Um pouco mais sobre o Sri Lanka

Escrito por em May 21, 2014 em rafael | 265 comentários

Suspeito que por aqui o conceito de turismo é diferente do nosso, pois muitos singaleses dizem que, após conhecerem um lugar diferente, não há motivo para voltar, porque é um lugar que já conhecem, bem ao contrário de quem desce pra baixada santista todo fim de semana. Já os turistas estrangeiros que chegam aqui se dividem em dois grupos: os jovens mochileiros em busca de experiências diferentes, e idosos europeus como os que chegavam aos montes no meu hotel em Colombo quando eu estava de saída, que passeiam de ônibus com guia algumas vezes na semana e passam o resto do tempo bebendo no bar do hotel (pelo menos foi isso que me disseram). Aliás, essa forma de turismo é a mais comum por aqui, e talvez isso explique porque, embora haja muitos turistas estrangeiros, o povo não está acostumado a ter contato com eles.

Já fui diversas vezes a Ja-Ela com o Zeiter. A gente vai de transporte público, para mim é uma aventura e tanto. Aqui no Sri Lanka usa-se mão inglesa, nos primeiros dias da WCY eu estranhava, diversas vezes contornei o ônibus para dar de cara com uma não-porta, voltar e entrar pela porta do lado esquerdo. Também a primeira vez que andei no banco da frente do carro do sobrinho do Zeiter me atrapalhei todo, pois abri a porta direita e dei de cara com o volante, dei a volta e entrei do lado esquerdo.

Interior de ônibus no Sri Lanka

Interior de ônibus no Sri Lanka

Os ônibus são velhíssimos e mal-conservados. Andam com a porta aberta, mas também já viajei em alguns que não têm mais porta. Normalmente param nos pontos de embarque e desembarque, mas também acontece da gente embarcar com o ônibus andando, normalmente quando ele começa a andar após uma parada e alguém faz sinal o motorista reduz a velocidade para a pessoa conseguir subir, mas não pára. Aliás, no Vietnã não usei transporte público, mas me diverti vendo as pessoas embarcando e desembarcando dos ônibus, pois lá eles realmente não param e nem reduzem drasticamente a velocidade, a pessoa vai correndo ao lado do ônibus, se segura em um suporte e assim consegue tirar os pés do chão e colocá-los dentro do veículo.

Por aqui é comum colocarem penduricalhos, geralmente um arame com pimenta e limão amarrados, no interior do veículo ou na frente. Também é comum ver imagens e gravuras representando Buda ou Jesus Cristo. Segurança não é uma grande preocupação, já vi uma gambiarra com parafusos para fixar uma saída de emergência, e creio ser impossível removê-la sem desparafusar tudo. Aliás, gambiarra é o que não falta nesses ônibus, que até têm um certo conforto, os bancos são de espuma e raramente viajo em pé, pois há muitos veículos, basta parar no ponto e esperar no máximo uns dois minutos para o ônibus chegar, mas eles não cumprem uma tabela de horários, os motoristas simplesmente saem da garagem e ficam rodando o dia todo. Já peguei ônibus lotado. Em alguns horários isso é inevitável.

Numa dessas viagens o ônibus entrou em um posto de gasolina. Pensei “não acredito que ele vai abastecer”. Abasteceu, e com o motor ligado, depois de uma complicada manobra em um espaço minúsculo para poder chegar perto da bomba. Seguimos viagem normalmente. Em outra ocasião, nosso ônibus subitamente parou e ficou um tempão parado. Perguntei o que estava acontecendo e o Zeiter me explicou: a polícia estava multando o motorista por excesso de velocidade. No Brasil os ônibus viajam bem mais rápido do que isso. Por aqui não existe faixa contínua na sinalização horizontal das vias, qualquer lugar permite ultrapassagens, daí freadas bruscas e três carros lado a lado na pista é comum de se ver, bem como sair da pista para evitar colisão, já que não há calçada, e isso certamente justifica as baixas velocidades. Existem, porém, muitas rodovias de pista dupla interligando as cidades, onde o limite de velocidade é 110 kṃ̣/h. Atravessar a rua no Sri Lanka é perigoso, é mais ou menos como no Brasil, só que com mais veículos: a gente calcula se vai dar tempo de atravessar na frente do carro e atravessa.

Rua no centro de Ja-Ela

Rua no centro de Ja-Ela

E por falar em combustível, a fumaça que sai dos escapamentos dos veículos daqui tem um cheiro horrível, e acredito que tenha alto teor de enxofre, pois já ouvi dizer que as grandes petroleiras do ocidente vendem combustível com alto teor de enxofre a preços baixos para diversos países pobres. As empresas criam seus discursos de responsabilidade ambiental, anunciam seus produtos como algo que traz qualidade de vida para a população e respeita o meio-ambiente. Na verdade se esconde a sujeira embaixo do tapete. E aqui é embaixo do tapete.

Uma coisa que gostei, além do curto tempo de espera, é a paciência que todos têm para embarcar. Em certa ocasião havia muita gente esperando para entrar, e quando o ônibus parou fizemos uma fila e esperamos as pessoas desembarcarem.

Ja-Ela não tem atrativos turísticos, a não ser as particularidades da cultura local, que podem ser vistas em qualquer lugar. Da última vez que estive em Ja-Ela não levei câmera, e de repente fui surpreendido por um caminhão transportando dois elefantes! Isso definitivamente não é uma cena comum no Brasil.

Também foi interessante visitar o mercado da cidade. Primeiro passamos em um açougue: pedaços de carne pendurados por ganchos e cheios de moscas em volta, uma balança de dois pratos para pesar a carne (até agora todas as balanças que vi são de dois pratos, com aqueles pesinhos de metal que se coloca em um prato para balancear o que está no outro), e um pedaço de tronco de árvore, todo sujo de sangue, usado para cortar a carne com uma faca velha e enferrujada. Aliás, há um vendedor de peixe que passa de moto aqui no bairro. Ele traz os peixes em uma caixa de isopor, as pessoas escolhem o que querem, ele pesa (na balança de dois pratos, claro), corta em postas e embrulha em jornal.

Os legumes, as verduras e as frutas são expostos em balcões de madeira forrados com sacos de estopa, normalmente sujos, e pesados em balanças de dois pratos. De um modo geral o mercado parece um barraco, com o teto mal feito, telhado curvado pelo desnível dos caibros, muitos deles remendados em diversas partes, e ao invés de telhas usam folhas de zinco, folhas grandes de plástico grosso, telhas eternit, tudo misturado dando ao mercado uma cara de favela. Sob o telhado há muitas teias de aranha. O chão é imundo. Por aqui não há fiscalização, e creio que nem legislação, sanitária.

Por outro lado, abusa-de da pimenta e de diversas especiarias que acabam ajudando a conservar a carne. Certo dia recebemos visita após o almoço, saímos e quando voltamos reparei que a comida tinha ficado em cima da mesa. Achei que seria jogada fora, mas foi nosso jantar, o tempero conserva os alimentos, e talvez por isso os singaleses tenham o hábito de comer tanta pimenta. Aliás, ter geladeira em casa é algo raro por aqui, e mesmo a família do Zeiter, que tem geladeira, prefere comprar alimentos para cozinhar no mesmo dia ou no dia seguinte, não se costuma usar geladeira para estocar comida, e creio que essa rapidez em consumir o que se compra contribui para que o alimento não estrague.

Quando acabou o arroz na casa do Zeiter, fui com ele à mercearia mais próxima e descobri que arroz aqui é vendido a granel. A mercearia é bem mais limpa que o mercado. Há um computador no caixa, mas fica a maior parte do tempo desligado, o dono é um velhinho que não sabe usar computador e soma as compras no papel, sem pressa, escrevendo o nome de cada produto (em singalês) em uma folha dessas de nota fiscal, e o preço na frente, depois faz as contas, pega o dinheiro e devolve o troco. Seus filhos também trabalham na mercearia, e diversas vezes ao dia colocam os pães em uma miniloja montada na traseira de um caminhão e rodam o bairro tocando uma musiquinha. As pessoas saem de suas casas e compram pão no meio da rua.

Adeel mostrando coisas do Paquistão para a filha do Zeiter

Adeel mostrando coisas do Paquistão para a filha do Zeiter

Fomos buscar o Adeel no aeroporto, que está lindo cheio de enfeites do Vesak, mas infelizmente não consegui fazer uma boa foto.

2 respostas para “Um pouco mais sobre o Sri Lanka”

  1. Alice says:

    Que interessante! tenho 2 amigas do Sirilanca! moro na alemanha , meu marido é alemäo! aqui tem muito estrangeiro! quero receber elas em minha casa! e näo sei o que servir ! seria um lanche a tarde! abrcäo Rafael!

  2. Rafael Henrique Zerbetto says:

    Oi Alice. No Sri Lanka notei que sempre que as pessoas recebem visitas (o que é comum, uma das coisas que mais gostei de lá foi esse hábito das pessoas se visitarem) elas oferecem chá. O chá Ceilão, consumido no Sri Lanka, costuma ser servido com açúcar ou leite, por isso eu acho que você poderia servir um chá que casa bem com açúcar, sugiro o chá mate brasileiro, que eu sempre suspeitei que agradaria o paladar das pessoas do Sri Lanka, já que os chás ingleses e do leste da Ásia, na minha opinião, não combinam com açúcar. Das vezes que me serviram chá no Sri Lanka ou era só o chá, ou traziam algumas bolachas para acompanhar. Espero ter ajudado, mas não se esqueça que talvez elas se interessem por um lanche da tarde tipicamente alemão ou brasileiro. Abraço!