Excursão pós-IJK

Escrito por em Sep 2, 2013 em rafael | 265 comentários

Após o congresso tivemos uma excursão planejada para durar até cinco dias, cada um participando dos dias que quisesse, ou seja, cada dia era uma excursão diferente, sendo possível se juntar ao grupo ou deixá-lo a qualquer momento. Assim, mesmo aqueles que não podiam ficar cinco dias ou que não se interessaram por todo o programa puderam participar.

Esperantistas nas ruínas do teatro de Bet Shean

Esperantistas nas ruínas do teatro de Bet Shean

Um microônibus nos pegou em Nazaré para o primeiro dia, e fomos visitar o parque nacional de Bet Shean, com impressionantes ruínas de construções romanas. Passeamos entre as ruínas, vimos impressionantes colunas, um teatro, uma casa de banhos, um banheiro público, dentre outras coisas. Havia árvores cheias de romãs maduras, então pegamos algumas e comemos. Depois foi a vez de passarmos em um mercado e comprar mantimentos para os dias seguintes: iríamos para o deserto e não teríamos onde comprar comida, então compramos carne e atum enlatados, bastante pão, homus e outras coisas para comer com pão. Também compramos café solúvel e leite em pó para eventualmente termos um cafezinho de manhã, ainda que não tão quente. Alguns alimentos e bebidas que sobraram do congresso, bem como talheres, copos e pratos plásticos, haviam sido colocados no ônibus em Nazaré, pois precisaríamos disso na viagem. Também tínhamos barracas e sacos de dormir. Em um mercado árabe de Nazaré conseguimos uns pedaços de papelão para forrar o fundo das barracas. À tarde visitamos as piscinas naturais de Sahne, um lugar gostoso para se refrescar nas piscinas de água doce, e onde os peixes vinham nos morder e só faziam cócegas. Passamos a tarde lá e seguimos para o sul, indo dar no Mar Morto quando já anoitecia.

Nosso acampamento no Mar Morto

Nosso acampamento no Mar Morto

Acampamos à beira do Mar Morto. Foi difícil montar as barracas à noite, mas conseguimos. O vento queria levar nossas barracas para longe e tivemos que arranjar pedras pesadas para segurá-las, já que o solo é ruim para colocar estacas. Dentro das barracas é muito quente, fora delas o vento traz areia para nossos olhos e narizes, mas de madrugada não ventou e estava agradável para dormir sob a luz das estrelas. O céu estava lindo, e enquanto conversávamos vimos uma estrela amarela, grande e muito brilhante, aparecer e sumir de repente no céu. Não faço idéia do que era aquilo. De manhã contemplamos o nascer do sol por trás das montanhas da Jordânia e fomos nadar no Mar Morto, onde a água parece óleo, e onde é mais difícil ficar em pé do que flutuar sobre a água, pois a concentração de sal é muito grande. Cada movimento tem que ser feito com muito cuidado para não espirrar água, pois o sal pode causar cegueira temporária ao entrar em contato com os olhos, exigindo lavagem imediata com água doce (deixamos uma garrafa de água na margem, e foi útil, pois uma pessoa molhou ambos os olhos e eu entrei para ajudar, com a garrafa na mão, mas isso aconteceu ao anoitecer, e eu estava de tênis. Talvez por isso a cola dos meus tênis tenha se dissolvido quando eu fui passear no rio Arugot).

No cânion do rio Arugot

No cânion do rio Arugot

Seguimos para a reserva natural de En Gedi, onde fizemos uma trilha pelo rio Arugot até a Cachoeira Secreta (que deixou de ser secreta já faz tempo). O rio corre por um cânion, e o ambiente lembra o cerrado brasileiro, mas após certo tempo a gente começa a perceber que há uma grande diferença: o deserto é muito mais hostil, nele a gente transpira bem mais e não sente, tomamos litros de água ao longo do dia e quase não urinamos. Nadamos no Arugot e uma parte do nosso grupo seguiu até as piscinas superiores, por uma trilha mais difícil e cansativa. Depois voltamos pelo cânion, de onde víamos o rio abaixo de nós. Fomos almoçar e chegou o momento mais doloroso da viagem: me despedir das vietnamitas. Sinto muitas saudades do Vietnã e das pessoas de lá. Quem acompanhou minha viagem pela Europa e Israel certamente notou que eu passava mais tempo com as vietnamitas e comentava mais sobre elas. A Flama, A Thu e a Ĝojo tinham que ir embora, o ônibus as levou embora para pegar o ônibus para Tel-Aviv e lá embarcar para o Vietnã, enquanto os outros esperantistas almoçavam. Após abraça-las demoradamente, vi o ônibus se distanciando. Depois ele voltou vazio para nos pegar. Duas vietnamitas continuaram com a gente: a Trang e a Hay Li.

Chegamos à praia. No sul o Mar Morto é quente, sendo que em alguns trechos há águas termais a 60ºC. Havia na beira da praia um trecho de águas termais que queimaram meu pé, e só então constatei que ele estava cheio de feridas. Dentro no Mar Morto havia um gradiente de temperaturas, trechos com água bem quente e outros onde a água era até fria no fundo, mas morna na superfície. Achei um objeto de sal parecido com um lenço, talvez fosse mesmo um lenço, sobre o qual o sal foi se acumulando aos poucos. Também ao pisar no fundo, longe da margem, senti que entre meu pé e a areia havia uma camada de sal rachando sob meus pés.

 Fomos para as proximidades de Masada, onde montamos nosso acampamento antes de escurecer. Na hora do jantar descobrimos que boa parte do nosso pão havia estragado, assim como alguns outros alimentos. Por outro lado, aprendemos a colher tâmaras, e estávamos próximos a diversas tamareiras carregadas. Enchemos uma sacola e nos fartamos pelo resto da viagem. Adoro tâmaras e no ano passado, voltando do Vietnã, comprei uma caixa com mais de um quilo em Doha, dessa vez comi muitas sem gastar nada.

Colhendo tâmaras com Richard e Olga na entrada do Parque Nacional de Masada

Colhendo tâmaras com Richard e Olga na entrada do Parque Nacional de Masada

Levantamos de madrugada, desmontamos as barracas e escondemos nossas coisas para subirmos a montanha e chegarmos a Masada a tempo de ver o nascer do sol. A subida é difícil, e lá atingi o limite da minha capacidade física, mas consegui chegar ao topo. O cansaço era enorme, no início da trilha minhas pernas já acumulavam o cansaço das trilhas dos outros dias, e seguimos por um caminho íngreme, que serpenteia pela montanha e tem mais de mil degraus além da trilha. Mas valeu a pena. Masada é um lugar fantástico, com suas ruínas que denunciam uma tragédia do passado: ao redor da montanha vêem-se ruínas dos acampamentos dos soldados romanos, que cercaram Masada, onde viviam rebeldes judeus. Quando não havia mais como defender a cidade, seus habitantes preferiram a morte à escravidão. Masada era uma fortaleza construída por ordem Herodes, e seu palácio, à beira do penhasco, ainda resiste ao tempo. Após a morte de Herodes o local ficou praticamente abandonado até ser capturado pelos judeus.

O sol nascendo na Jordânia, visto de Masada

O sol nascendo na Jordânia, visto de Masada

Descemos de teleférico, exaustos, e fomos buscar nossas coisas e colocá-las no ônibus para seguirmos em direção a Eilat. O Mar Morto está morrendo devido a um projeto de agricultura irrigada com água do rio Jordão e também por causa da mineração. Entre as partes norte e sul foram construídos um canal e uma barragem, que eleva em dois metros o nível da água (no sul o Mar Morto é mais alto por conta disso), criados por causa da atividade mineradora. O canal por onde a água passa tem grossas camadas de sal em suas bordas, o que cria um belo espetáculo, e a rodovia que usamos passa por terras que até alguns anos atrás eram banhadas pelo mar morto, e por isso mesmo há filões de sal bem visíveis ao redor da pista. Paramos perto de onde ficava a cidade de Sodoma para visitarmos uma caverna de sal. Acima da caverna há uma pedra de sal cujo formato lembra um corpo humano, e por isso ela é conhecida como Esposa de Ló, que segundo a Bíblia foi transformada em sal por ter olhado para trás ao fugir de Sodoma. Antes de seguir viagem tivemos que deixar a Véronique em um ponto de ônibus para ela poder voltar para Tel-Aviv e seguir viagem para a França.

Um dos animais que vimos no safári

Um dos animais que vimos no safári

No caminho para Eilat fizemos um safári em uma reserva para ver animais e visitamos um centro de reabilitação de animais selvagens. Montamos nossas barracas na beira do mar vermelho em Eilad, extremo sul de Israel, aproveitei o final da tarde para nadar e um coral rasgou meu pé. À minha frente, Akaba, cidade portuária da Jordânia, ao sul, a cerca de um quilômetro do acampamento, estava a fronteira com o Egito. À noite passeamos pelo centro da cidade, local muito agradável, e jantamos em uma lanchonete, onde comi o hambúrguer mais gostoso da minha vida, com gosto e cheiro de churrasco e muito bem temperado.

No meio do deserto havia uma lixeira...

No meio do deserto havia uma lixeira…

No dia seguinte fomos visitar o parque de Timna, território que antigamente pertencia ao Egito, e onde ficavam minas de cobre dos antigos egípcios. Timna é o nome de uma deusa egípcia e no parque há belas formações rochosas e vestígios arqueológicos das minas e das oficinas onde artefatos de cobre eram fabricados por escravos. A areia do deserto em Timna possui diversas cores e tons, e cada um de nós ganhou uma garrafa para encher de areia colorida e fazer nosso próprio artesanato, semelhante ao que fazem no nordeste brasileiro. Em Timna o artesanato com areia colorida é comum, mas os temas são diferentes dos daqui: camelos caminhando diante de dunas, tamareiras carregadas de tâmaras, etc. E também dão preferência aos tons pastéis, ao invés dos fortes contrastes de cores vivas usados pelos artesãos brasileiros. Em Timna a Trang se despediu de nós e seguiu viagem. Eu a conheci em Israel, mas rapidamente nos tornamos amigos, e desde a partida das outras vietnamitas era com ela que eu passava a maior parte do tempo.

 À tarde fizemos a trilha pelo cânion vermelho, que é muito bonito, e de lá seguimos para o monte Cefahot, de onde é possível ver quatro países: Israel, Egito, Jordânia e Arábia Saudita. Duas trilhas que eu considerei de dificuldade média, e no topo do monte venta muito, então tirei meu boné para o vento não levar. Descemos pelo outro lado do monte e chegamos em Eilad, onde comemos e fomos para o acampamento. Ainda tivemos tempo de nadar e machuquei mais os meus pés nos corais. Dessa vez usei a máscara de natação que comprei no centro de Eilad para observar os belos corais e os peixes coloridos que nadam bem perto da gente, é uma vista e tanto. Em Eilad há um museu submarino de onde se pode contemplar as belezas do fundo do mar pela janela, mas o museu eu não visitei, pois além de ser caro é mais divertido nadar entre os peixes do que apenas observá-los.

No monte Cefahot

No monte Cefahot

 À noite fizemos nossa última refeição em grupo, em uma tenda árabe onde a comida foi a mais barata que comemos em Israel, e ao mesmo tempo uma das mais gostosas. Combinei com o Amri e com a Hai Ly de mergulharmos juntos no dia seguinte de manhã, e assim foi feito. Nessa manhã usei tênis para nadar, pois o ferimento do coral no dia anterior foi muito sério, rasgou meu pé de um canto a outro e doía muito, não podia me ferir mais. Além disso havia o risco de eu ser ferido não por um coral, mas por um ouriço do mar, e eu vi uns ouriços enormes na região onde mergulhamos (e bati o pé nos corais de novo, mas não me machuquei graças aos tênis).

 Tomei banho e me vesti para ir embora. O Álvaro e o Allan foram comigo, além de duas russas, a Olga, que conheci em Hanói no ano passado, e a Maria, que conheci em Israel. Hai Ly e Amri ficaram em Eilad. Até chegar em Israel não havia usado nenhum dos band-aids que havia levado comigo. Lá usei todos, e neste último dia contei com os band-aids russos que a Olga me deu para fazer curativo no meu pé. Cheguei mancando na rodoviária de Tel-Aviv, mas satisfeito por ter aproveitado intensamente meus últimos dias em Israel. De lá eu e Allan fomos para o aeroporto e seguimos juntos, no mesmo vôo, até Paris, onde eu embarquei para São Paulo e ele para o Rio de Janeiro. Álvaro e as russas ficaram em Tel-Aviv e viajaram no dia seguinte.

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