UK em Buenos Aires

Escrito por em Sep 16, 2014 em rafael | 265 comentários

Cheguei tarde em Ezeiza, o aeroporto mais distante do centro da cidade, e iria me hospedar na casa de um esperantista, Jorge Montanari, durante a primeira noite, para no dia seguinte me mudar para um albergue próximo ao local do congresso. Como meu celular pifou em Fortaleza e o dele estava sem bateria, ele me pediu para esperá-lo no aeroporto, e lá ficamos eu e Fábio à espera, cada um vestindo várias blusas, sob um frio intenso. Montanari nos pegou no aeroporto. Fábio seguiu para um albergue anteriormente reservado. No dia seguinte de manhã fui para meu albergue de táxi, com outros dois hóspedes do Montanari, que, assim como eu, se hospedaram próximo ao hotel Panamericano, local do congresso, durante aquela semana.

 

Reencontrando amigos após minha chegada ao Hotel Panamericano.

Reencontrando amigos após minha chegada ao Hotel Panamericano.

Na recepção do albergue me encontrei com um esperantista espanhol que não via há muito tempo: Juan Antonio Torres, violonista de primeira, que infelizmente teve que encerrar a carreira após um acidente de carro que lhe tirou os movimentos de uma das mãos. Conversamos e acabamos indo juntos para o Panamericano. No caminho encontramos o Alberto Calienes, esperantista cubano que no dia anterior esteve comigo em Fortaleza.

 

No hotel, vários rostos conhecidos, amigos que não via há muito tempo, reencontro com gente que estava comigo em Fortaleza ainda no dia anterior, a alegria do reencontro nos rostos de todo mundo. Recebi meu material do congresso e voltei para o albergue, onde reencontrei um dos primeiros estrangeiros que conheci através do Esperanto, um argentino chamado Rubén, que participou do meu primeiro encontro de esperantistas, em Wanda, Argentina, em 2006. Ruben foi meu companheiro de quarto em Buenos Aires, alugamos um quarto quádruplo, nós dois, outro argentino, participando de seu primeiro congresso, e um cubano. Alugamos um quarto com banheiro, mas não havia banheiro no quarto, apenas uma chave para abrirmos a porta do banheiro do outro lado do corredor, de uso exclusivo, mas fora do quarto.

 

Mesa de abertura do UK

Mesa de abertura do UK

Vários outros esperantistas se hospedaram no mesmo albergue, então sempre tinha companhia para ir e voltar do congresso. No dia seguinte aconteceria a abertura do congresso, e como fui diretor da programação temática, isto é, responsável pela organização e pelo andamento dos debates em torno do tema do congresso, bem como pela redação da resolução do congresso, precisava terminar de escrever o meu discurso para a cerimônia de abertura, que comecei a escrever no avião mas ainda não havia terminado, e fiquei até de madrugada cuidando disso. Enviei o texto para imprimirem e no dia seguinte o recebi, impresso, antes da abertura do evento.

 

Pela primeira vez me sentei à mesa durante a abertura do UK. Jorge Montanari, na condição de Reitor da Universidade Internacional do Congresso, sentou-se ao meu lado. A Rádio Internacional da China registrou o meu discurso de saudação aos congressistas:

http://esperanto.cri.cn/721/2014/08/12/176s165298.htm

Kafejo

Ao longo da semana não tive tempo para passear, pois os debates sobre o tema do congresso eram sempre no meio do dia, e fora desse horário participei de diversos debates e reuniões. No aeroporto não consegui trocar dinheiro devido a um problema momentâneo no sistema do banco, e nos primeiros dias de congresso não tive como ir ao banco trocar. Me chamou a atenção a quantidade de cambistas nas ruas oferecendo câmbio de maneira informal. Iniciamente tive receio de ser perigoso, poderia ser assaltado ou receber dinheiro falso, e o risco realmente existe, mas nenhum dos meus conhecidos teve problemas ao usar estes serviços. O câmbio oficial pagava pouco mais de três pesos por um real, fora os impostos e taxas, mas percebi que é comum o comércio portenho aceitar pagamento em reais, normalmente por um câmbio mais favorável que o oficial, podendo chegar até mesmo a cinco pesos por um real, que é o câmbio das ruas. Assim, paguei o albergue em reais (câmbio 1:4) e certa vez paguei a conta do restaurante em reais e as demais pessoas me pagaram em pesos, me abastecendo de dinheiro para a semana toda.

 

Quem leu meus relatos sobre os UKs do Vietnã e da Islândia, sabe que em ambos congressos eu participei de excursões, mas em Buenos Aires os preços estavam acima do que considero aceitável, e optei por não encomendar excursão alguma e passear por conta própria na quarta-feira, dia exclusivo para excursões. Neste dia participei no ago-tago, atividade que visa divulgar o esperanto para as pessoas nas ruas, de manhã, e à tarde fui de transporte público com esperantistas visitar o Malba – Museu de Arte Latino-americana de Buenos Aires. Fomos de metrô até parte do caminho, sendo que entramos no metrô sem pagar (perguntamos para o guarda onde adquirir bilhetes e ele respondeu abrindo uma porta lateral e mandando a gente passar sem pagar), mas tivemos que continuar a viagem de ônibus, e aí mais um problema: em Buenos Aires os ônibus só aceitam moedas, que são escassas, e a forma mais fácil de se usar o transporte público é adquirindo um SUBE, um cartão semelhante ao Bilhete Único brasileiro, que custa baratinho e vale a pena. Eu era o único com este cartão, então todos me deram dinheiro, coloquei créditos em uma loja e paguei todos os passes de ônibus.

 

Show da banda Supernova no Metropolitan

Show da banda Supernova no Metropolitan

A parte artística do congresso contou com apresentações de danças e músicas típicas durante a Nacia Vespero (noite artística nacional), e tivemos também a Internacia Vespero (noite artística internacional, quando congressistas de diversos países apresentam algo de sua cultura), um monólogo sobre a vida de Tiradentes apresentado por Amarílio Carvalho e exibição de dois filmes em Esperanto. As principais atrações, porém, foram os shows de Manuel (cantor italiano) e Supernova (banda brasileira de rock). O ex-ministro Joaquim Barbosa deu uma passada no Teatro Metropolitan pouco antes deste show, para comprar ingressos para uma apresentação de outro dia, e acabou assistindo ao show da Supernova também. Depois deste show fui com um grupo de esperantistas para um bar onde colamos adesivos de bandeiras na roupa para sinalizar para as demais pessoas quais línguas queremos praticar (e é claro que eles têm a bandeira do Esperanto). O bar estava lotado e tinha muito barulho, mas apesar disso foi uma experiência muito divertida.

 

Seleção Esperantista de Futebol

Seleção Esperantista de Futebol

Outra atração incomum neste UK foi o primeiro jogo de futebol oficial da Seleção Esperantista de Futebol. Nossa seleção, de participantes do UK, jogou contra a seleção da Comunidade Armena Argentina, que se prepara para os jogos Pan-Armenos do ano que vem, valeu como jogo oficial pela NF-Board, a liga de seleções não-FIFA, e saiu até no Olé. Infelizmente não ganhamos a partida, mas nada estragou o clima de festa.

 

Escrever a resolução do congresso foi uma tarefa que me tomou tempo, éramos um grupo de quatro pessoas para redigir o texto, e acabamos fazendo um bom trabalho, apesar da pressa. No encerramento do congresso, logo após ler a resolução para o público, fiquei com a gostosa sensação de missão cumprida e aproveitei a tarde para passear com outros esperantistas: vimos a estátua da Mafalda, a Casa Rosada, passeamos em Puerto Madero, tirei foto ao lado de uma escultura de Fangio com seu carro de fórmula 1. À noite participei de um delicioso jantar com os organizadores do congresso e me serviram um churrasco delicioso.

 

Esperantistas brasileiros junto à estátua de Juan Manuel Fangio.

Esperantistas brasileiros junto à estátua de Juan Manuel Fangio.

Fiquei na cidade por mais dois dias, aproveitei para passear, descansar, tomar sorvete de doce de leite e beber vinhos (duas coisas que não se pode deixar de fazer em Buenos Aires). Foi um congresso que, assim como os anteriores, deixou saudades.

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