Rio+20

Escrito por em Jul 2, 2012 em Blog, rafael | 265 comentários

Rio+20

No dia 13 começou a Rio+20. A primeira palestra do dia era justamente a dos esperantistas, intitulada “Soluções sustentáveis para o século XXI”. Os palestrantes foram Ursula Grattapaglia, Renata Ventura e Francisco Stefano Wechsler. Os três fizeram apresentações muito interessantes e esclarecedoras. A sala que nos foi destinada era enorme, cheia de mesas com microfones e telões.

Para ir e voltar do Riocentro usávamos as linhas de ônibus gratuitas para transporte de delegações, e durante uma dessas viagens tive a oportunidade de conversar com um membro da delegação da Nigéria que viajou ao meu lado, falei a ele sobre o nosso movimento e lhe dei meu cartão de visitas. Aliás, de tanto trocar cartões acabei voltando para Campinas com uma pilha enorme de cartões de contatos que fiz. Várias vezes viajei ao lado do meu amigo Jimes, e conversávamos em esperanto no ônibus. Uma dessas nossas conversas foi interrompida por uma professora da ECA-USP que desejava saber se estávamos conversando em esperanto: o grupo dela desenvolvia pesquisas relacionadas à língua, que ela nunca havia estudado, mas conseguiu identificar ao ouvi-la. Aliás, é comum as pessoas me dizerem que nunca ouviram esperanto na rua, mas quando converso em esperanto em público noto que as demais pessoas pensam se tratar de uma outra língua qualquer.

Ao longo do evento fizemos diversas intervenções em reuniões e palestras para discutir questões ligadas a democracia linguística. Eu fui convidado para participar de dois eventos graças ao concurso Date With History: no primeiro, dia 18, eu repeti meu discurso em esperanto enquanto as legendas em inglês passavam no telão, e no dia 19 estive com a Brittany Trilford, que no dia seguinte abriu a conferência com seu emocionante discurso iniciado com uma saudação na língua maori, Severn Suzuki, que calou o mundo há vinte anos ao discursar na abertura da Rio92, e os outros dois finalistas do concurso que eu conheci no Youth Blast, Christian Herrera e Alexandra Alhadeff. Ao final do evento tiramos uma foto, todos juntos, e da qual me orgulho porque nela estão grandes ativistas que trabalham por um mundo melhor, pessoas que aprendi a admirar por serem jovens idealistas como eu, que não apenas sonham, mas têm coragem de lutar por um mundo melhor, de construir o futuro em meio à incredulidade daqueles que nada fazem. Mas voltando à língua maori que a Brittany usou para saudar os chefes de Estado, descobri um dicionário Maori-Esperanto-Maori disponível para download gratuito na internet.

Severn Suzuki, Alexandra Alhadeff, Christian Herrera, Brittany Trilford e eu

Contudo, o mais marcante nesse evento foi justamente a discriminação linguística reinante e a dificuldade de comunicação, mesmo com tantos tradutores, intérpretes e aparelhos sofisticados de tradução simultânea. Acostumado à boa e tão natural comunicação direta dos congressos de esperanto, vivi uma experiência enriquecedora, mas ao mesmo tempo revoltante: percebi que as delegações dos países mais pobres eram as que mais tinham dificuldade com línguas estrangeiras, tendo obviamente mais dificuldade de argumentar e debater suas opiniões. Além disso, vi pessoas sendo proibidas de falar suas línguas, como no caso de uma venezuelana que não pôde fazer uma pergunta em castelhano para um argentino: ela teve que perguntar em inglês (que não dominava com fluência) para o argentino ouvir a tradução e responder em castelhano.

Outro fato que me chamou a atenção foram os privilégios concedidos aos nativos em língua inglesa: já repararam que a maioria dos diretores de ONGs internacionais são nativos em inglês ou moram/moraram em um país anglófono por anos? Isso é especialmente verdade entre aqueles que precisam falar em público com mais frequência. Muitas pessoas ficaram limitadas às salas onde havia tradução para suas línguas e não podiam conversar informalmente com outras pessoas por causa da barreira linguística. E o que dizer da maioria dos brasileiros, que não têm a oportunidade de estudar uma língua estrangeira? E aqueles, como eu, que estudaram línguas durante anos, mas nunca tiveram oportunidade de morar no exterior para adquirir fluência, uma vez que as línguas nacionais são cheias de particularidades que refletem a cultura de seus falantes nativos, não podendo, por isso, ser plenamente dominadas fora daquele ambiente? Infelizmente os governos preferem essa política linguística altamente excludente à adoção do esperanto, nitidamente mais vantajoso por sua neutralidade, poder de expressão e facilidade de aprendizado, dentre outros fatores. Basta ir a um congresso internacional de esperanto para constatar que nele todos se comunicam com facilidade e naturalidade. Como nos uniremos para resolver problemas mundiais sem uma língua neutra para comunicação igualitária entre os povos? O esperanto é uma língua sustentável, pois estabelece relações igualitárias entre os povos, dando oportunidades iguais a todos, e ainda possui uma ideia interna que incentiva a cooperação internacional.

3 respostas para “Rio+20”

  1. Parabéns pela experiência em um verdadeiro congresso internacional.
    Onde que apesar de tanto enfoque no zelo pelas diversidades culturais, ocorria corriqueiramente exatamente o problema a qual vocês lutaram por expor á estas mesmas diversas culturas, a dominação linguística e suas consequências excludentes.
    Destaque a esta por vocês observada num evento na América Latina e ainda sobre o nosso idioma castellano.

    As palestras foram filmadas? Gostaria de vê-las.

  2. Rafael, parabenizo-o pelo trabalho realizado durante a Rio+20. Também aplaudo sua argumentação no texto acima. A semente foi lançada. Pode até demorar, mas vai germinar. Sigamos adiante.

  3. Rafael Henrique Zerbetto says:

    Olá Bira e Fabiano!

    Valeu pelas palavras de incentivo. Ficou evidente para mim que o caos linguístico favorece a propaganda do esperanto, pois as pessoas se interessam muito mais pelo assunto quando estão vivenciando o problema do que quando não se sentem afetadas. Talvez essa seja uma das razões do movimento esperantista ser mais forte na Europa.

    Muito eventos, mas nem todos, foram filmados, muitos por causa de telão e não sei se conservaram as imagens. Não há registro de tudo, e as coisas que estão registradas não sei quem registrou, mas talvez dê para encontrar na internet.