Primeiros dias no Sri Lanka

Escrito por em May 8, 2014 em rafael | 265 comentários

Após quase 15 horas de vôo aterrisei em Abu Dhabi. No portão de embarque para Colombo vi um rosto conhecido: a Débora, minha colega na Coalisão da Juventude Brasileira pelo Pós-2015, e com ela estava também o Diego, outro ativista da coalisão, com quem eu já havia trocado e-mails. Ficamos conversando durante a hora e meia de atraso para embarque. Muito cansados chegamos em Colombo e encontramos o Alexandre, da Secretaria de Juventude de Minas Gerais. Ficamos mais uma hora esperando o ônibus que nos levou até o hotel.

No hotel, mais espera: estavam arrumando os quartos. Cansado, precisando de um banho e de dormir, só me restou matar a fome com o deliciosos café da manhã que me esperava. Porém, a comida aqui é extremamente condimentada, e só agora estou aprendendo quais pratos posso comer sem ficar com a boca ardendo. Colocam Curry em quase tudo. Diversas pimentas e pimentão também são muito usados na culinária local e, claro, a canela, nativa do Sri Lanka.

Dança típica do Srilanka, com uso de tochas. Ao vivo em um programa de TV.

Dança típica do Srilanka, com uso de tochas. Ao vivo em um programa de TV.

Os voluntários que trabalham neste evento são muito prestativos e os singaleses em geral são extremamente simpáticos. O país todo está enfeitado com bandeiras do WCY e de todos os países do mundo, a mídia local dá muita atenção ao evento. E há um bom motivo para isso: o Sri Lanka vivia uma guerra civil até 2009, e em 2010 o país se candidatou para sediar este evento, que desde então vinha sendo preparado, acabou virando símbolo de uma nova página na história do país. O investimento feito na juventude é realmente impressionante.

No dia 5 fomos a uma apresentação cultural no Stein Studios. Ao chegar lá descobri se tratar de um estúdio de televisão, e quando entrei no auditório já estávamos ao vivo para o país todo. No dia seguinte viajamos para outra cidade, onde a abertura do evento aconteceu em um centro de concenções enorme recém-construído. Lá, assim como no Stein Studios, fomos recepcionados por artistas tocando música. Subimos uma escadaria imensa cercados de músicos em trajes típicos e mulheres segurando as bandeiras dos países. Dentro do prédio, mais moças em trajes típicos faziam a saudação típica do país, curvar-se com as palmas das mãos unidas, para dar as boas vindas. Tivemos que esperar algum tempo até a chegada do presidente do país, e então tivemos a cerimônia de abertura, também transmitida pela TV.

Depois disso almoçamos com o presidente e, durante a viagem de volta, nosso comboio parou na beira de uma praia, onde nos esperávamos com comida e música. Imaginem uma balada na beira da praia com todo mundo trajando gala ou roupas étnicas. Foi isso que aconteceu.

Discurso do presidente do Sri Lanka na cerimonia de abertura da Conferência

Discurso do presidente do Sri Lanka na cerimonia de abertura da Conferência

No dia 7 conheci o Dinesh, esperantista local. Ele foi até o local da conferência e me telefonou para nos encontrarmos, mas como agora fico o dia todo em plenárias e mesas redondas, não deu para conversarmos muito. Este foi o primeiro dia da conferência propriamente dita, com discussões acerca do passado: um balanço do que foi feito até aqui, especialmente sobre os Desafios do Milênio. No dia 8 a discussão é o agora, o que temos, o que podemos fazer, e por fim, no terceiro dia, se discutirá o futuro que queremos e quais as metas para chegar lá.

Talvez por se tratar de uma conferência menor e mais restritiva que a Rio+20, o nível de inglês da maioria dos participantes é melhor, mas mesmo assim é possível perceber que os falantes nativos estão em vantagem, bem como que asiáticos e africanos têm muito mais dificuldade com a língua. Nas plenárias há interpretação simultânea em seis línguas. Conheci alguns africanos que só conseguem se comunicar em francês, conheci um rapaz de Cabo Verde e uma moça da Argentina que falam bem o português, e mesmo os latino-americanos que dominam o inglês preferem se expressar em castelhano sempre que possível, aliás, todo dia há reuniões de grupos de trabalho regionais, e o grupo da América Latina decidiu usar o castelhano como língua de trabalho, permitindo a muitos expressar com facilidade o que não conseguem nas outras reuniões.

Notei também um problema grave: no meu primeiro grupo de trabalho de hoje, sobre discriminação, consegui colocar o tema “políticas linguísticas” em uma lista de temas não contemplados pelos Desafios do Milênio. Outras pessoas deram outras contribuições interessantes sobre outros temas, e no fim essas demandas foram endereçadas como “”direitos humanos”. Ou seja, após serem discutidas formas de discriminação que demandam políticas específicas, o que atravessa o filtro é que os Desafios do Milênio pouco contemplaram os direitos humanos. E a partir daí é possível se pensar em uma agenda que contemple direitos humanos sem contemplar essas demandas específicas. Se fizeram isso no grupo sobre discriminação, imaginem o que podem fazer, por exemplo, no grupo de segurança alimentar? Todo mundo levanta a bandeira de agricultura familiar e o fim dos transgênicos, daí isso é encaminhado como “investir em novas formas de produção agrícola” e surge uma meta que resulta em subsídios ao latifúndio e envenenamento da terra e dos rios. Estamos tentando convencer a ONU a aceitar que uma das metas do Pós-2015 seja escolhida exclusivamente pela juventude, o que é excelente. Porém, rumores sobre uma possível privatização desta nova agenda são cada vez mais frequentes, devido ao poder de lobby das grandes corporações que ganham cada vez mais espaço nos debates internacionais.

Mas então o que estamos fazendo aqui? Será tudo em vão? Apesar de tudo acho que temos sim que nos dedicar ao máximo. Trabalhamos pelo que é justo, pelo bem das futuras gerações, e devemos preencher da melhor forma possível cada espaço que nos foi dado. A participação da sociedade civil junto à ONU e aos governos é uma árdua conquista, e infelizmente esses espaços são muitas vezes subaproveitados. Independente de quais propostas serão efetivamente adotadas, bem como descaracterizadas para atender a interesses alheios, um dia, quando nos perguntarem o que fizemos, poderemos responder que fizemos o nosso melhor. Não conseguir mudar o mundo não é um fracasso, o fracasso é não tentar, e fracasso maior ainda é tirar proveito das desigualdades. Eu detestaria estar na pele de quem faz isso.

2 respostas para “Primeiros dias no Sri Lanka”

  1. Fernando Maia Jr. says:

    Rafa, excelente texto! Fiquei emocionado com a descrição humana dos detalhes do evento. E fico orgulhoso de estar ao seu lado nas nossas atividades diárias por um mundo naturalmente justo e humano. Gratulon! Parabéns!

  2. Fomos com um grupo de Esperantistas em EYE, evento duma forma semelhante, mas organizado no Parlamento Europeu. Reconheço o seu sentimento q é difícil ser verdadeiramente escutado, e a impressão que usam esses eventos para lavagem de política… 🙁 Felizmente o nosso voluntário de TEJO e candidato europeu pro partido pirata conseguiu ficar em pé sobre o assunto de copyright, a qual a responsável reagiu bastante forte, dizendo q direito autoral é mt importante pq artista tem q ser pago… Sobre a importância de Esperanto a gente principalmente estava ativo no andar do evento mesmo.

    Eu sendo sincero não acho q pelos eventos q organizam de cima pros jovens teremos verdadeira influência. O único caminho será pela irrelevância do que há…