Novamente na Europa: Pós-graduação em Interlinguística na Polônia

Escrito por em Sep 21, 2014 em rafael | 265 comentários

Desde 2012 relato minha viagens pelo mundo neste espaço, especialmente sobre minha participação em eventos internacionais. Desta vez tratarei da minha vida profissional: sou bacharel em Estudos Literários pela Unicamp, onde atualmente curso mestrado em Teoria e História Literária. Minha pesquisa de mestrado é em literatura brasileira, e embora eu sempre quis pesquisar algo relacionado ao esperanto, no meu tempo de graduação tive dificuldade de encontrar uma linha de pesquisa que me permitisse juntar minhas maiores paixões.

 

Em 2009 ouvi falar pela primeira vez na pós-graduação em Estudos Interlinguísticos da Universidade “Adam Mickiewicz”, em Poznań, na Polônia. Na época não dei muita atenção, a não ser pelo fato de uma amiga polonesa ter me enviado uma mensagem dizendo que esta universidade é altamente conceituada e o curso totalmente ministrado em esperanto. Em 2011 alguns amigos brasileiros encararam o desafio, já concluíram o curso e alguns estão prestes a defender mestrado, já que o curso de três anos tem carga horária de mestrado e para obter o título de mestre basta escrever uma dissertação e defendê-la após o término do curso. Incentivado por eles, me matriculei e ganhei uma bolsa da ESF – Esperantic Studies Foundation, um fundação nos EUA que financia cursos e pesquisas relacionados ao Esperanto.

 

Reitoria da UAM. `A esquerda pode-se ver a estatua do poeta Adam Mickievicz

Reitoria da UAM. `A esquerda pode-se ver a estatua do poeta Adam Mickievicz

O curso é semi-presencial, ou seja, há uma semana intensiva de aulas e provas na universidade todo semestre, e depois disso trabalhamos em casa supervisionados à distância pelos docentes. Ao contrário de muitos cursos superiores que usam Educação à Distância (EAD) como uma ferramenta auxiliar ou como um meio de permitir ao aluno conciliar horários, este curso usa a EAD de modo peculiar: seu corpo docente é formado por professores de diversas universidades ao redor do mundo. Seria impossível reuni-los em uma mesma universidade para um curso presencial, mas passar uma semana ensinando na Polônia e depois acompanhar os alunos à distância é algo que eles podem fazer, e o resultado é um corpo docente internacional. Os alunos, por sua vez, também vêm de diversos países, atraídos pelo fato de ser um curso tão singular, que trata da comunicação intercultural e internacional, ministrado em esperanto por professores de diversos países. E assim o ambiente se torna perfeito para refletirmos sobre questões referentes à comunicação entre os diferentes povos: tanto os docentes quanto seus alunos pertencem a diferentes contextos linguísticos e culturais.

 

Para a minha primeira temporada em Poznań viajei para Berlim via Madrid, e de Berlim vim de ônibus. Como minha conexão em Madrid demorou muito (quase 12 horas), decidi aproveitar o dia para passear na cidade e contatei os esperantistas locais. Um deles, Alejandro, me informou como chegar à sua casa, me disse que estaria acordado por volta das 10:00, me passou seu endereço e explicações de como chegar lá. Desembarquei às 5:20 e após os procedimentos de imigração fui procurar informações sobre como ir à cidade: é possível ir de ônibus, trem e metrô, todos custam o mesmo preço, mas atingem lugares diferentes. Embarquei no ônibus, a casa do Alejandro é perto do segundo ponto após o aeroporto e levei 45 minutos para chegar lá. O motorista foi muito gentil, pegou um mapa e me explicou detalhadamente como chegar, segui as orientações e às 8:30 estava diante do predio. Como tinha que esperar até as 10:00, aproveitei para passear em um parque nas proximidades.

 

Monumento diante do lago no Parque do Retiro, em Madrid.

Monumento diante do lago no Parque do Retiro, em Madrid.

O parque é muito bonito, com jardins floridos, rios, estátuas e monumentos, lagos e fontes. Mesmo cedo, estava movimentado, algumas pessoas praticando esportes, outras passeando com seus cães, e também tinha gente cortando caminho para chegar a outro lugar. Quando eram quase 10 horas fui para o apartamento do Alejandro, tomamos café da manhã, conversamos e usamos internet. Por volta das 11:00 saímos, passeamos pelo centro da cidade e nos encontramos com outro esperantista no metrô. Visitamos diversas praças, o Palácio Real e outros prédios históricos. Para o almoço, me levaram a um lugar onde servem bons sanduíches a um euro (no aeroporto custam 7,5 EUR e em padarias em torno de 4 EUR, além de serem menores) e ainda dão de cortesia um pãozinho e umas fatias de salame para degustação. Após comermos, gravamos uma breve reportagem para a Muzaiko e voltei de metrô para o aeroporto (deu mais ou menos o tempo que levei de ônibus, mas fiz duas integrações). Segui para Berlim.

 

Em Berlim não tive tempo de passear, além de estar muito cansado cheguei tarde e com fome. Jantei na Alexanderplatz, em uma banca que vende salsichas e batatas-fritas. Depois tomei banho e fui dormir exausto. No dia seguinte acordei cedinho e segui de metrô para a Berlin ZOB (estação rodoviária central), onde tomei café da manhã em uma padaria.

 

Viajar de ônibus na Europa é uma experiência interessante, a começar pelo fato de que as rodoviárias aqui se assemelham aos terminais de ônibus urbanos do Brasil: as estações monumentais são destinadas aos trens, e o ônibus é um meio de transporte coadjuvante, de modo que a rodoviária ao invés de ficar ao lado de uma grande avenida fica escondida entre prédios em uma ruazinha simples; é próxima ao metrô, mas para ser atingida o passageiro precisa andar alguns quarteirões após descer do trem.

 

Rodoviaria Central de Berlim (Berlin ZOB), vista de cima. O onibus vermelho estacionado e' o PolskiBus, que peguei para ir `a Polonia

Rodoviaria Central de Berlim (Berlin ZOB), vista de cima. O onibus vermelho estacionado e’ o PolskiBus, que peguei para ir `a Polonia

Outra coisa que chama atenção são os ônibus: como precisam disputar passageiros com os trens, as empresas precisam investir em diferenciais para atrair os clientes, e o principal deles é o preço: viajar de trem na Europa em muitas situações é caro, e com a popularização das empresas aéreas “low cost” é comum achar passagens aéreas mais baratas do que as de trem (essa foi uma das razões de eu ter ido de avião da Itália para a Bélgica no ano passado). Além do preço, as empresas de ônibus investem em outros atrativos como maior distância entre as poltronas, internet wi-fi, tomadas para uso dos passageiros e algumas empresas têm até sistema de entretenimento a bordo individual semelhante ao dos aviões. Porém, o que mais me surpreendeu foi algumas empresas terem um acessório acoplado à traseira do ônibus para transportar bicicletas.

 

O movimento em nada lembra o das rodoviárias brasileiras: para ver um ônibus entrar ou sair, é necessário esperar vários minutos. Não há multidão. Não há barulho. Não há congestionamento de ônibus entrando e saindo. A viagem durou várias horas. Aproveitei para recarregar meu celular usando uma tomada sob o meu assento e usei o wi-fi, que funcionou bem na Polônia, mas não na Alemanha.

 

Um vez em Poznań, precisava chegar à universidade. Mas como? O ônibus me deixou ao lado de uma parada de bondes, mas Karina, uma das minhas colegas neste curso, que já veio antes a Poznań participar de um curso de formação de professores de Esperanto, havia me dito que de lá para a universidade era necessário pegar ônibus e não bonde. Notei que muitos passageiros foram pela calçada na mesma direção e fui atrás: assim cheguei a um pequeno terminal de ônibus urbanos a poucos metros dali.

 

Tirei da mochila um documento da universidade, em polonês e esperanto, no qual constava o endereço da residência estudantil onde estou morando. Mostrei-o a vários poloneses, mas nenhum sabia como chegar lá. Me lembrei da Karina ter me dito que era só perguntar como chegar no castelo, mas não me lembrava como se diz castelo em polonês (não adianta dizer em outra língua, eles não entendem). Então consultei um mural com os itinerários dos ônibus e em um deles encontrei uma parada chamada Zamek, a palavra que eu não estava conseguindo lembrar, e aquela linha de ônibus era a que eu precisava pegar.

 

Então veio outro problema: como comprar bilhetes, se a máquina só aceita pagamento em zlotos e eu só tinha euros? Andei pelas redondezas procurando um banco ou caixa eletrônico mas não havia nada disso. Como em muitas línguas se usa o radical -bank para banco, pensei que alguém entenderia que eu procurava um banco, tentei também a palavra câmbio em várias línguas e não adiantou, então mostrei a um senhor que eu só tinha euros na carteira, e quando ele entendeu o que eu queria disse a palavra kantor (casa de câmbio, a primeira palavra polonesa que aprendi na Polônia). Ele gesticulou me dando instruções. Não entendo polonês, mas deu para entender algumas palavras-chave, como tramwaj (quase igual a tramvojo, que em esperanto significa linha do bonde), que combinadas com os gestos foram suficientes: segui pela calçada acompanhando a linha do bonde e depois de algumas quadras vi em uma esquina um grande letreiro com a palavra kantor. Troquei meu dinheiro e voltei para pegar o ônibus.

 

Zamek Cesarski (Castelo Imperial), local onde desci do onibus.

Zamek Cesarski (Castelo Imperial), local onde desci do onibus.

Desci em Zamek, bem diante do castelo, que hoje é um centro cultural. Antes de chegar lá passei pela estátua do poeta Adam Mickievicz, e como sabia que essa praça fica na universidade, percebi que estava perto. A reitoria fica diante do castelo, e nos quarteirões ao redor há diversos prédios da universidade. Meu celular acusou sinal aberto de wi-fi e conectei à internet para baixar o mapa da região. Com auxílio do GPS fui em direção à Jowita, a residência estudantil. A entrada do prédio não é de frente para a rua, está escrito outro nome no letreiro e o numero é difícil de ver, então acabei entrando no prédio vizinho, também chamado Jowita: é o refeitório onde comem os estudantes do prédio ao lado. Uma moça entrou atrás de mim, me olhou como se quisesse perguntar algo, mas hesitava. Por fim disse “saluton!”, e então começamos a conversar em esperanto: ela se chama Paulina e é minha colega no curso, veio da Eslováquia e também tentava encontrar a Jowita, quando leu a palavra Esperanto na cinta identificadora da minha mala. Agora éramos dois esperantistas perdidos.

 

Entretanto, deduzimos que o prédio vizinho deveria ser o que procurávamos, embora não tivesse nenhuma identificação visível para quem passava pela calçada. Fomos lá ver e era mesmo Jowita. Os quartos são aconchegantes, com muitos armários, um frigobar por quarto e escrivaninhas para estudo. o único inconveniente é dividir banheiro: dois quartos dividem o mesmo banheiro, e ao entrar é necessário trancar a porta do outro lado para que a pessoa do outro quarto não entre. O elevador do prédio é bizarro: não tem a porta interna, somente aquela que fica no andar. Na minha primeira noite em jowita um grupo de rapazes desceu do elevador no térreo com cara de quem tinha aprontado, e ao entrar descobri que haviam apertado todos os botões, de modo que subi de andar em andar até o nono, onde moro.

 

Desci e encontrei, no saguão, meus conterrâneos Guilherme e Paulo. Um esperantista sueco, Sten, se juntou a nós e a Paulina também. Fomos todos almoçar (às 5 da tarde!) juntos e depois passeamos um pouco pela cidade, visitamos um mercado e compramos coisas para o café da manhã.  À meia-noite meu companheiro de quarto chegou: é um esperantista húngaro chamado Vajda.

Com alguns de meus colegas de curso no alojamento estudantil Jowita

Com alguns de meus colegas de curso no alojamento estudantil Jowita

Em breve contarei sobre a universidade e os primeiros dias de aula. Cześć!

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