“Aprender muitas línguas” (segundo Nietzsche)

“Aprender muitas línguas”  (segundo Nietzsche)

Um dos últimos grandes pensadores da humanidade a prever e defender uma língua internacional (depois de Voltaire, Descartes, Leibniz, entre outros) foi Friedrich Nietzsche, em um trecho profundamente inspirado de obra publicada apenas nove anos antes de L. L, Zamenhof (Doutor Esperanto) publicar a sua Internacia Lingvo. O trecho aborda de forma lúcida e categórica o real significado e as nefastas implicações do poliglotismo, a que se recorre (incrivelmente) até os dias atuais como uma das formas de “solucionar” o problema da diferença de idiomas entre os povos. Ei-lo:

“267. Aprender muitas línguas enche a memória de palavras, em vez de fatos e idéias, quando a memória é um recipiente que em cada indivíduo só pode acolher uma medida certa e limitada de conteúdo. Além disso, o aprendizado de muitas línguas prejudica por fazer acreditar que se tem habilidades, e realmente confere algum prestígio sedutor no trato social; também prejudica indiretamente ao obstar a aquisição de conhecimentos sólidos e a intenção de ganhar de maneira séria o respeito das pessoas. Por fim, é como um golpe de machado na raiz do refinado sentimento da língua que se tenha do idioma materno: ele é incuravelmente ferido e arruinado. Os dois povos que produziram os maiores estilistas, os gregos e os franceses, não aprenderam línguas estrangeiras. – Porém, como as relações entre os homens devem se tornar cada vez mais cosmopolitas e como agora um comerciante estabelecido em Londres, por exemplo, já tem de se comunicar por escrito e oralmente em oito idiomas, aprender muitas línguas é sem dúvida um mal necessário; que, chegando ao extremo, forçará a humanidade a encontrar um remédio: e num futuro distante haverá para todos uma nova língua, primeiro como língua comercial e depois como língua das relações intelectuais, tão certo como um dia existirá navegação aérea. Pois com que finalidade a ciência linguística teria estudado por um século as leis do idioma e aquilatado o que é necessário, valioso e bem-sucedido em cada língua?” (Friedrich Nietzsche – 1844/1900 -, Aforismo 267, in Humano, demasiado humano – 1878 -, Companhia das Letras, São Paulo, 2000). – Grifo nosso.

 

Embora reconheça o “mal necessário” de o cidadão cosmopolita precisar falar pelo menos uns “oito idiomas”, Nietzsche ressalta as desvantagens intrínsecas dessa via e conclui profeticamente (como num voto de fé na inteligência humana) que ela, a via do poliglotismo, seria necessariamente superada, pelo surgimento de “uma nova língua”. Vale frisar que ele não cogitou sobre a adoção internacional da língua de um povo e que se referiu a “um futuro distante”, precedido de uma fase em que seriam visadas apenas as relações comerciais.

 

Numa análise contemporânea da profecia de Nietzsche (completamente cumprida no que se refere à navegação aérea), verifica-se que a fase de língua internacional comercial vem-se configurando com o inglês, embora de modo precário (com uma internacionalidade bastante limitada em termos de classes sociais, de abrangência territorial etc.) e embora de modo distorcido (com uma velha língua de um povo fazendo às vezes de “língua de todos os povos” – uma “missão [simplesmente] impossível”).

 

Quanto à “língua das relações intelectuais” (e, poderíamos completar: “cordiais”), podemos considerar que o “futuro distante” de Nietzsche ainda não chegou. Apesar de o instrumento que preenche plenamente esse requisito ter sido criado apenas nove anos depois da profecia de Nietzsche, os povos não dispuseram ainda de intelligentsia suficiente para aplicá-lo. É como se a humanidade, absurdamente, tivesse abandonado a idéia da aviação logo após a invenção do 14 Bis, submetendo alguns obstinados indivíduos ao papel incômodo de mostrarem indefinidamente que o instrumento está criado, que funciona, e que basta ser empregado, para que se desenvolva e que dê seus frutos. Isto não foi feito com o avião (felizmente), mas, infelizmente, vem sendo feito com o Esperanto, pelo simples fato de ser um “invento” que pode ter sucedâneos – precários, mas com enormes vantagens para alguns.

 

O Esperanto, aliás, se encontra na categoria daquelas invenções cujas vantagens serão sempre desconhecidas pelos seus maiores beneficiários e cujo benefício geral choca-se frontalmente com os interesses dos que dele podem prescindir. Além disso é obra que só se completa pelo status de oficialidade, em cada nação, sem o que não passará de “evento inexistente”, para todos os efeitos, e, como tal, inapropriado e inapropriável às pessoas normais – obra, portanto, que definitivamente não prospera à revelia dos governos nacionais. Esses governos, enfim, únicas instâncias competentes para fazer valer as Resoluções pró-esperanto de 1954 e de 1985 da Unesco, devidamente provocados pelos esperantistas, hão de permitir o pleno cumprimento da profecia de Nietzsche. Isso, na otimista hipótese de os queridos esperantistas (quanto heroísmo!) não insistirem em negligenciar, ou até em descartar tal concorrência “impura”.

 

Por Afonso Camboim

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