Congresso Singalês de Esperanto

Escrito por em May 31, 2014 em rafael | 265 comentários

Congresso Singalês de Esperanto

 O prolongamento da minha estada no Sri Lanka se deu em função do primeiro Congresso Singalês de Esperanto. Apesar de ter sido um evento modesto, é um marco na história do movimento esperantista no Sri Lanka, e me orgulho de ter feito parte disso. Sendo conselheiro da UEA, naturalmente representei a UEA no país durante o período em que lá estive, conversei com esperantistas locais e busquei diagnosticar a situação do movimento esperantista no Sri Lanka, agora farei um relatório para a UEA e a TEJO.

Foto oficial da abertura do 1° Congresso Singalês de Esperanto

Foto oficial da abertura do 1° Congresso Singalês de Esperanto

O Adeel foi enviado para o Sri Lanka pelo KAEM – Comissão Asiática do Movimento Esperantista, uma espécie de departamento da UEA para a Ásia, e ficará no país por mais algumas semanas, visitando esperantistas e clubes em algumas cidades, e também ministrando cursos e palestras.

Na abertura do congresso o Adeel leu a mensagem do diretor da UEA e presidente do KAEM, Lee Jungkee, que infelizmente não pôde comparecer pessoalmente, e eu falei em nome da TEJO e do movimento esperantista brasileiro. O prefeito de Ja-Ela participou da cerimônia de abertura e acendemos uma tocha, tradição em qualquer evento no Sri Lanka: há diversos pavios embebidos em óleo e cada uma das autoridades presentes acende um dos pavios. Na abertura da WCY vi o acendimento da tocha e não entendi por que raios estavam fazendo isso, agora entendo. Aliás, participar da organização do congresso me ajudou a conhecer melhor a cultura singalesa: tivemos que entregar convites por escrito aos convidados e oferecer comes e bebes aos participantes, coisa que não é comum no exterior. Aliás, durante a WCY o governo do Sri Lanka nos dava quatro refeições diárias, fora o café da manhã incluído na diária do Hotel, tínhamos chá de manhã, almoço, chá da tarde e jantar), mas não imaginei que isso fosse uma característica da hospitalidade singalesa.

Momento em que acendi a tocha em nome da TEJO.

Momento em que acendi a tocha em nome da TEJO.

Durante a WCY recebi e-mails dos diretores da UEA solicitando minha ida imediata a Ja-Ela após o fim da conferência para averiguar a situação, já que estavam tendo dificuldades para contatar o Zeiter. Ao chegar à casa dele e tomar conhecimento da situação, percebi que estava tudo sob controle. Desde então passei a intermediar o contato entre UEA e Zeiter, já que ele não está habituado à internet.

O Stefan Keller, atual diretor de relações exteriores da UEA, morou algum tempo no Sri Lanka há 30 anos, quando ensinou esperanto para muita gente. Infelizmente o projeto não teve continuidade e o país não chegou a ter um movimento organizado, mas atualmente há, além da Associação Singalesa de Esperanto, que pretende se filiar à UEA, alguns clubes locais. O maior problema que constatei foi a falta de colaboração entre esses grupos, e estamos avaliando as causas disso e o que fazer para haver maior colaboração. Por outro lado, fiquei muito feliz em constatar o interesse dos jovens pelo esperanto: a grande maioria dos singaleses interessados na língua ou mesmo engajados no movimento têm idade na faixa dos 20 anos.

O fim da guerra e a abertura econômica renderam ao Sri Lanka o epíteto “Milagre da Ásia”. É um país de grandes contrastes, onde miséria e desenvolvimento aparecem lado a lado, e me recordo bem de ter visto uma favela sendo demolida, enquanto ao lado várias casas populares novinhas estavam sendo construídas. Nas ruas, a iluminação pública é feita com lâmpadas fluorescentes iguais às que a gente tem em casa, e faltam calçadas, mas ao mesmo tempo vi operários instalando guia rebaixada em frente a uma faixa de pedestres, vi um hospital recém construído, ambulâncias novas, enfim, o país está se desenvolvendo e conseguindo resolver seus problemas aos poucos, e é bom ver isso, mas por outro lado nunca vi tanta miséria, e isso choca, revolta, faz a gente sentir vergonha de ser humano.

E o tema do congresso foi justamente “Esperanto no Milagre da Ásia”. Achei muito apropriado, pois precisamos pensar em como podemos ajudar o povo singalês. Como fazer? O que fazer? Estamos discutindo, aliás, acabamos de criar um grupo de trabalho específico para acompanhar o movimento esperantista no Sri Lanka, mas é fato que os jovens singaleses têm curiosidade sobre o mundo, se interessam por outras culturas, querem viajar, fazer intercâmbio, e para isso o Esperanto pode ajudar muito, tanto é que todas as minhas viagens internacionais estiveram ligadas ao esperanto.

Autoridades presentes na abertura do evento: Rafael H. Zerbetto (TEJO), Adeel Butt (KAEM/UEA), Anju Perera (Prefeito de Ja-Ela) e Zeiter Perera (Presidente da Associação Singalesa de Esperanto)

Autoridades presentes na abertura do evento: Rafael H. Zerbetto (TEJO), Adeel Butt (KAEM/UEA), Anju Perera (Prefeito de Ja-Ela) e Zeiter Perera (Presidente da Associação Singalesa de Esperanto)

Porém, a tarefa é bem complicada. A paz no Sri Lanka ainda está por um fio, senti uma certa tensão no ar, basta uma autoridade fazer um comentário infeliz e pode surgir uma guerrilha. O governo atua como mediador de conflitos, gasta muito com a promoção da diversidade étnica do país, e talvez os altos investimentos na juventude sejam justamente para promover integração, o que é de extrema importância, já que entre os adultos muitas vezes há um sentimento de desconfiança com relação a vizinhos que apoiaram o lado oposto na guerra.

É importante lembrar que a guerra civil no Sri Lanka foi causada essencialmente pela discriminação da minoria tamil, e o passo mais importante na resolução do conflito foi a adoção da língua tamil como segunda língua oficial do país e seu ensino nas escolas. Embalagens, placas de trânsito, documentos oficiais, tudo tem que ser bilíngue, e mesmo assim a situação é delicada. Muita gente caçoa de mim quando digo que o Esperanto foi perseguido por diversas ditaduras ao longo do século XX, pois no Brasil realmente isso pode parecer ridículo, nossa realidade linguistica é bem diferente, mas no Sri Lanka senti na pele o que é ser visto com desconfiaça por defender uma lingua neutra para a comunicação entre falantes de línguas diferentes, pois lá o equilíbrio linguístico é frágil e os singaleses têm medo.

Apesar disso, o governo do Sri Lanka está impondo o inglês como terceira língua do país. Esse idioma é de ensino obrigatório em todas as escolas do país, há incentivo à prática da língua, mas os resultados são catastróficos: pensar que colocar jovens nativos em diferentes línguas para conversar em inglês os tornará falantes fluentes é uma ingenuidade tremenda, pois uma língua nacional nutre e expressa uma cultura nacional, por isso só se pode adquirir alto nível de fluência na língua tendo um íntimo contato com sua cultura, muito diferente da singalesa, daí nota-se a dialetização do inglês no Sri Lanka, como por exemplo, no hábito de perguntar a idade de alguém com “how much” (quanto custa) ou “how much you” (quanto custa você).

Além disso, no primeiro dia da WCY uma garota inglesa, em uma conversa de ônibus, comentou a maneira como os singaleses dizem “blue-tooth”: ouve-se blu-tu, blu-too, blu-two, blu-toon e por aí vai. No Esperanto temos a vantagem da gramática ser mais regular e os fonemas serem mais fáceis de identificar.

Outra desconfiança é com relação a religião. Desde a abertura econômica muitos missionários religiosos tẽm ido para o Sri Lanka, muitas igrejas dão dinheiro para famílias pobres em troca de participação nos cultos, até que elas acabam sendo convertidas e saem querendo converter os outros, e isso tem gerado reclamações por parte dos budistas, cada vez mais assediados por essas seitas, que normalmente se disfarçam de instituições de caridade, dizem querer promover a paz, ajudar o povo, e no fim só querem converter gente. Justamente por isso muitos jovens com os quais conversei sobre o Esperanto me perguntaram diversas vezes se constituímos uma religião, mas esse obstáculo à divulgação do Esperanto no país pode ser vencido com facilidade, uma vez que há duas resoluções da UNESCO em favor do Esperanto, reconhecendo seu valor cultural e solicitando aos países-membros colaboração para popularizá-lo.

No próximo texto contarei como foi meu último dia no Sri Lanka. Visitamos Negombo.

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