Esperanto no séc. XXI

Talvez este seja um bom momento para pensarmos: “Afinal, o que querem os esperantistas do esperanto: substituir o inglês como segunda língua ou formar uma irmandade ideológica?”
Muito se briga pelo ensino de esperanto nas escolas, mas quantos jovens que ouvem músicas e expressões em inglês vão se interessar pelo esperanto se não houver uma boa razão ($$$) para tal?
Além disso, embora muito se diga que o esperanto é simples, há muito material explicando o básico do idioma e poucos voltados para o aprimoramento. Vamos brigar para ensinar esperanto nas escolas em 6 meses e depois?
Quantos vão produzir material de qualidade profissional de ensino ou propor métodos se não houver algum retorno financeiro afinal todo mundo tem conta para pagar no fim do mês?
Da última vez que toquei nestes assuntos houve gente que deixou claro que não quer o esperanto substituindo o inglês e perdendo seu elemento de comunidade. Neste caso, faz sentido brigarmos por ensino institucionalizado e pela remuneração de profissionais ligados ao ensino de esperanto?
Eu creio que antes de brigarmos para ter muitas salas de ensino de esperanto com pouquíssimos alunos, devêssemos brigar pela viabilidade dele como instrumento de cultura e ascensão profissional.
Enquanto discutimos a lei Cristovam Buarque, a banca de jornais na Av. Paulista tem revistas em inglês, espanhól, italiano e até alemão.
Ainda vejo gente que no lugar de lutar pelo idioma fica a procurar detratores para tecer discussões inúteis com aqueles que não vem o esperanto como algo útil usando números pouco confiáveis e que mais pioram que melhoram a situação e acabamos por passar a imagem de fanáticos religiosos.
Vi tentativas fantásticas como a união de empresários de comércio exterior esperantistas minguar por falta de apoio.
Não sei quantos aqui sabem o que é Linux, mas sou um daqueles que entrou de cabeça à dez anos atrás e hoje vê um profissional Windows com metade da experiência ganhar o dobro e, de certa forma, não é muito diferente isso da dualidade esperanto x inglês. Lembrem-se: eu pago contas no fim do mês.
Enfim, já saí de muitas listas de discussão de esperanto por achar que o movimento ainda parecia um banco de comunistas radicais e que não estava pronto a se discutir dentro do contexto de século XXI.
Mas ainda acho possível haver pessoas que acreditem nos mesmos ideais do Zamenhof , mas entendam que estamos no século XXI.

Uma resposta para “Esperanto no séc. XXI”

  1. José Afonso de Sousa Camboim says:

    Se o texto abaixo servir como comentário…

    “Aprender muitas línguas” (segundo Nietzsche)

    Por Afonso Camboim

    Um dos últimos grandes pensadores da humanidade a prever e defender uma língua internacional (depois de Voltaire, Descartes, Leibniz, entre outros) foi Friedrich Nietzsche, em um trecho profundamente inspirado de obra publicada apenas nove anos antes de L. L, Zamenhf (Doutor Esperanto) publicar a sua Internacia Lingvo. O trecho aborda de forma lúcida e categórica o real significado e as nefastas implicações do poliglotismo, a que se recorre (incrivelmente) eté os dias atuais como uma das formas de “solucionar” o problema da diferença de idiomas entre os povos. Ei-lo:

    “267. Aprender muitas línguas enche a memória de palavras, em vez de fatos e ideias, quando a memória é um recipiente que em cada indivíduo só pode acolher uma medida certa e limitada de conteúdo. Além disso, o aprendizado de muitas línguas prejudica por fazer acreditar que se tem habilidades, e realmente confere algum prestígio sedutor no trato social; também prejudica indiretamente ao obstar a aquisição de conhecimentos sólidos e a intenção de ganhar de maneira séria o respeito das pessoas. Por fim, é como um golpe de machado na raiz do refinado sentimento da língua que se tenha do idioma materno: ele é incuravelmente ferido e arruinado. Os dois povos que produziram os maiores estilistas, os gregos e os franceses, não aprenderam línguas estrangeiras. – Porém, como as relações entre os homens devem se tornar cada vez mais cosmopolitas e como agora um comerciante estabelecido em Londres, por exemplo, já tem de se comunicar por escrito e oralmente em oito idiomas, aprender muitas línguas é sem dúvida um mal necessário; que, chegando ao extremo, forçará a humanidade a encontrar um remédio: e num futuro distante haverá para todos uma nova língua, primeiro como língua comercial e depois como língua das relações intelectuais, tão certo como um dia existirá navegação aérea. Pois com que finalidade a ciência linguística teria estudado por um século as leis do idioma e aquilatado o que é necessário, valioso e bem-sucedido em cada língua?” (Friedrich Nietzsche – 1844/1900 -, Aforismo 267, in Humano, demasiado humano – 1878 -, Companhia das Letras, São Paulo, 2000). – Grifo nosso.

    Embora reconheça o “mal necessário” de o cidadão cosmopolita precisar falar pelo menos uns “oito idiomas”, Nietzsche ressalta as desvantagens intrínsecas dessa via e conclui profeticamente (como num voto de fé na inteligência humana) que ela, a via do poliglotismo, seria necessariamente superada, pelo surgimento de “uma nova língua”. Vale frisar que ele não cogitou sobre a adoção internacional da língua de um povo e que se referiu a “um futuro distante”, precedido de uma fase em que seriam visadas apenas as relações comerciais.

    Numa análise contemporânea da profecia de Nietzsche (completamente cumprida no que se refere à navegação aérea), verifica-se que a fase de língua internacional comercial vem-se configurando com o inglês, embora de modo precário (com uma internacionalidade bastante limitada em termos de classes sociais, de abrangência territorial etc.) e embora de modo distorcido (com uma velha língua de um povo fazendo as vezes de “língua de todos os povos” – uma “missão [simplesmente] impossível”).

    Quanto à “língua das relações intelectuais” (e, poderíamos completar: “cordiais”), podemos considerar que o “futuro distante” de Nietzsche ainda não chegou. Apesar de o instrumento que preenche plenamente esse requisito ter sido criado apenas nove anos depois da profecia de Nietzsche, os povos não dispuseram ainda de intelligentsia suficiente para aplicá-lo. É como se a humanidade, absurdamente, tivesse abandonado a ideia da aviação logo após a invenção do 14 Bis, submetendo alguns obstinados indivíduos ao papel incômodo de mostrarem indefinidamente que o instrumento está criado, que funciona, e que basta ser empregado, para que se desenvolva e que dê seus frutos. Isto não foi feito com o avião (felizmente), mas, infelizmente, vem sendo feito com o Esperanto, pelo simples fato de ser um “invento” que pode ter sucedâneos – precários, mas com enormes vantagens para alguns.

    O Esperanto, aliás, se encontra na categoria daquelas invenções cujas vantagens serão sempre desconhecidas pelos seus maiores beneficiários e cujo benefício geral choca-se frontalmente com os interesses dos que dele podem prescindir. Além disso é obra que só se completa pelo status de oficialidade, em cada nação, sem o que não passará de “evento inexistente”, para todos os efeitos, e, como tal, inapropriado e inapropriável às pessoas normais – obra, portanto, que definitivamente não prospera à revelia dos governos nacionais. Esses governos, enfim, únicas instâncias competentes para fazer valer as Resoluções pró-esperanto de 1954 e de 1985 da Unesco, devidamente provocados pelos esperantistas, hão de permitir o pleno cumprimento da profecia de Nietzsche. Isso, na otimista hipótese de os queridos esperantistas (quanto heroísmo!) não insistirem em negligenciar, ou até em descartar tal concorrência “impura”.

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