuma acontecer em hotéis. Engano meu: as pessoas, no dia-a-dia, comem uma comida muito mais apimentada do que a do hotel, e meus primeiros dias em Ja-Ela foram terríveis, cada refeição era um martírio, mas diante da minha dificuldade em engolir a comida começaram a me oferecer pratos em que as partes apimentadas são misturadas no prato, a gosto, e também há alguns pratos singaleles com menos pimenta, mas até no café da manhã se costuma comer sambol, uma mistura de coco ralado com pimenta vermelha e algumas outras especiarias.

Por outro lado estou adorando os chás, e aqui as pessoas bebem chá diversas vezes ao dia. Café também é popular, mas normalmente usam café solúvel. Também se bebe chá com leite, o que é novidade para mim, e os biscoitos são muito gostosos. Aliás, o Zeiter gosta de me levar para visitar os vizinhos, e aqui é costume oferecer comida e chá às visitas. Uma das famílias que visitei me ofereceu o que disseram ser um doce típico do Sri Lanka: era doce de leite feito em casa, parecido com o que temos no Brasil. Também já me serviram rapadura, que não é tão dura nem tão doce como a do Brasil.

Como representante da UEA, estou ajudando o Zeiter com a organização do Congresso Singalês de Esperanto. Já fui com ele à prefeitura convidar autoridades para o evento e também fomos juntos acertar detalhes sobre a locação do salão para o o congresso acontecer. Será o primeiro congresso de Esperanto realizado no Sri Lanka, e alguns estrangeiros virão. O Adeel, que não vejo desde 2012, chegará dia 19. Após experimentar a alegria de ser recebido pela Ĝojo no aeroporto de Hanói, e pelo Dror no de Tel-Aviv, agora estarei do outro lado: irei encontrar o Adeel no aeroporto.

Aqui no Sri Lanka as pessoas cospem no chão, escarram e soltam pum em qualquer ocasião, isso não é considerado nojento nem ofensivo. Outro hábito estranho para mim é a maneira como as pessoas comem: pegando a comida com os dedos. Além disso, fora do meu quarto de hotel nunca vi uma lixeira, e o Zeiter me explicou que aqui o hábito é jogar lixo no chão, e há funcionários da prefeitura que recolhem o lixo das ruas. Nos banheiros normalmente não há papel higiênico nem cesto de lixo, pois as pessoas se limpam com a ducha higiênica (isso sim se acha em qualquer banheiro) e colocam a roupa por cima do corpo molhado.

Além disso os homens costumam usar uma espécie de saia em situações mais informais, e aqui é quente e úmido. Chove quase todo dia, mas normalmente é uma pancada de chuva que dura menos de meia hora, e depois disso o sol volta a brilhar. Porém, o regime de chuvas depende das monções e varia muito ao longo do ano.

Comprei 550MB de internet 3G. Acho que é suficiente para o resto dos meus dias no Sri Lanka, então espero poder atualizar o blog com mais frequencia. Aqui é difícil conseguir wi-fi de graça, e a família do Zeiter só usa 3G porque ele acredita que internet é ruim para a educação dos filhos.

Tráfego em Colombo

Tráfego em Colombo

A maioria das pessoas que conheci em Ja-Ela são católicas, e normalmente têm um altar em casa com estatuetas de Buda ao lado dos santos da igreja católica, e à frente das imagens colocam pétalas de flores e queimam incenso, exatamente como os budistas fazem. É interessante notar essa assimilação de uma forma regional de culto, o que também acontece no Brasil, especialmente no que diz respeito a simpatias (lavar o santo, colocá-lo de castigo, etc.). Quase 70% da população do país é budista, e os hábitos budistas marcam profundamente a cultura local, por isso é compreensível que mesmo seguidores de outras crenças assimilem elementos do budismo.

Ja tivemos uma festinha em casa, com a presença de vários vizinhos. Comemos comida tailandesa comprada em um restaurante aqui perto e bebemos arrak, uma bebida típica, de maçã verde, mas vi que há diversos outros tipos de arrak.

Segundo e terceiro dias da WCY

Escrito por em May 16, 2014 em rafael | Comments Off on Segundo e terceiro dias da WCY

Estou tendo dificuldades para acessar a internet, mas sempre que puder atualizarei o blog.

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Uma coisa que notei na WCY é a desigualdade nas relações norte-sul. Conversando com outros sul-americanos e africanos notei que o sentimento era o mesmo. Isso inclusive foi falado nas reuniões da América Latina. Negociadores normalmente são europeus, e muitos delegados de países do norte se mostraram fechados a debates com pessoas do sul, não todos, é claro, conheci muitas pessoas legais vindas da Europa, simpáticas e abertas ao diálogo, mas era possível notar alguma segregação por parte de alguns grupos extremamente fechados, que interagiam com gente do sul somente nos grupos de trabalho.

Trabalhando no hotel, tarde da noite, após um dia de conferência.

Trabalhando no hotel, tarde da noite, após um dia de conferência.

O evento aconteceu em um centro de convenções enorme, com um monte de auditórios luxuosos, mas as reuniões do grupo da América Latina eram as únicas de um grupo regional acontecendo no pavilhão E, um pavilhão provisório sem isolamento acústico e ainda por cima com eco, o que dificultava muito o andamento dos trabalhos. Também o grupo de trabalho sobre discriminação se reuniu neste pavilhão, e já no primeiro dia ironizamos dizendo que o grupo sobre discriminação estava sendo discriminado por fazer suas reuniões em um local tão ruim enquanto os outros contavam com conforto e acústica adequada. Os grupos de trabalho dos quais participei mais ativamente, o acima citado e também o de Recreação, Esporte e Cultura, foram todos neste pavilhão, e era nele que eu me sentia mais à vontade.

Muitas pessoas tinham grande dificuldade de comunicação, africanos procuravam falar em francês sempre que podiam, e mesmo brasileiros se sentiam mais à vontade falando portunhol com outros latinoamericanos do que usando o inglês que estudaram durante anos. Na plenária do segundo dia assisti a um discurso de um africano em francês e percebi que quase ninguém usava fones de ouvido para ouvir a tradução, ao invés disso, muitos saíram da sala ou ficaram navegando na internet, como se nós do sul nada soubéssemos ou tivéssemos a dizer. Isso me fez lembrar de 2012, quando fui convidado para discursar no encerramento do Youth Blast no Rio de Janeiro. Eu tinha a opção de discursar em português, que era uma das línguas oficiais do evento, mas ao subir no palco e olhar a multidão ao meu redor, notei que somente os latino-americanos tinham fones de ouvido para ouvir tradução do inglês, enquanto a maioria dos europeus e norte-americanos não estava com fones, só se interessavam por ouvir o que era dito em inglês, e foi por essa razão que optei por discursar em inglês. Afinal, acima de tudo queria ser ouvido.

Último dia de negociações em Colombo

Último dia de negociações em Colombo

Essas questões me deixaram muito triste, nos meus relatos sobre a Rio+20 contei sobre diversos casos de discriminação linguística ou problemas de comunicação, mas somente agora me lembrei deste outro problema: em muitos eventos internacionais há intérpretes e equipamentos que nos permitem ouvir os discursos na língua que melhor dominamos, mas por outro lado muita gente, incluindo negociadores da ONU e outras pessoas com grande poder de lobby, só se interessam pelo que é dito em inglễs. A interpretação simultânea é um recurso criado para a inclusão, para dar voz a mais pessoas, mas no fim das contas esta inclusão é ilusória, pois a discriminação continua existindo.

No Grupo de Trabalho sobre Discriminação me senti muito confortável, minhas ideias eram bem recebidas, além da forte interação com pessoas marginalizadas: cegos, negros, pessoas que vivem em sociedades de casta, deficientes físicos, cada um falando de suas dificuldades e causando mais revolta em mim. Sempre tive muito apoio do grupo para lançar propostas referentes a discriminação linguística, mas um funcionário do Ministério de Esporte e Cultura do Bahreim (que, ironicamente, não participou do grupo de trabalho ligado à sua área, e por isso suponho que os interesses dele eram barrar direitos humanos) sempre tentava sintetizar as propostas do grupo em uma redação genérica incapaz de criar perspectiva de mudança.

Também neste dia a Luana, uma ativista brasileira que trabalha com discriminação me convidou para uma reunião informal sobre racismo, castas e outras formas de discriminação. Deixei de ir a uma reunião de um grupo de trabalho para me sentar à mesa com indianos e africanos, incluindo um surdo, e debatemos a versão provisória do documento, buscando melhorar a redação para não nos excluir, e o preconceito linguístico foi inserido. Depois as propostas foram levadas para grupos de discussão oficiais e, se não me falha a memória, também para delegações de alguns países. No dia seguinte veio a boa notícia: foram incluidas menções ao racismo e ao preconceito linguístico na Carta de Colombo.

No terceiro dia do evento acabei deixando de ir à reunião sobre discriminação para ir à do Grupo de Trabalho sobre Empreendedorismo e Pleno Emprego. O motivo para isso foi a oportunidade de conversar com o secretário nacional de juventude do Brasil, que teria uma fala neste grupo. Porém, ele cancelou este compromisso devido à necessidade de continuar participando intensamente das negociações com delegações de outros países e da juventude. Gostei da atitude dele, pois o Brasil me parece ter sido o país que mais ouviu os jovens e melhor defendeu as propostas enviadas pelos grupos de trabalho (para entender como funciona: cada grupo debate um tema e lança propostas à redação do documento. Essas propostas são levadas pelos facilitadores aos negociadores, que se inteiram da posição do grupo, encaminham e defendem as propostas com as delegações oficiais dos países).

Último dia de negociações em Colombo

Último dia de negociações em Colombo

No grupo sobre empreendedorismo e emprego não me senti à vontade para falar, havia muitos europeus que me barravam constantemente. Depois descobri que até tinham uma justificativa: no dia anterior a reunião do grupo regional europeu havia sido muito tumultuada devido à pressão para incluir no texto menções aos ciganos e outros grupos minoritários da Europa, enquanto outros pregavam um texto mais genérico. Talvez isso explique porque toda hora que eu falava algo sobre línguas me cortavam rapidamente e diziam “isso está incluído em (qualquer coisa genérica)”. Mas o fato é que apesar disso, em nenhum momento me senti confortável naquele grupo, senti que não era bem vindo ali, havia alguns europeus monopolizando o debate e cortando os outros, estavam bem introsados entre eles, aparentemente já haviam debatido longamente o que proporiam e só queriam se livrar de propostas “inconvenientes” vindas de quem vinha de outro continente, talvez até de outros europeus com outra opinião.

Irritadíssimo, almocei e fui para minha última reunião do Grupo de Trabalho sobre Recreação, Esporte e Cultura. Na semana anterior um dos organizadores da WCY havia prometido a uma ativista da TEJO me convidar para discursar naquela mesa, mas depois mudou de ideia. De qualquer forma, foi uma mesa excepcional, de altíssimo nível. A última fala foi de uma representante da UNESCO, que discutiu diversas questões ligadas a cultura e que tinham ligação com línguas. Nos mostrou um vídeo em castelhano sobre diversidade cultural e depois pediu desculpas por não ter uma versão em inglês. Abriram a sessão para perguntas e comentários. Pedi a palavra e me deram o microfone. Era o momento de abrir não só a boca, mas também o coração. Momento de botar pra fora aquilo que me revoltava. Comecei parabenizando-a pelo vídeo em castelhano. Como cidadão latino-americano aquilo havia me deixado extremamente contente, e falei sobre a necessidade de se respeitar a diversidade linguística do planeta, adotando em seguida um tom severo para dizer que para nós, latino-americanos, o inglês é sentido como uma forma de imperialismo linguísto imposto pelo norte aos países do sul. É o tipo de discurso que eu evito, para não fortalecer a ideia de que o esperanto é um movimento anti-inglês, pois nossa bandeira é a promoção da diversidade e das trocas culturais através de uma língua mais justa para a comunicação entre pessoas em situações internacionais. Reconhecemos o valor cultural do inglês e o apoiamos como forma de comunicação e expressão cultural dos países anglófonos, o que condenamos é sua imposição, por razões econômicas, aos debates internacionais, dando privilégios aos seus falantes nativos e gerando desigualdade. É essa percepção do inglês como uma imposição injusta que leva latino-americanos a preferirem o portunhol para a comunicação regional, pois somos povos profundamente ligados por uma história em comum de exploração e sofrimento impostos por reinos ibéricos, e é natural sentirmos tanto o português quanto o castelhano (além de qualquer mistura dessas línguas) como parte de uma identidade em comum, até porque possuem uma mesma origem.

Na platéia vi olhares de aprovação: quase ninguém ali era nativo em inglês, a maioria tinha dificuldade para se expressar nessa língua e compartilhava deste meu sentimento. Peguei uma lista de links para documentos sobre cultura e inclusão indicados pela panelista e indiquei mais um: o relatório da UNESCO “Why Language Matters for the MDGs” (Por que as línguas importam para os Desafios do Milênio). Ela respondeu falando de iniciativas de alguns governos sobre promoção de igualdade linguística, destacando o Sri Lanka, onde o ensino é trilíngue (tamil, singalês e inglês), comentou sobre minha menção a este relatório, que ela havia inclusive usado em discussões anteriores, durante o andamento dos trabalhos visando a elaboração da versão zero da Carta de Colombo. Nos separamos em grupos de trabalho, depois nos reunimos novamente para uma discussão final (já não havia mais tempo de submeter nossa conclusão à apreciação das delegações, mas nossas conclusões foram encaminhadas para se tornarem um possível anexo) e ela veio conversar comigo, agradecendo a minha intervenção. Trocamos cartões de visitas.

Festa de encerramento da WCY

Festa de encerramento da WCY

Na mesma reunião uma moça veio conversar comigo, dizendo conhecer pessoas da TEJO. Não só ela, mas também no ônibus, no hotel, em diversos lugares encontrei gente que conhece e elogia o trabalho da TEJO. O dia que começou mal terminou maravilhosamente bem, com a Luana me contando o resultado da nossa mobilização. Fui assistir um pouco das negociações e vi o Brasil fazer uma proposta em favor das mídias sociais, o que também foi do meu agrado, já que atuo nessa área com a Muzaiko. Extremamente cansado, mas também aliviado, ia para o hotel descansar, mas me avisaram de uma festa de encerramento na frente do prédio principal. Tive pique para ficar um pouco na festa, que estava bem animada. Dancei com gente de todo canto e singaleses pediam para tirar fotos comigo. Cheguei ao hotel tarde da noite para dormir e acordar cedo no outro dia, quando tomei café da manhã com pessoas que haviam acabado de chegar após passarem uma noite inteira dançando.

Primeiros dias no Sri Lanka

Escrito por em May 8, 2014 em rafael | 2 comentários

Após quase 15 horas de vôo aterrisei em Abu Dhabi. No portão de embarque para Colombo vi um rosto conhecido: a Débora, minha colega na Coalisão da Juventude Brasileira pelo Pós-2015, e com ela estava também o Diego, outro ativista da coalisão, com quem eu já havia trocado e-mails. Ficamos conversando durante a hora e meia de atraso para embarque. Muito cansados chegamos em Colombo e encontramos o Alexandre, da Secretaria de Juventude de Minas Gerais. Ficamos mais uma hora esperando o ônibus que nos levou até o hotel.

No hotel, mais espera: estavam arrumando os quartos. Cansado, precisando de um banho e de dormir, só me restou matar a fome com o deliciosos café da manhã que me esperava. Porém, a comida aqui é extremamente condimentada, e só agora estou aprendendo quais pratos posso comer sem ficar com a boca ardendo. Colocam Curry em quase tudo. Diversas pimentas e pimentão também são muito usados na culinária local e, claro, a canela, nativa do Sri Lanka.

Dança típica do Srilanka, com uso de tochas. Ao vivo em um programa de TV.

Dança típica do Srilanka, com uso de tochas. Ao vivo em um programa de TV.

Os voluntários que trabalham neste evento são muito prestativos e os singaleses em geral são extremamente simpáticos. O país todo está enfeitado com bandeiras do WCY e de todos os países do mundo, a mídia local dá muita atenção ao evento. E há um bom motivo para isso: o Sri Lanka vivia uma guerra civil até 2009, e em 2010 o país se candidatou para sediar este evento, que desde então vinha sendo preparado, acabou virando símbolo de uma nova página na história do país. O investimento feito na juventude é realmente impressionante.

No dia 5 fomos a uma apresentação cultural no Stein Studios. Ao chegar lá descobri se tratar de um estúdio de televisão, e quando entrei no auditório já estávamos ao vivo para o país todo. No dia seguinte viajamos para outra cidade, onde a abertura do evento aconteceu em um centro de concenções enorme recém-construído. Lá, assim como no Stein Studios, fomos recepcionados por artistas tocando música. Subimos uma escadaria imensa cercados de músicos em trajes típicos e mulheres segurando as bandeiras dos países. Dentro do prédio, mais moças em trajes típicos faziam a saudação típica do país, curvar-se com as palmas das mãos unidas, para dar as boas vindas. Tivemos que esperar algum tempo até a chegada do presidente do país, e então tivemos a cerimônia de abertura, também transmitida pela TV.

Depois disso almoçamos com o presidente e, durante a viagem de volta, nosso comboio parou na beira de uma praia, onde nos esperávamos com comida e música. Imaginem uma balada na beira da praia com todo mundo trajando gala ou roupas étnicas. Foi isso que aconteceu.

Discurso do presidente do Sri Lanka na cerimonia de abertura da Conferência

Discurso do presidente do Sri Lanka na cerimonia de abertura da Conferência

No dia 7 conheci o Dinesh, esperantista local. Ele foi até o local da conferência e me telefonou para nos encontrarmos, mas como agora fico o dia todo em plenárias e mesas redondas, não deu para conversarmos muito. Este foi o primeiro dia da conferência propriamente dita, com discussões acerca do passado: um balanço do que foi feito até aqui, especialmente sobre os Desafios do Milênio. No dia 8 a discussão é o agora, o que temos, o que podemos fazer, e por fim, no terceiro dia, se discutirá o futuro que queremos e quais as metas para chegar lá.

Talvez por se tratar de uma conferência menor e mais restritiva que a Rio+20, o nível de inglês da maioria dos participantes é melhor, mas mesmo assim é possível perceber que os falantes nativos estão em vantagem, bem como que asiáticos e africanos têm muito mais dificuldade com a língua. Nas plenárias há interpretação simultânea em seis línguas. Conheci alguns africanos que só conseguem se comunicar em francês, conheci um rapaz de Cabo Verde e uma moça da Argentina que falam bem o português, e mesmo os latino-americanos que dominam o inglês preferem se expressar em castelhano sempre que possível, aliás, todo dia há reuniões de grupos de trabalho regionais, e o grupo da América Latina decidiu usar o castelhano como língua de trabalho, permitindo a muitos expressar com facilidade o que não conseguem nas outras reuniões.

Notei também um problema grave: no meu primeiro grupo de trabalho de hoje, sobre discriminação, consegui colocar o tema “políticas linguísticas” em uma lista de temas não contemplados pelos Desafios do Milênio. Outras pessoas deram outras contribuições interessantes sobre outros temas, e no fim essas demandas foram endereçadas como “”direitos humanos”. Ou seja, após serem discutidas formas de discriminação que demandam políticas específicas, o que atravessa o filtro é que os Desafios do Milênio pouco contemplaram os direitos humanos. E a partir daí é possível se pensar em uma agenda que contemple direitos humanos sem contemplar essas demandas específicas. Se fizeram isso no grupo sobre discriminação, imaginem o que podem fazer, por exemplo, no grupo de segurança alimentar? Todo mundo levanta a bandeira de agricultura familiar e o fim dos transgênicos, daí isso é encaminhado como “investir em novas formas de produção agrícola” e surge uma meta que resulta em subsídios ao latifúndio e envenenamento da terra e dos rios. Estamos tentando convencer a ONU a aceitar que uma das metas do Pós-2015 seja escolhida exclusivamente pela juventude, o que é excelente. Porém, rumores sobre uma possível privatização desta nova agenda são cada vez mais frequentes, devido ao poder de lobby das grandes corporações que ganham cada vez mais espaço nos debates internacionais.

Mas então o que estamos fazendo aqui? Será tudo em vão? Apesar de tudo acho que temos sim que nos dedicar ao máximo. Trabalhamos pelo que é justo, pelo bem das futuras gerações, e devemos preencher da melhor forma possível cada espaço que nos foi dado. A participação da sociedade civil junto à ONU e aos governos é uma árdua conquista, e infelizmente esses espaços são muitas vezes subaproveitados. Independente de quais propostas serão efetivamente adotadas, bem como descaracterizadas para atender a interesses alheios, um dia, quando nos perguntarem o que fizemos, poderemos responder que fizemos o nosso melhor. Não conseguir mudar o mundo não é um fracasso, o fracasso é não tentar, e fracasso maior ainda é tirar proveito das desigualdades. Eu detestaria estar na pele de quem faz isso.