Toruń: terra de Copérnico e Grabowski

Escrito por em Feb 15, 2015 em rafael | 264 comentários

Estou de volta ao Brasil já faz alguns dias, mas só agora tive tempo de escrever sobre meus últimos dias em Poznań. No próximo texto relatarei como foram os últimos dias de aula e a viagem de retorno ao Brasil, que incluiu um breve passeio em Berlim. Agora quero me ater a um passeio muito especial que fiz com meus colegas de curso: após o fim das aulas fomos todos de trem passar um dia em Toruń, onde fomos recebidos com muito carinho pelos esperantistas locais.

Nos encontramos na estação central de Poznań às 8 da manhã, e de lá seguimos de trem para Toruń. A viagem dura cerca de duas horas, com o trem parando em diversas estações pelo caminho. Contenplei as belas paisagens que vi pelo caminho, e me lembro bem de um grupo de cervos fuçando a neve em busca do capim abaixo dela, e de umas galinhas ciscando na neve, bem ao lado dos trilhos. Chegamos a Toruń após uma viagem tranquila e uma esperantista local nos esperava na estação.

A casa de Copérnico, no centro da cidade.

A casa de Copérnico, no centro da cidade.

Após tomar café da manhã pegamos um ônibus para a cidade. Atravessamos o rio Vistula por uma ponte de ferro que à noite fica toda iluminada, e chegamos ao centro histórico da cidade. Caminhamos por uma rua e de repente estávamos na casa onde morou Nicolau Copérnico, e que hoje funciona como museu. Nela há uma apresentação multimídia com uma maquete iluminada, que conta a história da cidade, e assistimos à apresentação narrada em esperanto. Visitamos brevemente o museu e de lá fomos para a catedral onde Copérnico foi batizado, mas não a visitamos.

Depois de uma breve parada em um café, fomos até a Casa de Cultura da Juventude, onde um grupo de jovens artistas locais nos aguardava para uma apresentação de teatro e poesia em esperanto. De lá seguimos para as ruínas do antigo castelo erguido por cavaleiros durante as cruzadas, e ao redor do qual cresceu a cidade. O castelo foi destruído em uma rebelião popular, os cavaleiros foram expulsos e com parte das ruínas do castelo foi obtida a matéria-prima para a construção de um prédio de três andares para festas e reuniões dos moradores da cidade. No antigo fosso do castelo hoje em dia há um parquinho para as crianças brincarem.

Centro da cidade

Centro da cidade

Após o almoço visitamos o Colégio Nicolau Copérnico, o mais tradicional da cidade. Diante do laboratório de química uma placa traz a homenagem a um grande químico, e também esperantista, polonês: Antoni Grabowski, um dos principais colaboradores na elaboração do primeiro dicionário de termos técnicos de química em língua polonesa, e que foi um dos fundadores da Associação Polonesa de Esperanto e talvez o maior tradutor de poesia para o esperanto. Sua tradução de Senhor Tadeu, de Adam Mickiewicz, além de ser modelo estilístico, tornou a obra máxima da literatura polonesa mundialmente conhecida. Acredita-se que o primeiro diálogo em esperanto tenha acontecido em Varsóvia, justamente entre Grabowski e Zamenhof.

Seguimos para o museu de etnografia. Nossa visita foi guiada em esperanto e recebemos panfletos também em esperanto. O antigo prédio que um dia abrigou cavalaria, e mais tarde um paiol de armas do exército, hoje se presta à função de museu. Aprendemos muito sobre cultura e tradições polonesas, e a exposição tinha como tema a arte de enfeitar, mostrando como as pessoas de diversos grupos étnicos da região enfeitavam suas roupas, ferramentas, casas, etc.

Café oferecido por esperantistas locais. Reparem no salão enfeitado para o carnaval

Café oferecido por esperantistas locais. Reparem no salão enfeitado para o carnaval

Após esta visita, fomos convidados para um café. Pensei que iríamos a uma cafeteria, mas ao adentrar o prédio anexo ao museu, diversos esperantistas locais nos aguardavam com uma mesa cheia de café, chá e biscoitos, com destaque para os biscoitos de especiarias, iguaria tradicional de Toruń, parecida com um pão de mel. Após momentos agradáveis e descontraídos, ainda demos uma volta pela cidade antes de nosso retorno à estação: vimos as muralhas, a prefeitura, a universidade Nicolau Copérnico, igrejas, uma penitenciária redonda, fruto do pensamento de um filósofo inglês que acreditava terem as construções redondas a capacidade de melhorar as pessoas…

O violinista de Toruń, que livrou a cidade das rãs

O violinista de Toruń, que livrou a cidade das rãs

Especialmente interessante para mim foi conhecer uma lenda local: certa vez, na idade média, Toruń foi tomada por rãs, e ninguém sabia como afugentar os bichinhos. Certo dia um comerciante de madeira vindo de longe chegou à cidade, e ao tocar seu violino percebeu que as rãs o admiravam, então teve a ideia de ir embora tocando música, e as rãs o seguiram. Ao sair da cidade ele atirou seu instrumento em um lago, as rãs pularam atrás dele e nunca mais voltaram para a cidade. Como recompensa o rapaz ganhou a mão da filha do prefeito. É ou não é uma história muito parecida com a do flautista de Hameln? Lembrando que no ano retrasado estive em Hameln, outra cidadezinha acolhedora…

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