Vesak-poya, a festa do nascimento de Buda

Escrito por em May 18, 2014 em rafael | 265 comentários

Entre os dias 14 e 15 de maio tivemos lua cheia. Aqui no Sri Lanka toda lua cheia é feriado, e esses feriados são chamados de poya. Cada poya é uma festa budista dedicada a algo especial, e o principal destes feriados é o Vesak, justamente o que acabou de acontecer.

Vesak é a comemoração do nascimento de Buda. Desde que cheguei aqui vejo, em todos os lugares, bandeiras semelhantes às que eu via na entrada dos pagodes no Vietnã (por aqui não há pagodes, e os templos budistas têm outro tipo de decoração e organização, pois aqui predomina outra forma de budismo, diferente daquela do leste da Ásia), inclusive em frente às casas, prédios comerciais, dentre outras coisas. Além das bandeiras, tinha uma novidade: lanternas e balões, alguns muito bonitos, enfeitando as ruas. Sei que essas bandeiras tem a ver com o budismo, mas então porque estavam em todo lugar? Depois vim a saber que é por causa do Vesak.

Prédio enfeitado com bandeiras para o Vesak

Prédio enfeitado com bandeiras para o Vesak

Além disso estavam contornando tudo com lâmpadas como essas que usamos em decorações de natal, mas a maioria sem pisca-pisca. Durante a WCY vi homens colocando iluminação ao redor das árvores, e durante as duas noites do Vesak, a lua cheia e a noite seguinte, tive a oportunidade de ver casas enfeitadas, com lampadazinhas, lanternas de papel e bandeiras. Mesmo quem não é budista participa do Vesak, e o que mais gostei foi ver o povo nas ruas se confraternizando.

Em Colombo vi altares e imagens de Buda em diversas esquinas e praças, normalmente dentro de uma câmara de vidro, sempre com um pote cheio de pétalas de flor diante da imagem, e aqui em Ja-Ela isso também existe, mas é mais comum ver imagens de santos católicos e estátuas representando passagens bíblicas, por isso suponho que aqui o catolicismo seja mais popular. Aproveito a ocasião para contar que, logo após o Vesak, uma imagem peregrina da Virgem Maria foi trazida até a casa do Zeiter junto com um pires cheio de pétalas de flor, e no dia seguinte levaram a imagem para outra casa, com o pires junto após a troca das pétalas. As imagens de Buda também são muitas e estão por toda parte, e é nas imediações delas que se comemora o Vesak.

Discutindo com o Zeiter sobre a programação do Congresso Singalês de Esperanto, perguntei se ele tinha bandeiras do Sri Lanka e do Esperanto, pois precisaríamos para a cerimônia de abertura. Ele me trouxe um saco com suas bandeiras, e no meio tinha uma do Vaticano. Ele então me explicou que, assim como os budistas fazem no Vesak, católicos enfeitam suas casas com luz e bandeiras do Vaticano por ocasião do Natal.

Com a família do Zeiter, indo para o Vesak

Com a família do Zeiter, indo para o Vesak

Saímos da casa da cunhada do Zeiter, eu e todos os familiares dele, e seguimos juntos em direção à entrada do condomínio. Pelas ruas, várias famílias a pé, todas indo aos lugares onde servem comida gratuitamente a todas as pessoas que chegam. Em qualquer lugar público onde há um altar para Buda colocam uma barraca nas proximidades, onde são entregues as refeições, e ao lado há várias mesas e cadeiras para as pessoas comerem e um caminhão-pipa conectado a uma pia para as pessoas lavarem as mãos.

O sobrinho do Zeiter pegou o carro. Decidiram me levar para a cidade, para ver a festa. Paramos em uma das barracas para comer e recebi um prato com arroz branco, sambol (é o que os singaleses mais comem, colocam isso em tudo), frango com um molho que é praticamente pimenta pura, e um creme que não sei do que se trata. O frango estava gostoso, mas o tempero era muito forte. O sambol deixei de lado. Experimentei o creme, mas também era forte demais. Foi a comida mais apimentada que já comi, depois de algumas mãozadas (aqui se come com as mãos) não conseguia mais engolir nada a não ser o arroz. Me serviram água para ajudar a engolir, mas deixei metade da comida no prato por não conseguir comer.

Há uma tira de plástico, desses de sacola de supermercado, em cima de cada prato. Após comer a pessoa embrulha o que sobrou neste plástico e devolve o prato limpo. O embrulho é jogado na galeria de águas pluviais.

Seguimos de carro para um outro lugar. Estávamos passando por um viaduto quando vi um altar enorme com um Buda, todo iluminado por lâmpadas coloridas. Parecia uma roda-gigante à primeira vista, com lâmpadas acendendo e apagando, mas era um altar. E ao lado dele, assim como dos outros altares que vi (exceto dentro dos templos), há alto-falantes entoando mantras.

Altar iluminado com Buda no centro da roda

Altar iluminado com Buda no centro da roda

Fomos até aquele altar iluminado que vi de longe. Cheguei perto dele, tirei fotos, vi as pessoas nas ruas comemorando o Vesak. Entramos em outra fila de comida. Nesta estavam dando sorvete. Depois voltamos para casa. No caminho ultrapassamos um tuk-tuk cheio de jovens animados batucando e cantando. Também vi algumas pessoas com máscaras. Aqui há caminhões de passageiro, parecidos com paus-de-arara, e também colocam cadeiras de plástico sobre caminhões de carga para levar pessoas para a festa. Aliás, também vi pessoas sendo transportadas em uma espécie de trator de um eixo, que precisa estar conectado à carreta para ficar em pé.

Na noite seguinte fomos até o Buda mais próximo daqui, onde nos serviram mandioca cozida com sambol. Comi toda a mandioca, com menos sambol do que os singaleses comem, mas não estava excessivamente picante. Após essa refeição fomos para a base da força aérea, pois nessas ocasiões eles abrem para visitação o memorial construído em homenagem aos combatentes da força aérea que morreram na guerra civil.

Comendo mandioca gringa, com as mãos, como é o costume no Sri Lanka

Comendo mandioca gringa, com as mãos, como é o costume no Sri Lanka

O memorial é muito bonito, cercado por espelhos d’água e precedido por ruínas de uma casa bombardeada. Acessa-se o andar de baixo por uma rampa e lá há um grande mural com fotos dos mortos, quase 500, e sobre cada foto se lê o nome, a posição na hierarquia militar e a função que exercia. Alguns eram médicos, enfermeiros e engenheiros que podiam estar fazendo muito pelo povo agora que a guerra já não existe, mas suas consequências estão por toda parte. Nunca antes estive em país recém saído de uma guerra, e agora sei que é algo muito pior do que sempre fui capaz de imaginar. Atrás do mural há um muro com frases escritas por familiares dos mortos: pais, filhos e esposas contando o que sentem e prestando homenagens a seus entes queridos.

Em frente à base aérea existe um templo budista, ainda em construção, e que estava aberto para visitação por ocasião do Vesak. Entramos. O chão é todo de areia, e deve-se tirar os sapatos logo na entrada. Caminhei pelo templo, vi várias imagens de Buda, incenso e velas queimando. Cheguei ao pé de uma árvore cercada por altares, em cada altar um Buda. Me ensinaram que se deve pegar um copo plástico (fica ao pé da árvore), encher de água na torneira, mentalizar um pedido e dar a volta ao redor da árvore parando em cada altar para uma reverência, e finalmente jogar a água na base da árvore, onde há pedaços de estátuas quebradas de Buda. Um desses Budas parecia olhar para mim pedindo água, então dei a ele o último gole.

Buda na entrada do templo

Buda na entrada do templo

Depois fomos até o altar principal, dentro de um salão no interior do templo, e lá as pessoas entram, se ajoelham e fazem uma reverência se abaixando. Fiz isso também, saí, e viemos embora. Tenho boas recordações do Vesak, festa que reúne todas as pessoas sem distinção, o que acho muito importante, pois a convivência entre os diferentes grupos sociais é a melhor forma de se combater preconceitos e discurso de ódio.

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