Islândia

Escrito por em Jul 21, 2013 em Blog, rafael | 265 comentários

Vitrine da Associação Islandesa de Esperanto

Vitrine da Associação Islandesa de Esperanto

Chegar até a Islândia, país sede do Congresso Mundial de Esperanto de 2013, é mais simples do que muita gente pensa: há vôos diretos saindo das principais cidades da Europa e da América do Norte para o aeroporto internacional de Keflavik, o maior da Islândia. A maioria dos vôos são da Icelandair, a empresa de aviação do país, mas há também vôos de outras companhias.

Minha viagem começou em São Paulo, com conexão no Schiphol, em Amsterdã, o único aeroporto do mundo onde eu consegui usar quatro línguas para conversar com outras pessoas durante algumas horas de espera, além de ter ouvido dezenas de línguas estranhas para mim. Aliás, a questão da comunicação internacional na Europa atinge tal dimensão que no sistema de entretenimento a bordo da KLM há uma seção exclusiva sobre aprendizado de idiomas. Aproveitei para estudar vietnamita na viagem. É uma língua que acho bonita, e cuja gramática me encantou por sua relativa simplicidade.

Minha viagem ao Vietnã me fez perceber que na Ásia há uma diversidade linguística muito grande, tanto entre os países como dentro de um mesmo país, e aqui na Europa não é diferente, de modo que as línguas mais usadas por turistas acabam se tornando dominantes nos ambientes de grande circulação de pessoas, e a grande presença de estrangeiros contribui para isso. Já na América do Sul temos uma realidade bem diferente, pois a diversidade linguística não é notada no dia-a-dia das pessoas: as línguas indígenas estão isoladas dos centros urbanos, e há relativamente poucos estrangeiros.

Eu tinha certeza que no portão de embarque para Reykjavik encontraria outros esperantistas, pois em época de congresso há esperantistas em todos os vôos. Bastou me aproximar da sala de espera para ouvir um entusiasmado “saluton” vindo de uma esperantistas do Rio de Janeiro que estava lá com um grupo de esperantistas coreanos. Outros foram chegando, e dentro do avião era comum ouvir pessoas conversando em esperanto.

Após a chegada em Keflavik, é necessário pegar um ônibus para ir até a capital, Reykjavik, a uma hora de lá. Na véspera da minha viagem fui alertado sobre o frio, os fortes ventos e as chuvas, por esperantistas que chegaram alguns dias antes para passear. Porém, encontrei uma realidade bem diferente: o termômetro marcava dez graus, mas a sensação térmica era mais confortável do que a das noites de Campinas na semana anterior. Não chovia, mas o chão molhado denunciava que havia chovido. Nuvens cobriam o céu, e a última vez que vi o sol foi da janela do avião quando sobrevoávamos as nuvens. Meu vôo foi noturno, mas parecia diurno, pois aqui no verão nunca escurece, o sol se põe depois das onze e nasce pouco mais de três horas depois, mas mesmo quando some no horizonte o céu fica claro. Ao longo da viagem, vi um espetáculo maravilhoso pela janela: à nossa frente era dia, atrás era noite, e o gradiente era bem visível.

Voo entre Amsterdã e Reykjavik

Voo entre Amsterdã e Reykjavik

Os islandeses são pessoas extraordinárias, não há maldade alguma nas pessoas daqui, basta olhar para um islandês para ter aquela sensação de que pode confiar nele, aqui é tudo muito diferente em termos da organização social, o pescador e o ministro comem no mesmo restaurante, ganham salários parecidos, seus filhos estudam juntos na mesma escola, não há grupos privilegiados nem marginalizados, todos têm mais ou menos o mesmo padrão de vida. A preocupação com o bem-estar de todos está acima das questões pessoais, a lei de Gérson é algo que um islandês jamais conseguirá entender.

As pessoas aqui sentem prazer em ajudar os outros, o motorista do ônibus que peguei no aeroporto me deixou na porta da escola Hagaskóli, onde estou alojado, mesmo não sendo parte da lista de hotéis. Ao chegar aqui, a porta estava trancada e não havia ninguém do outro lado da porta de vidro. Deixei a mala sob uma laje, ao abrigo da garoa que caía, e fui contornar a escola para tentar achar alguém que deveria estar me esperando. Eram duas da manhã e eu estava morrendo de sono. Até que escutei alguém me chamar: era o responsável pelo alojamento, que me mostrou a estrutura à minha disposição e me levou até a sala de aula onde coloquei meu saco de dormir… e dormi. A escola não tem muros e os estudantes não tentam fugir, pois dentro da escola é mais legal do que fora dela. Para tomar banho preciso usar o vestiário do ginásio de esportes, que também é de Hagaskóli, mas fica em um prédio separado, no quarteirão da frente. Aqui há dois encanamentos de água para as casas, um de água fria, outro de água quente proveniente de uma das muitas fontes de água quente existentes por aqui (Reykjavik significa “vapor”, e esse nome é devido aos gêiseres e piscinas de água quente), e é misturando a água desses dois encanamentos que se regula a temperatura da água que sai da torneira ou do chuveiro.

Outra particularidade da Islândia é o senso de humor das pessoas: o islandês faz piada o tempo todo, mas só os islandeses dão risada das piadas deles, que costumam se valer da ironia, e não entendem as piadas que os estrangeiros fazem. Alguns exemplos de piadas islandesas: no guardanapo que a aeromoça me deu estava escrito “o melhor da Islândia é que o telefone da primeira ministra aparece na lista” (em cada guardanapo vem uma frase diferente), nas vitrines das lojas se lê coisas do tipo “respondemos perguntas imbecis” ou “temos produtos para (alguma coisa inesperada)”. Durante o jantar um esperantista italiano fez uma piada do tipo “tolerância zero” (lembra do seu Saraiva?) quando a garçonete perguntou se podia retirar o prato, e ela não entendeu a piada, achou q ele tivesse falado sério. Ele teve que explicar que era piada.

Com relação a comida, meu primeiro café da manhã foi uma salada de frutas e um sanduíche. É comum rechearem sanduíches com ovo cozido, presunto e salada. No almoço comi pouco, apenas um cachorro-quente, que aqui é um pão com batata palha, catchup, mostarda escura e uma salsicha muito mais gostoso das que temos no Brasil. No fim do dia estava com muita fome e fui jantar com um grupo de amigos, a maioria italianos, e fomos a um restaurante do tipo coma à vontade. É muito comum encontrar peixes defumados, especialmente salmão, mas comi até carne de baleia (o gosto não é ruim nem bom. Experimentei por curiosidade, mas não pretendo comer de novo). Camarão por aqui é tempero: colocam camarão em tudo, na salada, no macarrão, no arroz, etc. Comi frutos do mar e diversos peixes do ártico. As pessoas aqui adoram cremes: colocam maionese nas saladas, nos sanduíches… e as sobremesas, quando não são frutas nem tortas, são cremosas, quase sempre com consistência de chantilly. Também comi uma sobremesa amarela, idêntica a curau, mas com um gosto bem diferente e que não consigo explicar. E na entrada do restaurante tem um aquário com peixes ornamentais brasileiros. Também comi um chocolate muito gostoso, e recheado com uma pasta preta que tem gosto de arak.

Parlamento islandês, construído com rocha oriunda de erupções vulcânicas

Parlamento islandês, construído com rocha oriunda de erupções vulcânicas

Um resumo do meu primeiro dia, ao acordar fui tomar banho. O vestiário da escola é de cair o queixo para quem está acostumado com o padrão brasileiro, muito confortável, com uma antesala ampla cheia de cabides e bancos para deixar os pertences, e depois as duchas para tomar banho. Fui para o congresso em companhia de um esperantista neozelandês. Ao chegar na Harpa, o maior centro de convenções da Islândia, encontrei a Siru, islandesa que conheci no ano passado em Hanói, e em seguida minhas amigas do Vietnã, Phuong (Flama) e Nep (Nepo). Passamos o dia juntos, conversamos muito, em uma roda que ia se ampliando com gente da Coréia, do Japão, de diversos países europeus… Passeamos pela cidade e depois fomos para a reunião do conselho da UEA. Acabei de assumir meu mandato de dois anos como representante do Brasil neste conselho. Diversos amigos meus da TEJO também participam do conselho, estamos formando uma “bancada jovem”. Hoje foi eleita a nova diretoria, que administrará a UEA pelos próximos três anos. Em breve mais notícias da Islândia.

7 respostas para “Islândia”

  1. luiz alberto de oliveira coelho says:

    maravilhosa a disposição em contar-nos essas coisas; muito obrigado!

  2. Alex Cesário says:

    Gratulon, kara Rafael, pro via agado kaj pro la informoj kiujn vi sendas al ni rilate al la Kongreso! Daŭrigu la sendadon de informojn kaj fotojn por ke ankaŭ ni povus ĝui de tia mirinda kongreso!

  3. dirce sales says:

    Gratulegon, Rafael!
    Profitu tiun belegan lokon de l’ planedo kaj la belegan oportunecon vian kiel esperantisto, kara!
    Brazilajn salutojn.

  4. dirce sales says:

    Olá, Rafael!
    Aproveite este belo local do planeta e a sua oportunidade como esperantista, meu querido!
    Saudações brasileiras.

  5. Rosemeire says:

    Rafael

    Imagino o brilho dos seus olhos ao ler esse relato.
    Você merece tudo isso, pois lutou para estar ai.
    Curta muito mas não esqueça dos meus presentes.
    Cara você é o máximo.
    Divirta-se.
    Beijos.
    Rose

  6. Farley says:

    Obrigado. Continue nos repassando essas informações, por favor. Parece que estamos aí com vocês.

  7. Celso Tinta says:

    Muito interessante o seu relato e importantíssimo para nós que trabalhamos com o meio de comunicação, que no meu caso é o Programa Ligado no Esperanto, que apresentamos durante 15 minutos – aos domingos pela 87,7 fm ou pela internet http://www.87fmtresrios.com
    Parabéns! (principalmente pelo mandato no conselho)