FESTO! FESTO! FESTO!

Escrito por em Aug 15, 2013 em rafael | 265 comentários

Vou contar um pouco de como tem sido os meus dias no FESTO. Em primeiro lugar, o que é FESTO? A palavra festo, em esperanto, significa festa, sendo que o nome do evento também é uma sigla, Franca Esperanto Semajno Terure Organizita (Semana Esperantista Francesa Terrivelmente Organizada). Trata-se de um evento organizado pela juventude esperantista francesa, que pela primeira vez acontece na Bélgica. O FESTO é um dos principais festivais esperantistas, e o destaque de sua programação são os shows, dois por noite. Já contei que o Kapriol’ se apresentou, mas não disse que no dia seguinte eles deram uma oficina de dança. O Kapriol’ toca músicas para dançar, e na oficina eles ensinavam os passos e em seguida tocavam para a gente dançar.

Informações sobre o Estado esperantista de Amikejo no museu de Kellmis

Informações sobre o Estado esperantista de Amikejo no museu de Kellmis

Tivemos show do Kimo na noite seguinte, e no outro dia ele deu oficina de salsa e merengue. Quem tem acompanhado minha viagem deve estar lembrado da oficina de dança improvisada pelo Kimo em Reykjavik, há algumas semanas, e da qual também participei. Aliás, o Kimo é um excelente professor de dança, me ensinou em poucas horas tudo o que não consegui aprender em anos. Fora isso, é uma excelente pessoa, nossa convivência tem sido frequente desde quando nos conhecemos em Reykjavik.

Outra pessoa muito agradável é o Johnny M (Jonas Marx), que canta reggae em esperanto e diversas outras línguas. Ele é uma pessoa superdivertida e comunicativa, e uma das primeiras que veio me cumprimentar quando cheguei aqui. Ontem jogamos futebol, o Kimo jogou no meu time, e eu fiquei marcando o Johnny M, que é bom de bola. Ganhamos por 6 a 5 e encerramos o jogo porque os shows da noite iriam começar: Nikolin’ com mais dois músicos, e em seguida o show mais aguardado por mim: Kajto. A primeira música em esperanto que eu ouvi é justamente desse grupo, que antigamente era um quarteto, formado por Nanne, Ankie, Marian e Marita; as duas últimas saíram do Kajto e criaram o Kapriol’, o que considero positivo, pois elas têm mais afinidade com a dança, enquanto os dois primeiros tem aspirações puramente musicais.

Com o Kajto

Com o Kajto

Quando comecei a aprender esperanto logo me tornei fã do Kajto e isso me instigou a aprender e usar a língua como um meio de acesso à cultura. Por isso para mim a noite de ontem parecia um sonho, mas foi tudo real. O show seguiu até por volta da uma da manhã, e nunca vi um grupo ser tão querido por seu público. O Nanne e a Ankie são extremamente simpáticos e demonstram muito carinho por seus fãs. O final do show foi especialmente marcante: eles desceram do palco tocando Procesio Multkolora (Procissão Multicor) e nós fomos seguindo atrás, em fila, realizando esta procissão multicor pelo salão, depois todos nos abraçamos e cantamos juntos as duas últimas canções. Claro que não perdi a oportunidade de abraçar o Nanne e a Ankie.

Fui dormir cedo para participar da oficina de canto ministrada pelo Kajto de manhã. Formamos um coral improvisado, o Nanne tocava violão enquanto cantávamos, sendo que ele e a Ankie nos dividiam em grupos para cantar a mesma letra em tempos diferentes, produzindo cânones muito bonitos. Terminamos a oficina fazendo um cânone com quatro vozes. De certa forma foi um prolongamento do show, pois ouvíamos eles cantando e cantávamos juntos, e depois desta oficina comprei um cd e peguei autógrafos. A Ankie me presenteou com um marcador de páginas do Kajto.

Outro grande artista esperantista que está por aqui é o Martin Wiesse, que fez parte das bandas Amplifiki (com o Kimo), Persone e Martin kaj la Talpoj, esta última ainda na ativa. Eu cheguei de Maastricht, onde fui passear ontem, em excursão, e cheguei na hora do jantar. Após me servir, me sentei a lado do Kimo, que visitou o Museu do Chocolate, e quando começamos a conversar ele me perguntou “você conhece o Martin?”, olhei para a frente e o reconheci. Esta noite Kimo e Martin tocarão juntos, relembrando os tempos do Amplifiki, a primeira banda internacional de rock em esperanto.

Roda de violão no gramado, com Ĵomart e Martin

Roda de violão no gramado, com Ĵomart e Martin

Hoje também tivemos oficina de violão com o Ĵomart, da dupla Ĵomart kaj Nataŝa, que tocou anteontem. O Ĵomart é um excelente violonista, e acompanhei a oficina, que não foi aula, mas sim uma apresentação sobre o instrumento, dicas de como tocar alguns acordes deles e, claro, ele e a Nataŝa tocaram algumas canções. Após o almoçço de hoje, e antes da oficina de violão, eu vi os músicos saindo de fininho com violões, pensei “aí tem coisa”, segui o grupo que fez uma roda no gramado para tocar um pouco. Vi o Ĵomart e o Martin, talvez os dois melhores violonistas esperantistas, tocando juntos! E desconfio que teremos participação especial do Ĵomart no show desta noite.

Quanto ao passeio a Maastricht, fomos de ônibus, visitamos diversos lugares e depois voltamos. Aproveitei o dia na Holanda para comer coisas diferentes, experimentar cervejas e chocolates. Um esperantista que morou a vida toda em Maastricht guiou a gente por um passeio que incluiu não apenas alguns roteiros tradicionais, mas também lugares que não fazem parte do roteiro turístico, como um centro cultural construído em uma fábrica ocupada. O prédio estava abandonado e caindo aos pedaços, agora é um lugar cheio de vida, onde artistas criam e uma ong inventa engenhocas de baixo custo para facilitar a vida de comunidades pobres, especialmente de países africanos.

Centro cultural onde um dia houve uma fábrica

Centro cultural onde um dia houve uma fábrica

Maastricht é uma cidade linda e cheia de vida, com pessoas nas ruas, nos bares e cafés, e tem o charme de suas construções antigas e suas muralhas e pontes medievais. Na viagem de volta aconteceu algo bizarro: uma faixa da rodovia estava interditada para reparos, e o motorista ao invés de entrar na fila de veículos para usar a outra faixa simplesmente decidiu dirigir pela ciclovia que acompanha a estrada. Levou bronca do motorista de um furgão que trafegava pela ciclovia em sentido contrário (!), em seguida de um guarda de trânsito, e mesmo assim entrou de novo na ciclovia, para mais adiante levar bronca de outro guarda. Sentado ao meu lado estava um ativista do BEMI (Movimento Internacional dos Ciclistas Esperantistas), que não perdeu a oportunidade e começou a falar sobre o desrespeito aos ciclistas por parte de motoristas. Aliás, diversos membros do BEMI participaram da excursão a Maastricht, mas foram de bicicleta, só esse foi de ônibus, por ser nosso guia. Outra coisa interessante é que constatamos a diferença de temperamento entre motoristas belgas e holandeses: na Bélgica o motorista abriu todas as portas do ônibus para facilitar o embarque e nos vendeu um bilhete coletivo, enquanto na Holanda o motorista ficou puto com três pessoas que entraram pela porta de trás e queria que parte do nosso grupo esperasse o próximo ônibus porque ele não tinha bilhetes suficientes para vender para todos nós. Após uma discussão, ele concordou em nos levar até Maastricht sem bilhetes, onde compramos os bilhetes que faltavam (válidos para o dia todo).

Obelisco em Vaals

Obelisco em Vaals

Estivemos também, por alguns instantes, em Vaals, cidade onde trocamos de ônibus na ida e na volta. A cidade fica na Holanda, mas o município possui terras em três países, pois bem ali fica a tríplice fronteira entre Alemanha, Bélgica e Holanda, no lugar onde um dia existiu um território neutro que se tornou, há 105 anos, um país esperantista. No dia 13 de agosto, justamente aniversário da fundação do país esperantista, visitamos o museu de Kelmis, onde há material sobre o assunto. No caminho até o museu fizemos uma passeata com bandeiras para celebrar a data.

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