Conhecendo a cultura singalesa

Escrito por em May 16, 2014 em rafael | 265 comentários

No mesmo local da WCY havia um pavilhão com exposições para o público em geral, e na sexta-feira, último dia da conferência, os visitantes eram muitos, bem mais do que nos outros dias. Além de muitos estudantes, era fácil notar trabalhadores em seus uniformes de trabalho, famílias a passeio, grupos de amigos. A exposição não tinha muita coisa, alguns stands apresentando o trabalho de algumas organizações locais, um palco com apresentações de música e dança e um salão de beleza onde estudantes cortavam cabelos e maquiavam as pessoas gratuitamente.

Mas o que mais chamava a atenção dos locais, e, creio eu, o verdadeiro motivo de estarem ali era a presença de muitos estrangeiros. O Sri Lanka sempre foi um país muito isolado, que só agora começa a fortalecer relações com outros países e atrair turistas estrangeiros. Embora o turismo tenha um papel importante na economia local, a presença de pessoas vindas do exterior ainda é novidade, por isso ficam nos olhando demoradamente, como se estivessem fazendo um esforço para guardar nossas fisionomias, e, claro, pedem para tirar fotos.

Girafas do Brasil com singaleses

Girafas do Brasil com singaleses

Após sair de um grupo de trabalho, encontrei um casal de brasileiros, que veio estudar budismo e ficará aqui durante um ano, sentado em um gramado conversando, e eles me disseram “acabamos de ser girafas”. Não entendi, mas explicaram: as pessoas os cercaram, pediram para tirar fotos, e seguiu-se uma exaustiva sessão de fotos. Nisso apareceram algumas pessoas pedindo para… isso mesmo, tirar fotos. E em seguida veio outro grupo, e mais outro, até que decidimos sair dali para termos um pouco de sossego. Foi uma situação engraçada.

No dia seguinte houve o encerramento da conferência, depois representei a TEJO em uma reunião do ICMYO (Coordenação Internacional para Encontros de Organizações Juvenis) e fui para o hotel no fim da tarde. Todos os compromissos terminados, eu tinha um tempo para passear, caminhar pelas ruas pela primeira vez, mas estava tão cansado que ao chegar em meu quarto deitei para um cochilo e acordei às 22:30. Desci ao saguão e encontrei um rapaz de Cabo Verde interessado em sair para dar uma volta. Outras pessoas preferiram ficar na piscina ou no bar do hotel, e fomos só nós dois.

Representando a TEJO na reunião do ICMYO

Representando a TEJO na reunião do ICMYO

Tuk-tuks aos montes em qualquer canto, todos os motoristas insistentemente oferecendo seus serviços, a maioria em uma língua incompreensível, outros com monossílabos em inglês. Pedimos informação e queriam nos levar para outro lado da cidade, mas mediante nossa recusa um deles nos apontou o prédio vizinho. “Dance Dance!” (Os singaleses têm o hábito de repetir as palavras para dar-lhes ênfase). Na entrada da viela escura que começava na esquina ao lado do hotel, havia uma porta abaixo de um letreiro de neon, guardada por dois seguranças que nos convidaram a entrar. As paredes eram pretas e tudo era iluminado por um luz vermelha. Enquanto subíamos a escada meu companheiro me disse “parece ser um bordel”. Tive a mesma impressão, que se acentuou quando chegamos no andar de cima e tivemos que passar por um túnel branco cheio de arcos de neon. Chegamos a um corredor imenso onde havia a estátua de uma mulher nua, e no fim do corredor, finalmente, a danceteria: uma pista de dança minúscula, do tamanho do meu quarto em Campinas, cercada por mesas onde pessoas bebiam e conversavam, a música era muito alta, e em um canto, após a pista, havia uma saleta anexa com mais mesas e um balcão de bar. Era um bar normal, nada a ver com o que havíamos imaginado, e o ambiente não era ruim, mas decidimos sair dali, pois não estávamos a fim de música alta. Saímos.

Fomos para a avenida principal e chegamos a um bar luxuoso, onde a cerveja custava o triplo do que custa no hotel (que é quase o dobro do preço no supermercado), decidmos ir passear na orla da praia, já que era ali perto e havíamos visto, de longe, barracas vendendo comes e bebes e muitas pessoas passeando. O ambiente era gostoso, famílias e amigos passeando, ar fresco, mas a iluminação deixa a desejar, e fiquei preocupado com a escuridão, mas seguimos, pois tinha muita gente ali. Após caminharmos por algum tempo, um grupo de adolescentes locais se juntou a nós. Estavam curiosos, tentavam nos perguntar muita coisa, mas não tínhamos uma língua em comum. Eles conversavam em Tamil, tentavam falar em inglês, mas só conseguiam perguntar nossos nomes, de onde vínhamos e desde quando estávamos no país. Um deles conseguiu, após várias tentativas, perguntar a nossa idade, e demorei a entender, pois aqui muita gente pergunta idade dizendo “how much old are you?” (às vezes sem o verbo).

Me senti intimidado com a presença dos garotos, eles eram sete, estávamos em um local escuro e a abordagem deles me parecia suspeita, talvez estivessem querendo nos assaltar, já havia sido alertado por esperantistas locais ou que visitaram o Sri Lanka para ter cuidado com batedores de carteira. Meu companheiro teve a mesma impressão, mas era evidente, também, que havia neles muita curiosidade sobre a gente e sobre nossos países de origem, e também uma frustração por não conguirem nos perguntar o que desejavam saber sobre o mundo, nem entender o que dizíamos. Por fim, poediram para tirar fotos conosco antes de irmos embora, e seguiu-se uma sessão de fotos, todos eles contentes e dizendo que colocariam no Facebook. Se ofereceram para nos fotografar com nossas câmeras para também termos uma recordação, mas é claro que eu não entregaria o celular para eles, respondi que havia deixado tudo no hotel. Eles se despediram e foram embora. De volta ao hotel, conversei com algumas pessoas, fui para o quarto e fiquei na internet até as três da manhã, pois estava sem sono.

No dia seguinte era hora de partir. O plano inicial era ir para a casa do Ishanke, mas durante a semana os planos acabaram mudando: o presidente da Associação Singalesa de Esperanto, Zeiter Perera (devido à colonização portuguesa, muitos nomes portugueses são comuns por aqui, Silva e Perera são os mais comuns, mas também já vi outros). O Zeiter me telefonou de manhã, conforme o combinado, prometendo me encontrar no hotel às 15:00. Eu tinha um dia inteiro em Colombo para passear, mas antes de mais nada decidi dar uma volta nas imediações e procurar um local para recarregar meu celular, que estava sem créditos, pois poderia ser necessário entrar em contato com esperantistas em caso de imprevistos. Não me dei conta de que era domingo e o comércio estava fechado.

Por sorte encontrei um rapaz que me ajudou. Fomos de tuk-tuk até uma lojinha que funciona aos domingos, e lá ele foi meu intérprete. Voltei ao hotel com créditos no celular, mas como é perigoso para um estrangeiro andar sozinho por aí e não encontrei pessoas dispostas a ir passear, acabei ficando no hotel à espera do Zeiter. Resolvi aproveitar a ocasião para arrumar as malas e escrever meu texto anterior para o blog, e quando estava escrevendo ouvi barulho de fanfarra vindo da rua. Olhei pela janela e vi algo muito esquisito: haviam colocado dois postes, desses de linha de chegada de corrida de rua, no meio da pista, e a polícia havia interrompido o trânsito. Diversos motociclistas passaram por entre os postes e seguiram atrás de um carro de polícia pela rua. Atrás deles vieram um ônibus turístico, desses com andar superior aberto, com a fanfarra embaixo e gente em cima agitando bexigas amarelas. Também tinha duas caminhonetes pretas com vidro bem escuro e um caminhão com motocicletas em cima nessa estranha parada, e por fim, fechando o desfile, mais motociclistas, dessa vez trajando roxo. Depois que foram embora retomei minhas atividades, mas uma hora depois comecei a gargalhar ao ouvir novamente o som da fanfarra: sim, estavam voltando, e a dispersão foi em frente ao hotel. As motocicletas foram colocadas em caminhões e levadas embora, enquanto as pessoas foram embora de ônibus. Paradas como essa acontecem em todo o país e se estendem por toda a primavera, especialmente durante o ano novo singalês, que aconteceu em abril.

Um estranho desfile em Colombo.

Um estranho desfile em Colombo.

Depois de almoçar o Zeiter me contatou: estava a caminho. Terminei de arrumar as malas e fiz check-out. Em seguioda fiquei conversando no saguão com um rapaz da Guiné-Bissau, também delegado da WCY, até o Zeiter chegar. Seguimos para Ja-Ela, onde ele mora, e no caminho, pela primeira vez, vi um elefante no meio da rua. Ele mora em um condomínio atrás de uma base da força aérea, perto do Aeroporto Internacional Bandaranaike, por onde entrei no Sri-Lanka. Fui apresentado a todos da família, que são muito simpáticos.
A comida que eu havia experimentado no hotel era, até então, a mais apimentada que eu já havia comido na vida, e eu desconfiava que eles não maneiravam na pimenta por causa dos turistas, como costuma acontecer em hotéis. Engano meu: as pessoas, no dia-a-dia, comem uma comida muito mais apimentada do que a do hotel, e meus primeiros dias em Ja-Ela foram terríveis, cada refeição era um martírio, mas diante da minha dificuldade em engolir a comida começaram a me oferecer pratos em que as partes apimentadas são misturadas no prato, a gosto, e também há alguns pratos singaleles com menos pimenta, mas até no café da manhã se costuma comer sambol, uma mistura de coco ralado com pimenta vermelha e algumas outras especiarias.

Por outro lado estou adorando os chás, e aqui as pessoas bebem chá diversas vezes ao dia. Café também é popular, mas normalmente usam café solúvel. Também se bebe chá com leite, o que é novidade para mim, e os biscoitos são muito gostosos. Aliás, o Zeiter gosta de me levar para visitar os vizinhos, e aqui é costume oferecer comida e chá às visitas. Uma das famílias que visitei me ofereceu o que disseram ser um doce típico do Sri Lanka: era doce de leite feito em casa, parecido com o que temos no Brasil. Também já me serviram rapadura, que não é tão dura nem tão doce como a do Brasil.

Como representante da UEA, estou ajudando o Zeiter com a organização do Congresso Singalês de Esperanto. Já fui com ele à prefeitura convidar autoridades para o evento e também fomos juntos acertar detalhes sobre a locação do salão para o o congresso acontecer. Será o primeiro congresso de Esperanto realizado no Sri Lanka, e alguns estrangeiros virão. O Adeel, que não vejo desde 2012, chegará dia 19. Após experimentar a alegria de ser recebido pela Ĝojo no aeroporto de Hanói, e pelo Dror no de Tel-Aviv, agora estarei do outro lado: irei encontrar o Adeel no aeroporto.

Aqui no Sri Lanka as pessoas cospem no chão, escarram e soltam pum em qualquer ocasião, isso não é considerado nojento nem ofensivo. Outro hábito estranho para mim é a maneira como as pessoas comem: pegando a comida com os dedos. Além disso, fora do meu quarto de hotel nunca vi uma lixeira, e o Zeiter me explicou que aqui o hábito é jogar lixo no chão, e há funcionários da prefeitura que recolhem o lixo das ruas. Nos banheiros normalmente não há papel higiênico nem cesto de lixo, pois as pessoas se limpam com a ducha higiênica (isso sim se acha em qualquer banheiro) e colocam a roupa por cima do corpo molhado.

Além disso os homens costumam usar uma espécie de saia em situações mais informais, e aqui é quente e úmido. Chove quase todo dia, mas normalmente é uma pancada de chuva que dura menos de meia hora, e depois disso o sol volta a brilhar. Porém, o regime de chuvas depende das monções e varia muito ao longo do ano.

Comprei 550MB de internet 3G. Acho que é suficiente para o resto dos meus dias no Sri Lanka, então espero poder atualizar o blog com mais frequencia. Aqui é difícil conseguir wi-fi de graça, e a família do Zeiter só usa 3G porque ele acredita que internet é ruim para a educação dos filhos.

Tráfego em Colombo

Tráfego em Colombo

A maioria das pessoas que conheci em Ja-Ela são católicas, e normalmente têm um altar em casa com estatuetas de Buda ao lado dos santos da igreja católica, e à frente das imagens colocam pétalas de flores e queimam incenso, exatamente como os budistas fazem. É interessante notar essa assimilação de uma forma regional de culto, o que também acontece no Brasil, especialmente no que diz respeito a simpatias (lavar o santo, colocá-lo de castigo, etc.). Quase 70% da população do país é budista, e os hábitos budistas marcam profundamente a cultura local, por isso é compreensível que mesmo seguidores de outras crenças assimilem elementos do budismo.

Ja tivemos uma festinha em casa, com a presença de vários vizinhos. Comemos comida tailandesa comprada em um restaurante aqui perto e bebemos arrak, uma bebida típica, de maçã verde, mas vi que há diversos outros tipos de arrak.

6 respostas para “Conhecendo a cultura singalesa”

  1. Interessantíssimo, Rafael! São coisas que só o esperanto promove…

  2. Débora Sousa says:

    Muito interessante, estou muito curiosa sobre o Srilanka e gostaria de visitar este país, porém não falo inglês fluente, mas estou tentando aprender.Como entrar no país? Tenho muitas duvidas!

    • Emilio says:

      Não se preocupe em aprender inglês a fundo. Aprenda somente algumas frases mais importantes, pois é muito difícil encontrar alguém que domine o idioma. Mais útil é usar o tempo aprendendo algumas poucas frases importantes em singalês.

    • Rafael Henrique Zerbetto says:

      Olá Débora!

      Como disse o Emílio, não é necessário aprender inglês a fundo para viajar ao Sri Lanka, até porque a maioria das pessoas lá só conhece inglês bem superficialmente, algumas palavras e frases básicas. Nos aeroportos e aviões a comunicação normalmente se dá por monossílabos: passport! Chicken, meat or vegetarian? Coffe or tea? No Sri Lanka a maior parte da população fala singalês, e a segunda língua mais popular é tamil (línguas que usam alfabetos diferentes do nosso). O mais importante é saber pronunciar os nomes dos lugares q vc quer visitar, pois se você disser a um taxista “Candy”, ele entenderá que você quer ir pra Candy. Omais desafiador no Sri Lanka não é a língua, mas a cultura. Eu e o Zeiter tínhamos duas línguas em comum e entendíamos perfeitamente o que um dizia ao outro, mas não conseguíamos compreender o modo do outro pensar, analisar a situação. Por exemplo, quando eu sugeria aproveitar nossa ida à cidade para realizar duas tarefas ao invés de uma, ele largava a tarefa original para fazer a que eu sugeri, ou então propunha deixarmos a sugerida por mim para outro dia.

      Quanto à entrada no país, a maneira mais comum é pelo aeroporto internacional Bandaranaike, que fica próximo a Colombo e Negombo, duas das cidades mais visitadas por turistas. O visto é solicitado via internet (http://www.eta.gov.lk/slvisa/) e liberado após o pagamento da taxa com cartão de cŕedito internacional. O visto é colado ao seu passaporte quando você desembarca em Colombo.

  3. Débora says:

    Como foi seu translado começando do Brasil até chegar no Sirilanka?

    • Rafael Henrique Zerbetto says:

      Oi Débora! Eu viajei pela Etihad, saindo de Guarulhos até Abu Dhabi e lá peguei conexão para Colombo. Como viajei a convite do governo do Sri Lanka para uma conferência, um setor do aeroporto foi isolado só para os participantes do evento, onde voluntários nos guiaram até os ônibus que nos levaram até os hotéis. A Etihad costuma misturar tripulantes de nacionalidades diferentes em seus vôos para aumentar a quantidade de línguas nas quais alguém pode se comunicar com eles, e logo no início da viagem anunciam pelo auto-falante as línguas disponíveis. Nos vôos de e para o Brasil sempre há tripulantes brasileiros. A comida e o serviço de bordo das empresas aéreas do oriente médio costumam ser muito bons. No aeroporto de Abu Dhabi não encontrei dificuldades, pois é tudo bem sinalizado e tem wifi gratuito, só conectar e usar (rede aberta sem autenticação).

      Depois que acabou a conferência, os dias que fiquei no país foram por minha conta, tive que me virar, e aí fui morar na casa do Zeiter, que me auxiliou em tudo o que precisei, e tive um contato muito próximo com a cultura local.