Hamburgo

Escrito por em Jul 31, 2013 em Blog, rafael | 265 comentários

Depois do congresso na Islândia, vim para a Alemanha participar de um projeto de intercâmbio cultural muito interessante promovido pela Associação Alemã de Esperanto. Trata-se das “prelegvojaĝoj” (viagens de palestras), cujo objetivo é atrair esperantistas estrangeiros para o país para ministrar palestras e ao mesmo tempo conhecer a terra de Goethe. A Associação providencia hospedagem gratuita na casa de um esperantista local e paga todos os bilhetes de trem para viajar de uma cidade a outra. Normalmente os esperantistas locais também oferecem alimentação gratuita.

Eu no topo de uma torre metálica com um esperantista local

Eu no topo de uma torre metálica com um esperantista local

A Alemanha é uma experiência linguística interessante, pois aqui é raro encontrar informações em inglês nas estações, nos restaurantes, etc, e o alemães não se envergonham disso, ao contrário dos brasileiros, afinal estão em seu país, onde se fala alemão e quem não domina a língua tem que se virar.

Em Reykjavik recebi mensagem do Lars, coordenador do programa, com minhas passagens de trem e o endereço da Jutta, uma agradável senhora que me hospedou em Hamburgo. Ela também me escreveu para convidar-me para um passeio de bicicleta pela cidade em companhia de outros esperantistas no domingo, poucas horas após minha chegada.

No aeroporto há uma estação de trem e eu precisava pegar a linha que passa próximo à casa da Jutta. Acostumado com os trens e metrôs de São Paulo, ingenuamente fui procurar no mapa: a quantidade de linhas é impressionante, e fiquei totalmente perdido. Tinha apenas o número da linha, mas esqueci de anotar o sentido e daí o jeito foi entrar no trem e olhar o mapa da linha: era mesmo aquele trem que eu tinha que pegar. Para embarcar é necessário comprar o bilhete, mas aqui não há guichês, apenas máquinas que emitem tickets nas estações e pontos de ônibus. Minha primeira dificuldade: não tinha dinheiro trocado e a máquina não aceita notas de valor superior a dez euros. O jeito foi pagar no cartão. A melhor dica que posso dar a quem viaja para o exterior é adquirir um cartão de viagem pré-pago. O meu já me livrou de vários apuros.

Outra coisa interessante é que não há catracas nem dispositivos de controle para verificar quem tem bilhete e quem não tem. Eu poderia ter embarcado sem pagar, isso seria ilegal, mas ninguém teria descoberto. A Jutta me disse que raramente alguém confere bilhetes em trens urbanos, mas nos ônibus costumam verificar porque muita gente foi pega viajando de graça há algum tempo. De um modo geral, as pessoas são honestas, compram na máquina o bilhete que necessitam e pagam o preço proporcional ao trecho da viagem.

E para conhecer Hamburgo nada melhor do que pedalar. A Jutta teve o cuidado de arranjar uma bicicleta para mim, e saímos pela cidade pedalando até um parque onde encontramos outros esperantistas, e também não-esperantistas, que decidiram pedalar pela cidade. O passeio foi organizado pelo Dominique, um ativista do BEMI, Movimento Internacional de Ciclistas Esperantistas. Nos reencontraremos em breve no FESTO, na Bélgica, e ele irá pedalando até lá.

No caminho vimos parques, museus, igrejas e prédios antigos. Pedalamos por lugares agradáveis, e como era dia de sol o povo estava torrando sobre a grama dos parques ou nadando nos lagos. Outra particularidade de Hamburgo é o uso de barcos no transporte urbano, pois há muitos canais e rios.

Ciclistas esperantistas em Hamburgo

Ciclistas esperantistas em Hamburgo

A diferença em termos urbanísticos entre Hamburgo e Campinas é gritante. Aqui os ônibus e trens urbanos viajam quase vazios, dando a impressão de ser uma cidade relativamente pequena. No entanto, Hambugo possui quase dois milhões de habitantes. Por ser plana, a bicicleta é muito popular, e é possível alugar uma caso não tenha um amigo esperantista para lhe emprestar uma magrela.

As calçadas são responsabilidade da prefeitura, o que garante padronização, não é como no Brasil onde cada um constrói a sua do seu jeito e temos calçadas cheias de obstáculos. As calçadas são padronizadas, possuem guia rebaixada para os ciclistas e cadeirantes, piso podotátil para cegos (em poucos lugares, por enquanto) e em muitas há uma parte vermelha destinada aos ciclistas. Também é comum ter uma faixa para ciclistas no meio da rua, entre as faixas reservadas para os carros, que respeitam os ciclistas (nem sempre, mas quase sempre). Pedalar em Hamburgo é muito mais seguro do que no Brasil, mas mesmo assim está longe do ideal, e os ciclistas reclamam muito: pedestres caminham pelas ciclovias, alguns motoristas não respeitam os ciclistas, em alguns lugares há galhos baixos ou plantas que atingem a cabeça do ciclista (e isso aconteceu com a Jutta bem na minha frente, mas ela estava de capacete). Ao longo da cidade há diversas pichações e cartazes justamente reivindicando mais investimento na segurança do ciclista.

Após o passeio, fomos tomar café (era para ser café, mas no fim quase todos tomamos a cerveja da casa) em um antigo castelo, atualmente um museu, e em uma sala daquele mesmo local aconteceu minha palestra. Alguns esperantistas da cidade foram até o castelo sem pedalar, só para a palestra mesmo, que no fim acabou virando um bate-papo, pois eles tinham muita curiosidade a respeito do Brasil e o que era para ser palestra virou algo mais dinâmico, e mais do meu agrado.

Após pedalar muito, comemos, bebemos e conversamos

Após pedalar muito, comemos, bebemos e conversamos

Um senhor estadunidense que organiza discussões filosóficas em inglês em um centro cultural me convidou para uma reunião no dia seguinte sobre o tema “o que é a vida”. Acabei não indo, pois preferi passear pela cidade no dia seguinte. Comprei um relógio, pois esqueci de trazer o meu do Brasil, e um chip telefônico para usar ao longo das próximas semanas, já que em diversos momentos poderei precisar telefonar para alguém, bem como receber algum telefonema urgente do Lars sobre alguma mudança repentina no meu programa, como a que resultou na minha viagem para Hameln, ou Hamelin, como é conhecida no Brasil (sim, a cidade do conto de fadas). Escrevo no trem, enquanto sigo ao encontro dos Caçadores de Ratos, nome do grupo de esperanto da cidade.

2 respostas para “Hamburgo”

  1. Saluton kara Rafaelo, mi deziras al vi bonan vojaĝon. Ĉar vi ĉeestis Hamburgon kie vi kontaktis e-istoj biciklistoj, mi ŝatus montri al vi ekzemplon de loka evento de biciklistoj nomata Kritika Amaso, kiu konsistas en internacia evento okazanta ĉiumonate dum la lasta vendredo en la tuta mondo: http://www.youtube.com/watch?v=fyYo5BlPwA0. Vidu kia vera amaso!!!

  2. Rafael Henrique Zerbetto says:

    Dankon pro la ligilo. La bicikla movado estas tre forta en la Eŭropa esperantujo, kaj tio travideblas samkiel la fervojista movado, la kat-amikaro kaj kelkaj aliaj popularaj fakgrupoj de samideanoj.