Como surgiu?

Como surgiu?

O esperanto é uma língua auxiliar para a comunicação internacional, de aprendizado rápido e fácil. Iniciado em 1887 pelo médico polonês Dr. Lázaro Luís Zamenhof, é amplamente utilizado, em escala mundial, tanto em congressos internacionais quanto em redes sociais, como o Orkut e o Facebook. É essencialmente um idioma neutro, isto é, que não pertence a nenhuma nação, e por isso é um eficiente instrumento para a preservação de todas as línguas e culturas do globo e para a promoção da igualdade entre os povos. A principal proposta do esperanto é a de que cada povo continue a falar sua própria língua materna e possa, conjuntamente, fazer uso de um idioma neutro nas comunicações internacionais.

Apesar de seus mais de 120 anos de existência, ainda hoje, porém, muitas pessoas se perguntam o que vem a ser o esperanto, e aquelas que já ouviram falar dele geralmente têm ideias preconcebidas que muitas vezes não condizem com a realidade.

Hoje, o esperanto é, acima de tudo, uma língua viva. É um instrumento de comunicação entre pessoas, com história, cultura e evolução, usado diariamente para o tratamento dos mais diversos assuntos, por uma comunidade ativa e consideravelmente grande. ontem, porém, podemos também dizer que o esperanto era, de fato, um projeto de língua internacional.

Por que isso? Primeiramente porque, tendo surgido como projeto, o esperanto é uma língua “criada”, isto é, teve suas bases pensadas por pelo menos uma pessoa, que definiu regras gramaticais, palavras, fonética e tudo o mais que um língua precisa para funcionar. No caso do esperanto, esta pessoa foi o jovem médico polonês Luís Lázaro Zamenhof, que, em 1887, quando tinha apenas 28 anos, apresentou ao mundo uma brochura em russo que ensinava o idioma. E por que “de língua internacional”? Porque sua proposta é a de que o mundo utilize uma mesma língua, neutra, para a comunicação entre países, sem que cada nação deixe de cultivar seus próprios idiomas e sua riqueza cultural. – Não à toa, um dos motes do chamado movimento esperantista é: “para cada povo sua língua, e para todos os povos o esperanto”.

Esta ideia, mesmo tendo sido lançada em uma Rússia problemática e censória, em menos de uma década já possuía livros didáticos em pelo menos polonês, alemão, francês, inglês, tcheco, sueco, italiano e português, além do russo e do próprio esperanto, tendo atingido diversos pontos da Europa. A partir de então, já se formava uma comunidade que usaria o esperanto para comunicação, produção literária e viagens. Esta comunidade, formada por homens e mulheres, trabalhadores da linha de frente e intelectuais, católicos e judeus, políticos, militares e civis, foi a primeira responsável por dar, àquele projeto, vida, retirando-o do estado de simples proposta e levando-o para o estado de uso, produção e constante transformação. Portanto, já nas primeiras horas, o esperanto não era mais fruto do pensamento de um único homem, mas de todos que dele faziam uso e para ele contribuíam, constituindo-se aí a primeira fasa da língua viva dos dias de hoje.

Por que Zamenhof “criou” o esperanto?

É justo perguntar-se sobre o que teria levado Zamenhof a “criar” o esperanto. Diversão? Necessidade? Que ideias ou situações levariam alguém a pensar num projeto de língua internacional e outros tantos a aceitá-lo?

Antes de tudo, é necessário dizer que a ideia do esperanto não é original, seja no aspecto de comunicação internacional, seja no aspecto de língua planejada. Muitos idiomas já serviram ou servem de língua internacional ou língua franca, como foi o caso do grego, do latim e do francês e como é o caso do inglês, atualmente. Além disso, a história humana é repleta de exemplos quanto à tentativa de se criar novos idiomas ou quanto à apresentação de projetos completos, muito antes e mesmo depois do surgimento do esperanto.

No que diz respeito ao esperanto, uma das mais forte razões de seu surgimento está relacionada a eventos da infância de seu autor e é de natureza extremamente humana. Zamenhof, de família judaica, nasceu numa Polônia bastante conturbada, na época um território do império russo. Sua cidade-natal, Bialistoque, era uma verdadeira Torre de Babel, com grupos falantes de diversas línguas, dentre elas o russo (língua oficial do império), o polonês (língua dominante local) e o ídiche (língua comum entre os judeus). Em casa, sua mãe dirigia-se a ele usando o ídiche. Já seu pai, o russo, língua pela qual também se deu a educação de Zamenhof. Nas ruas, o polonês também era utilizado, assim como o alemão. No entanto, essa diversidade não existia numa realidade colorida. Pelo contrário, reinavam desconfianças e preconceitos. As pessoas eram definidas pelas línguas que falavam, e pessoas de diferentes grupos normalmente não deveriam relacionar-se umas com as outras. Cenas de ódio e violência, especialmente de autoridades e soldados russos, eram comuns contra poloneses e principalmente judeus. Esse cenário fez nascer questionamentos dentro do jovem Zamenhof, ainda quando criança, que se perguntava se aquele quadro não seria melhor se as pessoas falassem apenas uma língua.

Sem dúvida, aquela era uma ideia que, mesmo hoje, pode ser vista como ingênua por muitos. Mas, na mente de uma criança, ela teve o terreno necessário para desenvolver-se. A princípio, Zamenhof considerou que todos poderiam usar o russo desde o berço, mesmo sendo aquela a língua de seus algozes. Porém, ele logo percebeu que ninguém aceitaria aquilo, pois o russo era o símbolo da dominação do império, e suscitaria as piores reações. Da mesma forma, uma outra língua, como por exemplo o alemão, não seria aceita por outros povos, porque cada povo mantém o orgulho de sua cultura e idioma. Além disso, se todos adotassem uma única língua, a riqueza cultural de cada grupo rapidamente desapareceria, o que seria uma grande perda para toda a humanidade. Portanto, uma língua comum necessariamente deveria ser uma segunda língua para todos, e não a primeira. Essa segunda língua, todavia, deveria fomentar entre os grupos a compreensão e, não, servir de barreira e fonte de desconfianças. Na verdade, o próprio russo já fazia as vezes de língua franca, porém de nenhuma maneira servia como um instrumento de comunicação verdadeira, de coração para coração, de união entre homens e mulheres, pela própria carga histórica e cultural do momento. Uma segunda língua, para este fim, deveria ser uma língua neutra.

Uma língua nacional adotada para este fim não teria esta característica. Em se adotando a língua “A” como língua comum, os falantes desta língua sempre estariam em vantagens nas discussões internacionais, pois a conhecem do berço, colocando os outros povos em situação de desigualdade. Além disso, certos povos nutrem sentimentos pouco amigáveis em relação a certas línguas, o que não estimula o espírito de compreensão necessário às rodas internacionais. A solução para este dilema era, talvez, adotar-se uma língua dita morta, como o latim ou o grego, já antes vastamente utilizados para aquele fim. Estas línguas guardavam certa neutralidade e até poderia ter boa aceitação, porém também aí Zamenhof logo percebeu que línguas como o latim e o grego eram por demais rebuscadas, repletas de regras e excessões, que as tornavam instrumentos para grandes intelectuais, mas inadequados para o homem comum, para os trabalhadores do dia-a-dia. Ainda que as sociedades readotassem o latim ou o grego como idioma comum e os imbuísse de uma espírto de abertura à compreensão, dificilmente este espírito atingiria as grandes massas, que provavelmente continuariam a sofrer com seus próprios sentimentos de preconceito e desconfiança.

Foi aí que lhe veio a ideia de criar um idioma. A crianção de uma idioma atendia a todas as necessidades previstas. Um idioma criado seria necessariamente neutro. Não pertencendo a povo algum, não suscitaria reações adversas, poderia ser facilmente aceito e poria a todos em situação de igualdade. Além disso, ao criar-se um idioma, aparecia junto a chance de fazê-lo simples, regular, sem excessões e, por isso, acessível a todos. E, ainda, sua proposta poderia ser imbuída com a ideia e a necessidade de compreensão entre os mais diferentes grupos e da resolução de problemas essencialmente por meio da comunicação.

Com base nestes pensamentos, Zamenhof deu seguimento à criação de uma língua internacional neutra. E já aos 19 anos ele chegou ao fim de seu projeto, fato comemorado ao lado de seus jovens amigos. O cenário na Rússia, entretanto, não era de comemorações. Reinavam, ainda, violência e censura. Por isso, o seu próprio pai, que trabalhava como professor (e mais tarde censor) para o império e que antes via a coisa apenas como uma ideia de jovens, aconselhou o filho a parar com aquilo e dedicar-se a algo mais útil e seguro, pelo menos até que chegassem tempos mais pacíficos. Aceitando os conselhos paternos, Zamenhof mudou-se para Moscou, onde começou os estudos de medicina.

Porém, os pensamentos em torno da ideia de uma língua internacional nunca o abandonaram. Uma vez, em retorno ao lar, perguntou a mãe onde estavam suas anotações, o projeto completo ao qual ele já havia chegado, e esta, com grande pesar, teve de lhe informar que seu pai se desfizera de todos os seus papéis. Decepcionado, Zamenhof considerou-se livre do acordo que antes firmara com o pai, e recomeçou a trabalhar em sua ideia.

Neste meio tempo, muito aconteceu. Em 1880, a Europa presenciou o lançamento de uma proposta coincidentemente muito semelhante ao que viria a ser o esperanto, com o Padre Johann Martin Schleyer, na Alemanha, apresentando o volapük, um idioma neutro para ser usado na comunicação entre os povos. Segundo biógrafos, Zamenhof aprendeu o volapuque, mas apenas após ter concluído as bases do esperanto, lançado mais tarde em 1887, pois as notícias sobre o volapuque demoraram a chegar ao território da Polônia. No entanto, muitos grupos da época aprenderam o volapuque já nos primeiros anos de seu lançamento e até realizaram alguns congressos internacionais. Apesar deste sucesso inicial, Zamenhof não desistiu de apresentar sua proposta, pois ela diferia do volapuque em pelo menos um aspecto: simplicidade.

Em 1885, Zamenhof finalmente terminou seus estudos, especializou-se em oftalmologia e mudou-se para uma vila para exercer sua profissão. Neste momento, a proposta do esperanto já estava praticamente pronta, mas lhe faltavam recursos para publicá-la. Em 1886, o jovem judeu polonês conheceu, então, a mulher que se tornaria sua esposa, Clara Sofer Zilbernik. E, com a essencial ajuda desta, moral e inclusive financeira, em 1887, lançou a brochura que apresentava o esperanto ao mundo.

Nesta data, sete anos após seu lançamento, a estabilidade do volapuque começava a diminuir, pois surgiam propostas de reforma e simplificação que não eram aprovadas pelo seu criador. A chegada do esperanto, ainda que sem intenção, surgiu como a causa final da queda do volapuque, pois o esperanto superava-o em alguns aspectos, dentre eles facilidade, simplicidade e, principalmente, liberdade de uso, pois já nas primeiras linhas de sua brochura, Zamenhof declarava ser aquela obra completamente livre, pois uma língua não pertence a uma pessoa, mas a todos que a usam – uma filosofia semelhante a que só veio a se popularizar praticamente um século depois, com os exemplos recentes do Creative Commons e da Wikipedia.

Diante disto, além de angariar novos interessados, o esperanto contou com a adesão dos que já haviam aprendido o volapuque. Esta comunidade não se restringia a meros aprendizes e interessados, mas contava com cientistas e escritores que em menos de uma década já produziam obras originais e traduções das mais diversas naturezas, de poemas a artigos. Leão Tolstói, grande escritor russo, está entre os primeiros a aprender o idioma, e Antônio Grabowski, engenheiro químico prusso, entre seus primeiros poetas.

Por este motivo, na referência especializada, os autores preferem referir-se a Zamenhof não como o criador, mas como o iniciador do esperanto. Isto porque uma língua não pode ser criada por um único homem, já que uma língua é essencialmente fruto do uso e contribuição de diversos espíritos humanos. E a língua mesmo também tem que possuir um espírito, uma ideia e uma cultura que lhe dêem significado. No caso do esperanto, este espírito é o da comunicação internacional justa e igualitária, sem favorecimento de um ou outro grupo, com esforços de compreensão e o compromisso da resolução de conflitos essencialmente por meio do diálogo.

Foi neste sentido que o esperanto se desenvolveu e tornou-se uma língua.

3 respostas para “Como surgiu?”

  1. MARISA DELLSANTO says:

    JA CONHECIA ALGO SOBRE A LINGUAGEM ESPERANTO E QUERO CONHECER MAIS .COMO FAÇO PARA APRENDER.OUVI FALAR QDO PRATICAVA O REIKI, EM UM LOCAL DE ATENDIMENTO AO PUBLICO.CHAMADO LUZ DO REIKI,UMA ONG.ESPERO RESPOSTA OBRIGADO

  2. Enivaldo says:

    Olá, Marisa!
    Parabéns pelo seu interesse a respeito do Esperanto.
    Dependendo da sua cidade, pode haver aí mesmo curso presencial de Esperanto, entretanto, vc pode acessar os links a seguir e baixar excelentes cursos de Esperanto: http://www.kurso.com.br ou, então, lernu.net. Boa sorte!

Deixar uma resposta

Your email address will not be published. Required fields are marked *