Cúpula dos Povos

Escrito por em Jul 3, 2012 em Blog, rafael | 265 comentários

Cúpula dos Povos

No dia 15 de junho começou a Cúpula dos Povos no aterro do Flamengo. Ficamos perdidos nos primeiros dias, principalmente porque ainda estavam numerando as tendas, mas também por ser tudo espalhado em um local enorme. No primeiro dia nos decepcionamos com a pouca quantidade de pessoas, mas nos dias seguintes o povo foi chegando e o movimento foi grande.

Tínhamos palestras agendadas para diversos dias, mas percebemos que o esquema de palestras não iria funcionar: o público que tínhamos ali estava interessado em conhecer um pouco de tudo, visitar tenda por tenda, havia muita coisa para ver e poucos queriam ficar parados em um lugar. Estávamos em um espaço de interação e não de exposição. Tivemos que partir para as conversas individuais com as pessoas que se interessavam pelo esperanto, e para isso fizemos uma exposição de livros, CDs e outros materiais para mostrarmos às pessoas, imprimimos informativos em várias línguas para distribuir, e colocamos uma faixa muito bonita, com a frase “Esperanto, língua internacional” cercada de bandeiras de diversos países para atrair as pessoas aos locais onde deveríamos dar palestras, mas acabamos usando para conversas individuais que se mostraram mais eficazes.

Ao nosso lado, logo no primeiro dia, houve um debate na tenda ao lado. A maioria dos presentes eram nativos em espanhol. Havia um homem que falava em francês, uma mulher que traduzia do francês para o inglês e outra que traduzia do inglês para o francês. Todos sentados em roda, e a Úrsula foi lá participar. Com sua experiência como tradutora na ONU e seu domínio de diversas línguas, ela não tardou a perceber que a versão em inglês era um resumo do que era falado em francês, e a tradução para o espanhol era resumida da versão em inglês, e mais da metade do que era falado em francês se perdia. Ainda há dúvida de que precisamos da língua internacional?

Úrsula no debate trilíngue

Também no primeiro dia uma mulher veio à nossa banca, folheou alguns livros, mas não perguntou nada. A abordei oferecendo informações sobre o esperanto e ela respondeu “eu tenho 53 anos. Eu vivi na época do esperanto” e foi embora. Aquilo me fez perceber que o trabalho nem sempre seria fácil, até porque muitas pessoas se mostram fechadas a novas ideias. Foi especialmente marcante para mim a constatação de que muitas outras pessoas disseram coisas parecidas, do tipo “tinha propaganda do esperanto algumas décadas atrás, daí não ouvi falar mais, então achei que tivesse acabado”. Deixamos a propaganda entrar em nossas vidas a ponto de só acreditarmos naquilo que o intervalo da novela nos conta.

Por outro lado, muitas pessoas que nunca tinham ouvido falar em esperanto se interessaram muito pela ideia, até porque o local estava tomado por movimentos sociais e ONGs de todas as caras, de todos os cantos, um espaço da diversidade, do debate, da troca de experiências, enfim, um solo fértil para as novas ideias. Também fomos surpreendidos por pessoas que haviam visitado o stand do movimento esperantista na Rio92 e, ao ver uma nova geração de esperantistas por lá, se animaram em aprender a língua. Uma das pessoas que conheci na Cúpula foi a Dara Barlin, que coordena um projeto muito interessante, do qual nos tornamos parceiros.

Dia em que conheci a Brittany

Foi também na Cúpula que conheci a Brittany Trilford. Nosso encontro foi marcado para o dia 17 de manhã, três dias antes da abertura da conferência dos líderes mundiais. Fizemos um vídeo juntos para o tcktcktck, e a Brittany já chegou me perguntando sobre o esperanto. Conversamos muito sobre nossas visões acerca da Rio+20, e adorei tê-la conhecido na Cúpula dos Povos, pois lá era o lugar do calor humano, da diversidade, da natureza e da democracia que não encontramos no Riocentro, e jovens líderes não podem perder esse contato com o povo. Conversamos sobre vários assuntos, mas a atentei de maneira especial para a importância da diversidade linguística, falei sobre a violação do direito linguístico, tão comum em alguns lugares, lhe entreguei um documento com o posicionamento do movimento esperantista com relação à Rio+20. Três dias depois ela abriu a conferência dos chefes-de-Estado com a saudação maori “Tēnā Koutou”.

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