Congresso Italiano de Esperanto

Escrito por em Aug 8, 2013 em Blog, rafael | 265 comentários

O meu curso começou na sexta-feira. Foi a única coisa que teve na sexta, já que o congresso teve início no sábado. Trata-se de um curso de capacitação de professores de esperanto, e que também pode contar créditos para eventuais cursos futuros que eu venha a fazer. Como trata-se de um curso que fornece certificado, é necessário cumprir 50 horas, e por isso fico o dia todo tendo aulas. O curso é de altíssimo nível, ministrado pela profa. Dra. Katalín Kováts, que é muito conceituada nessa área e há pelo menos uns dez anos trabalha com treinamento de professores de esperanto e aplicação de exames de proficiência em esperanto (KER-Ekzamenoj, emitidos pelo ITK, instituto húngaro que atesta proficiência em línguas, uma instituição muito conceituada em toda a Europa). Conheci a Katalín en 2011, em São Paulo, quando fiz exame de proficiência para o nível C1. No ano passado ela foi a primeira pessoa conhecida que encontrei em Hanói (sem contar as que encontrei no aeroporto ao desembarcar) e veio me parabenizar pelo meu trabalho na Rio+20.

Almoço com Paul Gubbins

Almoço com Paul Gubbins

O curso é de altíssimo nível. Eu não imaginava que fosse algo tão bom e com tal nível de organização e profissionalismo, está sendo ótimo, estou aprendendo muita coisa e, claro, estou ficando muito cansado também, pois tenho aulas durante o dia todo, depois do jantar acontecem shows, e depois dos shows temos eventos para a juventude que vão pela madrugada. Imaginei que seria maçante tantas horas de aula todo dia, mas está sendo gostoso, as aulas são realmente muito interessantes, temos muitas atividades lúdicas, práticas (já tivemos até aula de francês, ministrada por Sylvain Lelarge, que auxilia a Katalín com as aulas, para experimentar a realidade do aluno ao aprender uma língua) e pausas para ir ao banheiro, tomar café e esticar o esqueleto.

Alunos de cursos em esperanto costumam vir de diversos países, e aqui não é diferente: somos sete alunos de seis nacionalidades. Nenhum italiano. Não conhecia nenhum dos meus colegas, mas nos enturmamos rapidamente. Na hora do almoço temos uma mesa reservada, pois precisamos comer rápido para voltar para o curso, e a Katalin cada dia traz um convidado especial para almoçar com a gente: no primeiro dia foi Paul Gubbens, autor de diversos livros didáticos e outros materiais. No segundo dia almoçamos com o Sylvain, o mesmo que ministrou a aula de francês, e no terceiro dia foi a vez de Humphrey Tonkin, ex-reitor da universidade de Hartford, nos EUA, e um grande esperantista.

Após uma primeira impressão negativa do povo italiano, vou aos poucos relativizando a questão. Eles costumam ser estúpidos em algumas situações, mas extremamente gentis em outras. Certa noite, ao subir a montanha em direção ao vilarejo, um italiano em um pequeno triciclo de carga me ofereceu carona e foi muito simpático. Nas ruelas e estradinhas as pessoas costumam conversar animadamente, acho que Adoniram Barbosa se referia a um hábito tipicamente italiano quando cantou “conversar sobre isso e aquilo, coisas que nós não entende nada”. Castellaro é uma cidade cheia de idosos que querem sossego, só não sei como eles fazem para comprar comida e outras coisas de que necessitam, pois no vilarejo falta quase tudo, meus companheiros de moradia tiveram que ir de carro até a cidade vizinha para fazer compras em um supermercado.

Uma coisa que me chamou a atenção é que muita gente aqui é fã do Roberto Carlos. Um cantor esperantista, Emanuele Rovere, cantou versões em esperanto de algumas canções do compositor brasileiro, depois fui para a casa e estavam falando sobre o Roberto Carlos na televisão. Também ouvi Roberto Carlos em alemão nas ruas de Hamburgo (onde também ouvi uma versão alemã de “O Pintinho Piu”).

Na abertura do congresso eu saudei os participantes em nome do Brasil, assim como fiz em Reykjavik. Algumas palestras do congresso tem a ver com o que estudamos no curso, e por isso a Katalin encaixou uma palestra no programa do curso, de Humphrey Tonkin, sobre Shakespeare. E foi ótima. Outro momento marcante foi quando passei ao lado de um rapaz e ele se surpreendeu e disse “Rafael?”. Olhei para o rosto dele e o reconheci: Guillaume Armide, o Gjom, uma das revelações da música esperantista nos últimos anos, e além disso um grande ativista, que descobriu o esperanto ao ler o parágrafo 14 da Declaração de Compromissos Éticos das ONGs, elaborada durante a Eco92, que recomenda o uso e difusão da Língua Internacional. Por acaso eu estava usando a camiseta da Rio+20, cujo design gráfico foi feito por ele, e ele finalmente pôde ver ao vivo o resultado de sua criação. Sempre estivemos em contato via internet e aqui nos conhecemos pessoalmente.

Kimo e Gjom se apresentam na praça do vilarejo

Kimo e Gjom se apresentam na praça do vilarejo

Depois do jantar há shows, cada dia um diferente. Os dois primeiros, do Kimo e do Gjom aconteceram na praça central do vilarejo, onde também acontecerá o último, do Kapriol’ na sexta-feira. A população local foi em peso para a praça ver as apresentações de música em esperanto. Os shows foram excelentes, pudemos apreciar o talento do Kimo na sanfona e o do Gjom no piano. Além disso, os dois tocaram juntos e foi muito legal. O Kimo encantou a população local pela sua animação, seu jeito divertido. Já o Gjom, além de ser extremamente simpático, saudou a população local em italiano. Na sexta-feira o Kapriol’, grupo holaandês que faz música de excelente qualidade, encerrará com chave de ouro a programação artística do congresso.

Um fato curioso a respeito dos congressos italianos de esperanto é que, como a Itália é um país extremamente católico, há uma missa em esperanto como parte da programação do congresso (obviamente, ninguém é obrigado a participar e muitos congressistas não são católicos). Um dos meus colegas de curso é um padre espanhol, homem muito culto, que domina diversas línguas e leciona teologia. No Brasil muita gente associa o esperanto à doutrina espírita, afinal foram espíritas que iniciaram a divulgação do esperanto no Brasil, e atualmente cerca de um terço dos esperantistas brasileiros são espíritas, mas o esperanto é língua, e obviamente uma língua não tem a ver com crenças religiosas, pois se destina à comunicação.

Na quarta-feira houve excursões. Visitei Gênova, cidade que em seus tempos de glória foi riquíssima, hoje é um retrato da decadência da Itália, com suas ruas imundas cheias de mendigos e diversos prédios à venda ou aguardando inquilinos que não aparecem. Visitamos o aquário, o galeão onde foi filmado o filme Piratas, de Polanski, e depois passeamos pelo centro histórico, visitando prédios antigos e belas igrejas.

Parte da mesa com comes e bebes de diversos países

Parte da mesa com comes e bebes de diversos países

Outra coisa interessante foram os programas com comes e bebes que tivemos ao longo do congresso: uma noite internacional, na qual pessoas de diversos países trouxeram pratos e bebidas típicos de seus países para experimentarmos, e a Noite da Liguria, na qual degustamos comidas típicas da região da Itália onde estamos e, claro, bebidas também. Por aqui há licores, alguns bem inusitados, além de diversos vinhos.

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