Do inferno ao paraíso

Escrito por em Jul 29, 2013 em Blog, rafael | 265 comentários

Ao chegar na Islândia, minha primeira impressão sobre os islandeses foi boa, pois são pessoas muito gentis, mas confesso que ao sair do aeroporto em Keflavik, ao longo de uma viagem de uma hora até Reykjavik tudo o que existia ao redor da estrada era um chão de pura rocha, fruto de erupções vulcânicas, com diversas crateras que davam ao local um aspecto de terra arrasada, me sentia como se estivesse em outro planeta, um lugar quase inabitável, onde a vida parecia se resummir ao musgo e os pequenos arbustos que crescem na rocha. Era madrugada mas a luz solar penetrava através das nuvens enquanto uma fina garoa caia. Era um cenário assustador, parecia ser impossível haver terra, árvores ou animais naquele lugar.

Reunião de jovens da TEJO na Associação Islandesa de Esperanto.

Reunião de jovens da TEJO na Associação Islandesa de Esperanto.

Em Reykjavik me senti mais tranquilo: vi terra, árvores, jardins com flores, casinhas coloridas. De qualquer forma a cidade estava cheia de esperantistas, incluindo grandes amigos meus de diversos países, e certamente seria divertida, mas duvidava que a islândia pudesse ser linda e cheia de belezas naturais como mostrado nas propagandas do congresso e mesmo nas propagandas turísticas existentes nos ônibus e nos aviões da Icelandair. Parecia não haver nada que valesse a pena ver fora das áreas urbanas.

Minha impressão mudou durante a excursão pelo círculo dourado, na quarta-feira, sobre a qual já escrevi, e desde aquele momento comecei a me arrepender por ter vindo para ficar apenas uma semana, pois seria maravilhoso percorrer o país todo, passar uns dias nas geleiras, nos vulcões, nas pequenas cidades litorâneas, ou mesmo fazer excursões de barco para ver baleias e puffins (belos pássaros de bico alaranjado).

Nos dois últimos dias do congressos tivemos reuniões do conselho da UEA e de diversas comissões que tratam de temas importantes do movimento experantista. Durante uma reunião com a nova diretoria da UEA, improvisada em um corredor de frente para a marina por falta de sala, vi o Pangaea seguir viagem em direção ao norte, a bandeira brasileira tremulando ao vento.

Após o encerramento do congresso, no sábado de manhã, tinha um período livre para passear onde quisesse, mas precisava arrumar minha mala e estar em frente a um hotel, ao lado do alojamento, às 22:30 para pegar meu ônibus para o aeroporto: o vôo para Hamburgo estava previsto para as 00:45, e aquele era o último ônibus. Pensei em passear a pé por Reykjavik mesmo, ir a alguma das piscinas de água quente, ou então conprar um pacote para uma excursão para algum lugar próximo, mas os italianos pretendiam alugar um carro e pegar estrada. Adorei a idéia e aceitei o convite para ir com eles.

Atrás da primeira cachoeira que visitamos no sábado

Atrás da primeira cachoeira que visitamos no sábado

E assim fomos eu, Michael Boris, italiano, Francesco e Sara, italiscoceses (ambos nasceram na Itália, mas foram morar na Escócia há alguns anos e trocaram o vinho pelo uísque) e o Richard, australiano que dividiu quarto comigo em Sa Pa, no Vietnã, no ano passado, pegar estrada rumo ao sul, para conhecer cachoeiras e, se desse tempo, uma minúscula cidade chamada Vik, seguindo um itinerário sugerido pelo funcionário da locadora de carros.

No dia anterior, almoçando com Siru Lane, esperantista finlandesa que mora na Islândia, ela me contou ter conhecido todo o litoral da Islândia através do anel viário que o acompanha, em um passeio de carro.

Ao longo do caminho havia belas paisagens: montanhas, fazendas, campos de feno, vulcões, cavalos e geleiras. E é das geleiras que nascem os rios que descem as montanham formando as mais belas cachoeiras da Europa. Visitamos duas, sendo que a primeira a gente contornou, passando por trás dela, enquanto o vento trazia a água gelada em nossa direção. A água que nasce do chão sai fervendo, enquanto a que desce das montanhas era gelo até poucos instantes, e é essa água, puríssima e muito saborosa, que a gente bebe na Islândia.

Esperantistas na segunda cachoeira

Esperantistas na segunda cachoeira

Não estava a fim de ir até Vik, pois já estava tarde e tinha medo de perder meu ônibus, mas fomos para Vik, o lugar mais lindo onde já estive. Lá tudo é cenário para fotos de quebra-cabeça: casinhas entre montanhas, igrejinha, ovelhas pastando, campos de feno sob o sol, geleiras ao fundo. Antes de chegar a Vik a gente passa por um vale cheio de fazendas, com a grama bem verde iluminada pelo sol, contrastando com as sombras das montanhas, e as geleiras ao fundo. Do outro lado da estrada, campos de feno, com sacos e mais sacos do produto recém colhido, e que servirá para alimentar os animais durante o inverno.

Após a passagem por esse vale, uma subida, e de lá avistamos Vik. É a menor cidade que já vi, com uma igrejinha à beira de uma montanha, encurralada entre as montanhas e o mar. Atrás de mim as geleiras ainda eram visíveis, de cada lado havia uma montanha com pastagens verdes cheias de ovelhas. À minha frente a cidadezinha à beira do mar, alguns pequenos barcos, e no mar uns penedos semelhantes aos da baía de Ha Long, no Vietnã.

Vik, pequena cidade entre montanhas e o mar

Vik, pequena cidade entre montanhas e o mar, vista da igreja

Havíamos combinado de dar uma olhada na cidade e voltar, pois estava tarde, mas optamos por descer, era impossível resistir. Visitamos a igrejinha, olhamos as paisagens, demos uma volta e voltamos para o carro. Cheguei no alojamento às 21:40. Não deu tempo de arrumar a mala, só joguei dentro dela tudo o que precisava levar e saí correndo para o ponto de ônibus. Segundo o motorista, cheguei três minutos antes do ônibus sair.

Os ônibus que passam nos hotéis levam os passageiros até um estacionamento que funciona como uma rodoviária, e lá trocamos de ônibus para seguir até o aeroporto. Chegamos 15 minutos antes do ônibus partir, dava tempo de comprar o melhor cachorro-quente do mundo, a uma quadra dali, e como estava com fome aproveitei a ocasião. Havia um grupo de esperantistas comendo cachorro-quente e aproveitei para me despedir deles. A viagem seguiu e no caminho para Keflavik, por entre aquela paisagem assustadora do pedaço mais feio da ilha (justamente por isso usado como aeroporto, pois não serve para turismo nem para agricultura), onde vi o pôr-do-sol no mar, um maravilhoso espetáculo que me ensinou que até um lugar como aquele também pode nos surpreender com algo de inesperada beleza.

Pôr-do-sol no mar, próximo ao aeroporto de Keflavik

Pôr-do-sol no mar, próximo ao aeroporto de Keflavik

O aeroporto estava cheio de esperantistas, e conversando na sala de embarque esqueci da hora e quase perdi meu vôo. Mas embarquei em cima da hora e deu tudo certo.

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