Segundo e terceiro dias da WCY

Escrito por em May 16, 2014 em rafael | 265 comentários

Estou tendo dificuldades para acessar a internet, mas sempre que puder atualizarei o blog.

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Uma coisa que notei na WCY é a desigualdade nas relações norte-sul. Conversando com outros sul-americanos e africanos notei que o sentimento era o mesmo. Isso inclusive foi falado nas reuniões da América Latina. Negociadores normalmente são europeus, e muitos delegados de países do norte se mostraram fechados a debates com pessoas do sul, não todos, é claro, conheci muitas pessoas legais vindas da Europa, simpáticas e abertas ao diálogo, mas era possível notar alguma segregação por parte de alguns grupos extremamente fechados, que interagiam com gente do sul somente nos grupos de trabalho.

Trabalhando no hotel, tarde da noite, após um dia de conferência.

Trabalhando no hotel, tarde da noite, após um dia de conferência.

O evento aconteceu em um centro de convenções enorme, com um monte de auditórios luxuosos, mas as reuniões do grupo da América Latina eram as únicas de um grupo regional acontecendo no pavilhão E, um pavilhão provisório sem isolamento acústico e ainda por cima com eco, o que dificultava muito o andamento dos trabalhos. Também o grupo de trabalho sobre discriminação se reuniu neste pavilhão, e já no primeiro dia ironizamos dizendo que o grupo sobre discriminação estava sendo discriminado por fazer suas reuniões em um local tão ruim enquanto os outros contavam com conforto e acústica adequada. Os grupos de trabalho dos quais participei mais ativamente, o acima citado e também o de Recreação, Esporte e Cultura, foram todos neste pavilhão, e era nele que eu me sentia mais à vontade.

Muitas pessoas tinham grande dificuldade de comunicação, africanos procuravam falar em francês sempre que podiam, e mesmo brasileiros se sentiam mais à vontade falando portunhol com outros latinoamericanos do que usando o inglês que estudaram durante anos. Na plenária do segundo dia assisti a um discurso de um africano em francês e percebi que quase ninguém usava fones de ouvido para ouvir a tradução, ao invés disso, muitos saíram da sala ou ficaram navegando na internet, como se nós do sul nada soubéssemos ou tivéssemos a dizer. Isso me fez lembrar de 2012, quando fui convidado para discursar no encerramento do Youth Blast no Rio de Janeiro. Eu tinha a opção de discursar em português, que era uma das línguas oficiais do evento, mas ao subir no palco e olhar a multidão ao meu redor, notei que somente os latino-americanos tinham fones de ouvido para ouvir tradução do inglês, enquanto a maioria dos europeus e norte-americanos não estava com fones, só se interessavam por ouvir o que era dito em inglês, e foi por essa razão que optei por discursar em inglês. Afinal, acima de tudo queria ser ouvido.

Último dia de negociações em Colombo

Último dia de negociações em Colombo

Essas questões me deixaram muito triste, nos meus relatos sobre a Rio+20 contei sobre diversos casos de discriminação linguística ou problemas de comunicação, mas somente agora me lembrei deste outro problema: em muitos eventos internacionais há intérpretes e equipamentos que nos permitem ouvir os discursos na língua que melhor dominamos, mas por outro lado muita gente, incluindo negociadores da ONU e outras pessoas com grande poder de lobby, só se interessam pelo que é dito em inglễs. A interpretação simultânea é um recurso criado para a inclusão, para dar voz a mais pessoas, mas no fim das contas esta inclusão é ilusória, pois a discriminação continua existindo.

No Grupo de Trabalho sobre Discriminação me senti muito confortável, minhas ideias eram bem recebidas, além da forte interação com pessoas marginalizadas: cegos, negros, pessoas que vivem em sociedades de casta, deficientes físicos, cada um falando de suas dificuldades e causando mais revolta em mim. Sempre tive muito apoio do grupo para lançar propostas referentes a discriminação linguística, mas um funcionário do Ministério de Esporte e Cultura do Bahreim (que, ironicamente, não participou do grupo de trabalho ligado à sua área, e por isso suponho que os interesses dele eram barrar direitos humanos) sempre tentava sintetizar as propostas do grupo em uma redação genérica incapaz de criar perspectiva de mudança.

Também neste dia a Luana, uma ativista brasileira que trabalha com discriminação me convidou para uma reunião informal sobre racismo, castas e outras formas de discriminação. Deixei de ir a uma reunião de um grupo de trabalho para me sentar à mesa com indianos e africanos, incluindo um surdo, e debatemos a versão provisória do documento, buscando melhorar a redação para não nos excluir, e o preconceito linguístico foi inserido. Depois as propostas foram levadas para grupos de discussão oficiais e, se não me falha a memória, também para delegações de alguns países. No dia seguinte veio a boa notícia: foram incluidas menções ao racismo e ao preconceito linguístico na Carta de Colombo.

No terceiro dia do evento acabei deixando de ir à reunião sobre discriminação para ir à do Grupo de Trabalho sobre Empreendedorismo e Pleno Emprego. O motivo para isso foi a oportunidade de conversar com o secretário nacional de juventude do Brasil, que teria uma fala neste grupo. Porém, ele cancelou este compromisso devido à necessidade de continuar participando intensamente das negociações com delegações de outros países e da juventude. Gostei da atitude dele, pois o Brasil me parece ter sido o país que mais ouviu os jovens e melhor defendeu as propostas enviadas pelos grupos de trabalho (para entender como funciona: cada grupo debate um tema e lança propostas à redação do documento. Essas propostas são levadas pelos facilitadores aos negociadores, que se inteiram da posição do grupo, encaminham e defendem as propostas com as delegações oficiais dos países).

Último dia de negociações em Colombo

Último dia de negociações em Colombo

No grupo sobre empreendedorismo e emprego não me senti à vontade para falar, havia muitos europeus que me barravam constantemente. Depois descobri que até tinham uma justificativa: no dia anterior a reunião do grupo regional europeu havia sido muito tumultuada devido à pressão para incluir no texto menções aos ciganos e outros grupos minoritários da Europa, enquanto outros pregavam um texto mais genérico. Talvez isso explique porque toda hora que eu falava algo sobre línguas me cortavam rapidamente e diziam “isso está incluído em (qualquer coisa genérica)”. Mas o fato é que apesar disso, em nenhum momento me senti confortável naquele grupo, senti que não era bem vindo ali, havia alguns europeus monopolizando o debate e cortando os outros, estavam bem introsados entre eles, aparentemente já haviam debatido longamente o que proporiam e só queriam se livrar de propostas “inconvenientes” vindas de quem vinha de outro continente, talvez até de outros europeus com outra opinião.

Irritadíssimo, almocei e fui para minha última reunião do Grupo de Trabalho sobre Recreação, Esporte e Cultura. Na semana anterior um dos organizadores da WCY havia prometido a uma ativista da TEJO me convidar para discursar naquela mesa, mas depois mudou de ideia. De qualquer forma, foi uma mesa excepcional, de altíssimo nível. A última fala foi de uma representante da UNESCO, que discutiu diversas questões ligadas a cultura e que tinham ligação com línguas. Nos mostrou um vídeo em castelhano sobre diversidade cultural e depois pediu desculpas por não ter uma versão em inglês. Abriram a sessão para perguntas e comentários. Pedi a palavra e me deram o microfone. Era o momento de abrir não só a boca, mas também o coração. Momento de botar pra fora aquilo que me revoltava. Comecei parabenizando-a pelo vídeo em castelhano. Como cidadão latino-americano aquilo havia me deixado extremamente contente, e falei sobre a necessidade de se respeitar a diversidade linguística do planeta, adotando em seguida um tom severo para dizer que para nós, latino-americanos, o inglês é sentido como uma forma de imperialismo linguísto imposto pelo norte aos países do sul. É o tipo de discurso que eu evito, para não fortalecer a ideia de que o esperanto é um movimento anti-inglês, pois nossa bandeira é a promoção da diversidade e das trocas culturais através de uma língua mais justa para a comunicação entre pessoas em situações internacionais. Reconhecemos o valor cultural do inglês e o apoiamos como forma de comunicação e expressão cultural dos países anglófonos, o que condenamos é sua imposição, por razões econômicas, aos debates internacionais, dando privilégios aos seus falantes nativos e gerando desigualdade. É essa percepção do inglês como uma imposição injusta que leva latino-americanos a preferirem o portunhol para a comunicação regional, pois somos povos profundamente ligados por uma história em comum de exploração e sofrimento impostos por reinos ibéricos, e é natural sentirmos tanto o português quanto o castelhano (além de qualquer mistura dessas línguas) como parte de uma identidade em comum, até porque possuem uma mesma origem.

Na platéia vi olhares de aprovação: quase ninguém ali era nativo em inglês, a maioria tinha dificuldade para se expressar nessa língua e compartilhava deste meu sentimento. Peguei uma lista de links para documentos sobre cultura e inclusão indicados pela panelista e indiquei mais um: o relatório da UNESCO “Why Language Matters for the MDGs” (Por que as línguas importam para os Desafios do Milênio). Ela respondeu falando de iniciativas de alguns governos sobre promoção de igualdade linguística, destacando o Sri Lanka, onde o ensino é trilíngue (tamil, singalês e inglês), comentou sobre minha menção a este relatório, que ela havia inclusive usado em discussões anteriores, durante o andamento dos trabalhos visando a elaboração da versão zero da Carta de Colombo. Nos separamos em grupos de trabalho, depois nos reunimos novamente para uma discussão final (já não havia mais tempo de submeter nossa conclusão à apreciação das delegações, mas nossas conclusões foram encaminhadas para se tornarem um possível anexo) e ela veio conversar comigo, agradecendo a minha intervenção. Trocamos cartões de visitas.

Festa de encerramento da WCY

Festa de encerramento da WCY

Na mesma reunião uma moça veio conversar comigo, dizendo conhecer pessoas da TEJO. Não só ela, mas também no ônibus, no hotel, em diversos lugares encontrei gente que conhece e elogia o trabalho da TEJO. O dia que começou mal terminou maravilhosamente bem, com a Luana me contando o resultado da nossa mobilização. Fui assistir um pouco das negociações e vi o Brasil fazer uma proposta em favor das mídias sociais, o que também foi do meu agrado, já que atuo nessa área com a Muzaiko. Extremamente cansado, mas também aliviado, ia para o hotel descansar, mas me avisaram de uma festa de encerramento na frente do prédio principal. Tive pique para ficar um pouco na festa, que estava bem animada. Dancei com gente de todo canto e singaleses pediam para tirar fotos comigo. Cheguei ao hotel tarde da noite para dormir e acordar cedo no outro dia, quando tomei café da manhã com pessoas que haviam acabado de chegar após passarem uma noite inteira dançando.

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